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Lazer & Gastronomia

São Paulo, SP

Quatro viagens no tempo, um só lugar: o Espaço Cultural CNP de Realidade Virtual

por Kleber Patrício

Devido ao sucesso das três expedições em realidade virtual iniciadas em setembro de 2025, o Espaço Cultural CNP de Realidade Virtual anuncia a prorrogação de suas atividades. Além da extensão do prazo, o centro cultural traz uma novidade de peso: a exibição simultânea de quatro roteiros distintos que transportam os visitantes por bilhões de anos de […]

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Em 2026, Coral Paulistano, fundado por Mário de Andrade, celebra 90 anos de trajetória

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Foto: Stig de Lavor.

Coral Paulistano, um dos corpos artísticos do Theatro Municipal de São Paulo, celebra 90 anos de trajetória com mais um concerto de aniversário: Paulistano 90 Anos: Encontros, no dia 12 de abril, às 11h, na Sala de Espetáculos. Sob regência de Maíra Ferreira e Isabela Siscari, e a participação do pianista Renato Figueiredo. Os ingressos custam de R$13 a R$50, a classificação é livre e duração de 70 minutos, sem intervalo.

O repertório contará com as seguintes obras: Le chant des oyseaux, de Clément Janequin; O schöne Nacht, de Johannes Brahms; Ave Maria, de Heitor Villa-Lobos; Salmo 150, de Ernst Widmer; Aleluia, de Ronaldo Miranda; Inspiração, de Gilberto Mendes; Momento, de Antonio Ribeiro, Suíte dos pescadores, de Dorival Caymmi, arranjo de Damiano Cozzella, e Misa Criolla, de Ariel Ramirez.

O Coral foi criado em 1936, a partir da proposta de trazer a música brasileira para a programação do teatro. A iniciativa de Mário de Andrade foi bem recebida e implementada pelo então diretor do Departamento Municipal de Cultura para sensibilizar a elite paulistana com as ideias e os ideais do movimento modernista, que contagiava os compositores brasileiros da época e que eram, até então, desconhecidos pela sociedade.

O surgimento do grupo é considerado um marco da história da música em São Paulo, pois foi um dos muitos desdobramentos do movimento modernista da Semana de Arte Moderna de 1922. Ao longo dos anos, alguns dos maiores destaques a música brasileira estiveram a frente do coral, como Camargo Guarnieri, Fructuoso Vianna, Miguel Arqueróns, Tullio Colacioppo, Abel Rocha, Zwinglio Faustini, Antão Fernandes, Samuel Kerr, Henrique Gregori, Roberto Casemiro, Mara Campos, Tiago Pinheiro, Bruno Greco Facio, Martinho Lutero Galati e Naomi Munakata.

A maestra Maíra Ferreira, que atualmente é regente titular do Coral, afirma que o principal objetivo do grupo é divulgar a música brasileira dedicando-se com êxito a esse propósito. “Falar sobre os 90 anos do Coral Paulistano implica em destacar as qualidades que, a meu ver, definem hoje o Coral Paulistano. Trata-se de um grupo profundamente diverso em suas escolhas de repertório, estilos e formatos de concerto, sempre respeitando a tradição coral, olhando para o passado, mas afirmando-se como um conjunto essencialmente contemporâneo, tanto nas escolhas artísticas, quanto na maneira como compreendemos e interpretamos a música coral atual”, ressalta. “Para mim, é uma honra, uma alegria e também uma grande responsabilidade celebrar esses noventa anos de um grupo criado por Mário de Andrade, escritor, historiador e figura fundamental para a história da cultura, da arte e da música brasileiras. Em nenhum momento desejamos nos afastar da visão que ele teve enquanto diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, sustentada por uma bagagem intelectual admirável”, celebra a maestra.

Concerto de celebração oferece oportunidade de cantar ao lado do Coral

Em continuidade às celebrações de sua trajetória, o concerto Paulistano 90 Anos: Encontros terá a participação do pianista Renato Figueiredo. O instrumentista é mestre em Musicologia, Bacharel e Licenciado em Música pela Universidade de São Paulo, atua como pianista ensaiador do Coral Paulistano, no Theatro Municipal de São Paulo.

Além da participação especial, um dos destaques do programa é o “Cante Junto”, momento em que cantores de diversos coros são convidados a se inscreverem para interpretar, ao lado do Coral Paulistano, a Misa Criolla, obra significativa do repertório coral latino-americano e frequentemente apresentada pelo grupo ao longo de sua trajetória. O concerto contará ainda com peças marcantes da história do Coral Paulistano, com especial atenção às últimas três décadas, aproximando integrantes de diferentes períodos e reforçando o encontro entre passado e presente na construção do grupo.

Maíra Ferreira destaca que este primeiro concerto comemorativo ganhou um significado especial. “Levaremos ao palco grande parte do programa apresentado no concerto inaugural do Coral Paulistano, em 1936, incluindo obras que nunca mais haviam sido executadas desde então. Esse reencontro entre passado e presente foi especialmente feliz, pois articula a memória do que foi feito com o gesto contemporâneo de apresentar uma obra inédita de Guarnieri, justamente o primeiro regente do grupo”. 

“O programa se constrói como uma costura simbólica entre figuras centrais da nossa história e o desejo pulsante do novo. Trata-se de preservar a memória artística do Coral Paulistano, das pessoas que foram fundamentais para sua fundação, mas também de afirmar aquilo que queremos deixar para o futuro. Que, ao olharem para 2026, possam compreender o que estava sendo criado neste momento: uma instituição que honra sua trajetória sem abrir mão da invenção”, destaca Maíra.

Serviço:

Paulistano 90 Anos: Encontros

Sala de Espetáculos, Theatro Municipal

CORAL PAULISTANO

Maíra Ferreira e Isabela Siscari, regência

Renato Figueiredo, piano

Programa

CLÉMENT JANEQUIN
Le chant des oyseaux [5’20]

JOHANNES BRAHMS
O schöne Nacht [2’30]

HEITOR VILLA-LOBOS
Ave Maria [3’]

ERNST WIDMER
Salmo 150 [5’]

RONALDO MIRANDA
Aleluia [5’]

GILBERTO MENDES
Inspiração [1’30]

ANTONIO RIBEIRO
Momento [4’]

DORIVAL CAYMMI (ARR. DAMIANO COZZELLA)
Suíte dos pescadores [5’20]

ARIEL RAMIREZ
Misa Criolla [30′]

Ingressos de R$13 a R$50 (inteira)

Duração de 70 minutos, sem intervalo

Classificação: Livre para todos os públicos.

(Com Letícia Santos/Theatro Municipal)

DAN Galeria apresenta mostra inédita de Ivald Granato

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Ivald Granato Quem é você – The Mask, 1998. Ficha Técnica: acrílica, lápis e textura terracor sobre madeira, 73 x 74 cm. Fotos: Ana Pigosso.

DAN Galeria inaugura, em 28 de março, a exposição “Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?”, com curadoria de Maria Alice Milliet. A mostra inédita reúne um conjunto de pinturas realizadas por Granato no fim da década de 1990 e as coloca em diálogo com máscaras africanas preservadas nas coleções de Christian-Jack Heymès e da família Mastrobuono. A abertura acontece em São Paulo e se conecta à agenda da 22ª edição da SP-Arte.

A exposição parte de um dado central para a leitura da trajetória de Ivald Granato. Durante décadas, sua presença pública, suas ações performáticas e sua energia irreverente ocuparam lugar decisivo na recepção de sua obra. Esse aspecto é incontornável, mas não a resume.

Ivald Granato, Quem é você – The Mask, 1998. Ficha Técnica: acrílica, lápis e textura terracor sobre madeira, 73 x 74 cm.

Granato foi também um pintor de grande domínio técnico, um desenhista excepcional e um conhecedor profundo da história da arte. Transitava entre linguagens e repertórios com intimidade rara, não para repetir estilos, mas para tensioná-los a partir de uma inteligência visual muito própria. Maria Alice Milliet lembra que, ao chegar à maturidade, depois de mais de três décadas de exposições, premiações e reconhecimento, Granato já ocupava um lugar de destaque na cena artística brasileira. Talentoso desenhista e pintor, havia atravessado os “ismos” e a Pop Art em estreita sintonia com seu tempo.

Essa mostra ajuda a recolocar esse ponto em evidência, situando-o como parte de uma investigação consistente, em que pintura, memória, teatralidade e identidade se entrelaçam. No fim dos anos 1990, Granato se afasta, por um momento, do embate mais imediato com a contemporaneidade e volta o olhar para dimensões profundas de sua própria formação. É desse movimento que nasce a série ligada às máscaras. Segundo a curadora, essa passagem corresponde a uma inflexão em sua carreira, quando o artista procura valores ligados ao passado, à ancestralidade e à memória cultural brasileira. Em 1998, Granato realiza uma série de pinturas sobre papel chamada The Mask. Na sequência, desenvolve obras de maior fôlego reunidas sob o título Quem é você – The Mask. Para o artista, essas máscaras eram anotações visuais de rostos que povoavam seu imaginário.

Desconhecido – Máscara punu (Gabão) – madeira preta, 34 cm altura.

Ao tratar dessa produção, Maria Alice Milliet desloca a leitura habitual que costuma aproximar esse tipo de repertório apenas da tradição europeia do moderno. No caso de Granato, ela está ligada à busca de raízes culturais e ao desejo de afirmação identitária. A curadora recupera sua origem miscigenada, com ascendência negra e indígena, e inscreve essa série num campo de pertencimento, reconhecimento simbólico e reverência, marcado por uma aproximação que nasce de dentro. Esse aspecto é decisivo para a compreensão da mostra. A ancestralidade africana aparece como força estrutural na cultura brasileira e como chave para reler uma parte importante de sua obra.

Milliet observa que, depois de uma primeira incursão em figuras mais próximas de um universo popular e carnavalesco, Granato volta-se para as máscaras tribais. Na série cuja pergunta organiza o título da exposição, vemos uma sucessão de caras estranhas emergirem de fundos escuros, em composições que condensam intensidade gráfica, energia cromática e forte carga simbólica. A representação tem, nesse conjunto, um peso particular. Ela é figura de passagem, condensação de gesto, invenção de persona e presença ritual. Dez anos após sua morte, Máscaras, Ivald Granato – Quem é você? nos faz compreender com mais nitidez a complexidade do artista.

Sobre o artista

Ivald Granato (Campo dos Goytacazes, Brasil, 1949 —São Paulo, Brasil, 2016). Do que é possível ser praticado por um artista, pouquíssimas são aquelas realizações que escaparam a Ivald Granato. Não é de se espantar, portanto, que ele seja um dos precursores da performance no cenário artístico brasileiro. Incluindo o seu próprio corpo, numerosos são os suportes e meios que empregou na feitura de sua obra, ato contínuo e intenso de uma criação inquieta e provocativa.

Máscara Seracule (Mali), 22 cm altura.

Ainda que Granato seja muito destacado pela prática de performances como I’m not Andy Warhol e a icônica Mitos Vadios, de 1978, é a pintura que consagrou sua produção artística. Antes de qualquer coisa, Granato foi um grande pintor e desenhista, práticas que começou a desenvolver ainda na infância. Em sua pintura, o artista consegue transmitir espontaneidade e vivacidade, conquistadas com pinceladas rápidas e livres, cores intensas e vibrantes, o que resulta em trabalhos de corporalidade expressiva e frenético gesto criativo. Diga-se, tudo muito bem construído e documentado pelo artista. Em mais de cinquenta anos de trajetória artística, Granato deve fases bem distintas e marcantes, que iam acontecendo com naturalidade. Seu rigor técnico e organização o acompanharam por todos os períodos, assim como sua obstinação desde criança para desenvolver sua trajetória artística, atestada pela família e amigos próximos a ele.

Assim, há obras que dialogam com o surrealismo, a Pop Art, como as da Série Pop, dos anos 60, arte conceitual nos anos 70, figurativo e abstrato mais tarde. A expressividade gestual sempre foi destacada. Na obra A Natureza-Morta que Picasso Pintou e Deixou em Minha Casa Quando eu Tinha Cinco Anos (1979) Granato utiliza procedimentos do cubismo para dar um tratamento tendente ao abstrato às figuras vagamente antropomórficas, enquanto em Margot (1981) a figura humana ganha um tratamento fantasioso e expressivo. Granato também visitou grandes mestres, com releituras da história da arte, como Sem Título/Monalisa, pertencente à série Heads, dos anos 2000, na qual o artista substitui o rosto da Monalisa pela silhueta de uma cabeça cujos traços se baseiam no formato do perfil de seu pai e, também, numa obra como Baconato (2013), onde o artista desenvolve uma série (inédita) sobre obras de Francis Bacon, fundindo os trabalhos dos dois, e revelando o percurso da mistura.

Em toda obra pictórica de Granato domina a força da gestualidade, a presença intensa do corpo do artista na obra. O gesto aqui opera como evidência do potente ato criativo, cujo movimento e energia preservam-se presentes na obra acabada, atualizando constantemente o processo gerativo que é a própria pintura. Mais do que isso, está surge sempre como acontecimento, sinal paradoxal da criação que permanece inédita mesmo após a consolidação do seu próprio ato.

Sobre a galeria

Ivald Granato, Quem é você – The Mask, 1998. Ficha Técnica: acrílica, lápis e textura terracor sobre madeira, 73 x 74 cm.

A DAN Galeria foi fundada em 1972, em São Paulo, por Gláucia e Peter Cohn. Nos primeiros anos de atividade, a galeria concentrou-se na arte moderna brasileira, apresentando obras de importantes artistas do movimento modernista de 1920, tais como Di Cavalcanti, Antonio Gomide, Ismael Nery, Tarsila do Amaral entre outros. Ainda nos primeiros anos de funcionamento, artistas como Alfredo Volpi, Cícero Dias, Antonio Bandeira e Yolanda Mohalyi foram incorporados ao grupo representado pela galeria que, ao longo das últimas décadas, expandiu-se também para a produção internacional e para a arte contemporânea.

O departamento de arte contemporânea foi criado em 1985 por Flávio Cohn, filho do casal fundador. Posteriormente, seu irmão Ulisses Cohn também se associou ao quadro de direção da Dan. Juntando pesquisa histórica e sintonia com o mercado internacional, nos últimos vinte anos a galeria exibiu obras de Lygia Clark, Lothar Charoux, Luiz Sacilotto, Gonçalo Ivo, Ascânio MMM, Macaparana, Sérgio Fingermann e artistas internacionais como Sol LeWitt, Antoni Tapies, Jesus Soto, Cesar Paternosto, Eduardo Stupía, Adolfo Estrada, Knopp Ferro, Ian Davenport, Max Bill, Joseph Albers, além dos britânicos Tony Cragg, Kenneth Martin e Mary Martin.

A DAN Galeria incluiu mais recentemente em sua seleção, importantes artistas concretos: Francisco Sobrino, François Morellet e Getúlio Alviani; bem como os artistas geométricos abstratos históricos: Sandu Darié, Salvador Corratgé, Wilfredo Arcay e Dolores Soldevilla, só para mencionar alguns dos cubanos do grupo Los Once (The Eleven). O fotógrafo brasileiro Cristiano Mascaro; os artistas José Spaniol e Teodoro Dias (Brasil); os internacionais, Tony Cragg (G. Bretanha), Lab [AU] (Bélgica) e Jong Oh (Coréia), se juntaram ao departamento de Arte Contemporânea da galeria.

Máscara africana, procedêcia desconhecida – , madeira 22cm altura.

A DAN Galeria sempre teve por propósito destacar artistas e movimentos brasileiros desde o início da década de 1920 até hoje. Ao mesmo tempo, mantém uma relação próxima com artistas internacionais, uma vez que os movimentos artísticos historicamente se entrelaçam e dialogam entre si sem fronteiras.

Serviço:

Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?

Curadoria: Maria Alice Milliet

Endereço: DAN Galeria – Rua Estados Unidos, 1638 – São Paulo

Abertura: 28 de março

Período expositivo: 28 de março a 27 de junho

Horário: das 10h às 19h, de segunda a sexta; das 10h às 13h, aos sábados

Entrada gratuita

Classificação: livre

Mais informações: dangaleria.com.br

(Com Edgard França/Cor Comunicação)

Novo livro de Helder Maldonado investiga como imaginários nacionais influenciam o Brasil do século XXI

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Obra analisa raízes históricas e sociais da fragmentação brasileira.

Em “É possível unir o Brasil?”, o comunicador Helder Maldonado investiga as raízes históricas e culturais das divisões que moldam o país e desafia a concepção de uma “brasilidade cordial”. Com ironia e precisão analítica, o autor desmonta a imagem de um Brasil harmonioso — construída por discursos que vão de pensadores clássicos à indústria cultural — e expõe as engrenagens de um projeto de dominação interna que transformou indígenas, negros, pobres e nordestinos em alvos recorrentes de estigmatização.

A partir do declínio do futebol como símbolo de identidade nacional, da ascensão da cultura digital e da intensificação das desigualdades, Maldonado mostra como a ideia de um “país de todos” entrou em colapso. Ele analisa como ressentimento, nostalgia e disputas políticas moldam as percepções sobre democracia, eleições e pertencimento, evidenciando que muito do que se entende hoje como polarização é, na verdade, a revelação de fissuras antigas.

Na obra, o autor também reconhece a vitalidade de um Brasil contraditório, múltiplo e resistente a simplificações. O livro combina ensaio, sátira e observação social para refletir sobre o que significa ser brasileiro em um momento de tensão política e transformação acelerada — e levanta a pergunta central: ainda existe algo capaz de unir o país além da desilusão compartilhada?

Helder Maldonado é um dos criadores do canal Galãs Feios, que reúne mais de 1,3 milhão de inscritos no YouTube, focado em comentar política, cultura pop, comportamento e celebridades com humor ácido, ironia e uma abordagem progressista. O livro conta com prefácio de Deusdete Negarestani, pseudônimo do pesquisador e filósofo Anderson Cleiton Fernandes Leite, também colaborador do canal. É possível unir o Brasil? aborda temas como democracia, redes sociais, polarização, racismo e desigualdade, oferecendo um retrato direto e contemporâneo das tensões que atravessam o Brasil de hoje.

FICHA TÉCNICA

Título: É possível unir o Brasil?

Autor: Helder Maldonado

ISBN: 978-85-422-4024-5

144 páginas

R$ 52,90

Editora Planeta

Sobre o autor

Helder Maldonado nasceu em São Paulo, em 1985, último ano da ditadura militar. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, teve sua trajetória profissional marcada principalmente por atuações nas editorias de música e política, com passagens pelos portais IG, R7, UOL e Sucesso!. Em 2018, criou o canal Galãs Feios no YouTube, espaço dedicado para o debate político e cultural com humor, leveza e deboche. Como escritor, é autor do livro Amanhã vai ser pior, que analisa os primeiros anos do bolsonarismo no poder.

Sobre a Editora

Fundado há 70 anos em Barcelona, o Grupo Planeta é um dos maiores conglomerados editoriais do mundo, além de uma das maiores corporações de comunicação e educação do cenário global. A Editora Planeta, criada em 2003, é o braço brasileiro do Grupo Planeta. Com mais de 1.500 livros publicados, a Planeta Brasil conta com nove selos editoriais, que abrangem o melhor dos gêneros de ficção e não ficção: Planeta, Crítica, Tusquets, Paidós, Planeta Minotauro, Planeta Estratégia, Outro Planeta, Academia e Essência.

(Com Nathalia Bottino/Editora Planeta)

Instituto Tomie Ohtake apresenta “Existe uma vida inteira que tu não conhece”, primeira individual institucional de Allan Weber no Brasil

São Paulo, por Kleber Patricio

Allan Weber, Sem título, da Série Dia de Baile, 2023, lona sobre placa, 108 x 70cm. Foto: Rafael Salim.

Ministério da Cultura, o Nubank e o Instituto Tomie Ohtake apresentam, de 18 de março a 24 de maio de 2026, “Existe uma vida inteira que tu não conhece”, primeira individual institucional de Allan Weber em São Paulo, com curadoria de Ana Roman e Catalina Bergues. Reunindo cerca de quarenta trabalhos, entre esculturas, fotografias, instalações e vídeos, a mostra toma a cidade como lugar de experiência e observação direta, a partir das formas de trabalho, circulação e organização que estruturam a vida urbana. A exposição acontece paralelamente às mostras “Profanações”, do artista mineiro Pablo Lobato, e “Etcétera”, que revisita os cinquenta anos de carreira do arquiteto Isay Weinfeld.

Nascido e criado na comunidade 5 Bocas, em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio de Janeiro – onde vive até hoje –, Allan Weber toma a vida urbana como matéria de grande parte da sua produção artística. Seu trabalho é profundamente enraizado nas realidades do território onde habita, incorporando as tensões, as contradições e a violência que atravessam esse ambiente. Nas ruas, o artista encontra um campo de relações e deslocamentos, a partir do qual transforma objetos e materiais do cotidiano em construções poéticas que também funcionam como comentários sobre as dinâmicas sociais da cidade. Suas obras operam nessa tensão entre quem observa a cidade a distância e quem depende dela para trabalhar.

Nesse contexto, a realização da mostra no Instituto Tomie Ohtake, localizado na Avenida Faria Lima, centro financeiro por onde circulam diariamente milhares de motoboys, também ganha um significado particular. O deslocamento desses trabalhadores sustenta a dinâmica da cidade, embora esse ofício raramente se traduza em estabilidade financeira, direitos ou reconhecimento social equivalentes. Muitas das obras desta exposição foram produzidas pelo artista durante sua permanência em São Paulo, em contato direto com territórios, objetos e modos de vida que raramente integram as imagens mais difundidas da cidade. Essas experiências se somam às que atravessam sua trajetória no Rio de Janeiro.

Allan Weber, Sobre balão, da série Traficando Arte, 2021, Impressão em papel Hahnemühle Photo RagBaryta 315gr, 75 x 50cm. Foto: Divulgação.

Entre as obras, destaca-se uma grande instalação composta por objetos associados ao cotidiano dos motoboys. Bancos de motocicleta, capacetes e mochilas de entregadores são suspensos por elásticos – retirados de sua função original e reorganizados de modo a alterar a circulação e a percepção do público. A mostra traz também Nós que sustenta na raça, obra em que caixas-d’água empilhadas formam torres. Ao reorganizar esse elemento recorrente na paisagem das periferias urbanas, o artista desloca um objeto funcional para o campo da escultura, criando composições que dialogam com a tradição construtiva ao mesmo tempo em que permanecem ancoradas nas realidades de onde esses materiais provêm.

Trabalhos realizados com lonas utilizadas nas estruturas de bailes funk também estão presentes na exposição. A partir desse material usado na cobertura de festas e eventos comunitários, o artista cria composições que dialogam com a abstração geométrica sem perder o vínculo com os contextos urbanos de onde surgem. Ao trazê-las para o espaço expositivo, Weber preserva rasgos, costuras e tensões, reorganizando essas superfícies por meio de cortes e recombinações desenvolvidos a partir de diagramas e estudos preparatórios.

Iniciada durante a pandemia de covid-19, período em que o artista atuou como entregador, a série Tamo junto não é gorjeta registra o cotidiano desses trabalhadores a partir de dentro desse circuito de trabalho. “A câmera não ocupa uma posição externa, mas se insere no interior desse circuito, registrando os intervalos entre uma entrega e outra, a espera, o cansaço e os momentos de suspensão que estruturam essa rotina. Suas imagens não constroem um retrato heroico nem organizam uma denúncia direta, mas revelam a experiência cotidiana do trabalho em sua duração”, afirmam as curadoras. O título retoma a expressão “tamo junto”, dirigida aos entregadores como gesto de aparente solidariedade, mas que também evidencia a distância entre quem realiza o trabalho e quem dele depende.

Allan Weber, Sem título, da série Tamo junto não é gorjeta, 2020, Impressão em papel Hahnemühle Photo RagBaryta 315gr, 40x60cmx3cm. Foto: Divulgação.

A exposição também apresenta camisetas de times de futebol criadas pelo artista. As peças carregam nomes, marcas e expressões que surgem das relações cotidianas de Weber. Esses elementos estão diretamente ligados à Galeria 5 Bocas, fundada pelo artista em 2020, em sua comunidade. Mais do que um espaço expositivo, a galeria funciona como um ponto de encontro onde exposições de arte contemporânea convivem com atividades do cotidiano, celebrações e práticas coletivas que atravessam e alimentam sua produção artística.

Sobre o artista

Allan Weber (1992, Rio de Janeiro) é um artista multidisciplinar cuja obra abrange uma gama de suportes, incluindo assemblage, escultura, instalação e fotografia. Por meio de práticas conceituais, Weber leva para os espaços expositivos materiais e objetos carregados de história, oferecendo uma janela para realidades que ele vivencia e imagina. Tendo iniciado sua pesquisa artística a partir das dinâmicas sociais e geopolíticas da cidade do Rio de Janeiro, seu olhar se expandiu para abordar questões da geopolítica global. A prática de Weber é profundamente enraizada nas realidades do ambiente em que vive, incorporando a ambiguidade, o caos e a violência da vida urbana. Ele vê as ruas como um tecido conjuntivo, transformando objetos mundanos em poéticas contundentes e comentários sociais.

A exposição Existe uma vida inteira que tu não conhece é uma realização do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, e do Instituto Tomie Ohtake. A mostra conta com o patrocínio do mantenedor institucional Nubank e com o apoio da Galeria Galatea e da Galeria 5 Bocas.

Serviço:

Existe uma vida inteira que tu não conhece – Allan Weber

18 de março a 24 de maio de 2026

De terça a domingo, das 11h às 19h [última entrada até 18h]

Entrada franca

Instituto Tomie Ohtake

Av. Faria Lima 201 (Entrada pela Rua Coropé, 88) – Pinheiros – SP

Metrô mais próximo – Estação Faria Lima/Linha 4 – Amarela

Telefone: (11) 2245-1900

Site: institutotomieohtake.org.br

Facebook: facebook.com/inst.tomie.ohtake

Instagram: @institutotomieohtake

Youtube: https://www.youtube.com/@tomieohtake

Loja: www.lojatomie.org.br.

(Com Martim Pelisson/Instituto Tomie Ohtake)

Sesc Belenzinho apresenta “Travessia” e faz do palco balsa à deriva em meio ao naufrágio civilizatório

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Foto: Bob Sousa.

Uma balsa flutua à deriva no espetáculo “Travessia”, que estreia dia 1º de abril no Sesc Belenzinho. Ao mesmo tempo metáfora do mundo contemporâneo e ferida aberta da história, ela remete a um naufrágio real que expôs a brutalidade das engrenagens coloniais e da desigualdade social.

Em 1816, a fragata francesa Medusa naufragou na costa da África após a negligência de um capitão nomeado por influência política. Sem botes suficientes, reservados aos oficiais e homens brancos, cerca de 150 pessoas foram abandonadas em uma balsa improvisada. Fome, sede, violência e desespero reduziram o grupo a apenas 15 sobreviventes após 2 semanas. O episódio chocou a França e foi transformado por Théodore Géricault no monumental quadro A Balsa da Medusa (1818), uma denúncia da desumanização produzida por sistemas que hierarquizam vidas e naturalizam o descarte humano.

Em Travessia, essa imagem histórica torna-se um dispositivo dramatúrgico para refletir os naufrágios civilizatórios do presente: migrações forçadas, fronteiras militarizadas, polarização ideológica e os mecanismos de poder que decidem quem merece proteção e quem pode ser lançado ao mar. “Não interessava fazer uma reconstituição histórica da balsa”, explica a autora e diretora Gabriela Mellão. “O que nos moveu foi colocar essa imagem em fricção com as histórias reais dos artistas em cena, criando um espelhamento entre o naufrágio colonial e os naufrágios contemporâneos que seguimos produzindo.” 

O espetáculo nasceu de um processo colaborativo de quase dois anos entre Mellão, atores reconhecidos da cena brasileira, como Miriam Rinaldi, Vitor Britto e Rodrigo Bolzan, e artistas em situação de deslocamento: Dani Mara (brasileira indígena), Prudence Kalambay (República Democrática do Congo), Mariama Bintu Bah (Gâmbia/Senegal), Mario Tadeo (boliviano indígena), Victor Gee Rosales (Venezuela) e Shambuyi Wetu (República Democrática do Congo).

A diversidade, aqui, não aparece como tema ou ilustração: é o próprio método de criação. Travessia só existe porque corpos, histórias e cosmologias muito diferentes tiveram uma troca real, sustentando conflitos e visões de mundo distintas em nome de uma criação conjunta”, afirma Mellão.

A dramaturgia constrói um tecido de camadas narrativas que se entrelaçam. O episódio da Medusa dialoga com depoimentos autobiográficos, fragmentos documentais, tragédia grega e mitologia indígena. Em uma de suas linhas, atores disputam os papéis de Clitemnestra e Egisto em uma audição fictícia, revelando tensões entre identidade, representação e poder. Situações envolvendo filas burocráticas, discursos de inclusão, mercantilização da diversidade e afetos administrados por lógicas de mercado atravessam a cena.

Uma dimensão mítica também irrompe na narrativa: a figura de uma serpente ancestral engolida por um corpo humano, aprisionada em um sistema urbano que não reconhece sua língua, seu ritmo ou sua cosmologia. Condenada a adaptar-se para sobreviver, essa imagem alegórica traduz a violência silenciosa que opera quando indivíduos e culturas precisam caber em regras que negam suas cosmogenias.

Elementos da tragédia grega estruturam a dramaturgia. Como nos dramas antigos, os personagens se veem confrontados por forças maiores do que suas vontades individuais, engrenagens políticas e sociais que frequentemente determinam sua sorte. O coro, porém, é reinventado. Em vez de representar uma comunidade unificada, torna-se um corpo múltiplo. Português, espanhol, francês e línguas africanas e indígenas atravessam a cena, compondo uma polifonia que encarna um tempo em trânsito.

Visualmente, o espetáculo cria quadros vivos inspirados na pintura de Géricault, transformando os atores em dispositivos narrativos e plásticos. Não há protagonismo individual: o que se ergue em cena é um coletivo heterogêneo que sustenta a balsa, questiona o poder e humaniza as diferenças.

A pesquisa que deu origem à obra nasce do legado intercultural do diretor inglês Peter Brook, cuja prática teatral buscou reinventar o palco a partir do encontro real entre culturas. Em Travessia, esse impulso é revisitado à luz das urgências do século XXI.

O espetáculo transforma o teatro em um espaço de atravessamento entre culturas, tempos históricos e modos de existir. Um laboratório sensível onde ainda se pode experimentar outros pactos de convivência, reimaginar o futuro e, mesmo à deriva, recusar a lógica que lança sempre os mesmos corpos ao mar.

O espetáculo convida o espectador a embarcar na balsa e o convoca a refletir sobre as posições que ocupa dentro dela. Quem sabe, inspirando o ato praticado no próprio processo da obra: a insistência em reconhecer o outro em sua plena humanidade.

Sinopse: Travessia entrelaça a história real que deu origem ao célebre quadro “A Balsa de Medusa”, de Théodore Géricault, com o drama de um grupo de atores de culturas diversas que, ao disputar o papel de Clitenmnestra e Egisto, vê-se lançado às águas revoltas de uma sociedade que teima em moldar corpos, vozes e destinos. Entre testes teatrais, naufrágios pessoais e coletivos, o espetáculo navega rumo ao direito de cada um existir sem concessões.

Ficha técnica

Dramaturgia de Gabriela Mellão a partir de criação coletiva

Direção de Gabriela Mellão

Com Dani Mara, Mariama Bintu Bah, Mario Tadeo, Miriam Rinaldi, Prudence Kalambay, Rodrigo Bolzan, Vitor Britto, Victor Gee Rosales, Shambuyi Wetu

Coreografia: Reinaldo Soares

Desenho de Luz: Aline Santini

Assistente de Iluminação: Gabriela Ciancio

Trilha Sonora Original: Federico Puppi

Técnico de Som: Henrique Berrocal

Cenografia: Camila Schmidt

Cenógrafa assistente: Irina Bertolucci Chermont

Figurinista: Kledir Salgado

Assistente de Figurino: Cicer Ryan (Ateliê Fhom)

Assistente de Direção e Preparador de Ator: Daniel Passi

Fotografia: Bob Sousa

Tratamento de Imagem: Leonardo Palma

Designer Gráfico: Victor Gee Rosales

Produção: Corpo Rastreado.

Serviço:

Espetáculo Travessia

De 1 de abril a 3 de maio de 2026. Quinta a sábados, às 20h. Domingos, às 18h30.

Estreia na quarta 1/4 às 20h

Ingressos: R$ 50,00 (inteira); R$ 25,00 (meia-entrada); R$ 15,00 (Credencial Plena)

Vendas no portal sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades Sesc.

Local: Sala de Espetáculos I (120 lugares). Duração: 70 min. Classificação: 12 anos.

SESC BELENZINHO

Endereço: Rua Padre Adelino, 1000 – Belenzinho – São Paulo (SP)

Telefone: (11) 2076-9700

sescsp.org.br/Belenzinho

Estacionamento: De terça a sábado, das 9h às 21h. Domingos e feriados, das 9h às 18h. Valores: Credenciados plenos do Sesc: R$ 8,00 a primeira hora e R$ 3,00 por hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 17,00 a primeira hora e R$ 4,00 por hora adicional.

Transporte Público: Metro Belém (550m) | Estação Tatuapé (1400m)

Sesc Belenzinho nas redes: Facebook | Instagram | YouTube: @sescbelenzinho

(Com Priscila Dias/Sesc Belenzinho)