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56ª edição do Festival de Inverno de Campos do Jordão conta com mais de 80 concertos gratuitos em Campos do Jordão e São Paulo

Campos do Jordão, SP, por Kleber Patricio

Orquestra do Festival sob regência de Josep Caballé Domenech na 55ª edição do Festival. Foto: Íris Zanetti.

Criado em 1970 e reconhecido como o mais tradicional evento de música clássica da América Latina, o Festival de Inverno de Campos do Jordão chega à sua 56ª edição em 2026. A programação artística acontece de 4 de julho a 2 de agosto, em seis palcos em Campos do Jordão e em três na capital paulista. Serão mais de 80 apresentações, todas elas com entrada gratuita. Na cidade da Serra da Mantiqueira, o Festival acontece no Auditório Claudio Santoro, no Parque Capivari, na Capela São Pedro Apóstolo — localizada no Palácio Boa Vista —, no Espaço Cultural Dr. Além, e em dois novos palcos: a Concha Acústica do Museu Felícia Leirner — vizinha do Auditório —, e o CARDE Museu, aberto ao público em 2024. Esse acréscimo amplia o acesso dos eventos à população local e também aos milhares de turistas que visitam a cidade durante o inverno.

A capital paulista também terá um calendário de performances diverso na Sala São Paulo. Elas acontecem na Sala de Concertos, na Estação Motiva Cultural — espaço inaugurado em 2025 — e na Sala Eleazar de Carvalho, situada no primeiro andar da Sala São Paulo e aberta ao público a partir desta edição do Festival. “Quando assumi a direção artística, a pergunta era: o que poderia trazer mais conteúdo e mais brilho a um festival que já é o maior da América Latina? A resposta foi trabalhar com profundidade. Nesta edição, o público poderá mergulhar no universo de Brahms, com as quatro sinfonias, obras orquestrais e mais de 30 peças de música de câmara, além de acompanhar uma produção completa de A Flauta Mágica, de Mozart, no Auditório Claudio Santoro”, afirma Roberto Minczuk, diretor artístico do Festival de Inverno de Campos do Jordão.

Enquanto a programação artística reúne alguns dos principais intérpretes e conjuntos do estado de São Paulo e do país, a formação de novos talentos continua sendo o coração do Festival. Considerado a espinha dorsal do evento, o Módulo Pedagógico oferece nesta edição 140 bolsas de estudo a jovens músicos brasileiros, especialmente, e estrangeiros.

Ao longo de todo o mês, os bolsistas participarão de uma intensa programação de aulas, ensaios, masterclasses e apresentações, em contato direto com professores convidados do Brasil e do exterior. Além da formação artística, o Festival proporciona uma experiência profissional completa, permitindo que os alunos integrem grupos artísticos e participem de concertos em Campos do Jordão e São Paulo.

Uma das novidades desta edição é a Academia de Ópera, iniciativa voltada à formação de cantores e instrumentistas em repertório lírico. A atividade dialoga diretamente com a montagem de A Flauta Mágica, de Mozart, apresentada pela Orquestra do Festival, o Coro Acadêmico da Osesp e solistas sob direção musical de Roberto Minczuk e direção cênica de Pablo Maritano. Ela acontecerá nos dias 4, 5, 8, 9, 11 e 12 de julho no Auditório Claudio Santoro, em Campos do Jordão. “O Brasil possui muitos talentos no canto lírico, mas ainda oferece poucas oportunidades para que esses artistas desenvolvam plenamente seu potencial. A ópera exige experiência de palco, atuação, domínio musical e convivência com profissionais experientes. A criação da Academia de Ópera nasce justamente desse desejo de oferecer aos jovens cantores uma formação prática e intensiva dentro de um ambiente artístico de excelência”, comenta o diretor do Festival.

DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO

Entre os destaques da Programação Artística em Campos do Jordão está o concerto de abertura ao ar livre da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), sob regência de seu diretor musical e regente titular, Thierry Fischer, no Parque Capivari (04/jul). Ainda na noite de abertura, o Núcleo de Ópera do Festival apresenta A Flauta Mágica, de Mozart, com direção musical de Roberto Minczuk, no Auditório Claudio Santoro.

A agenda sinfônica reúne algumas das principais orquestras e corpos artísticos do país, entre elas a Sinfônica de Guarulhos, Orquestra Jovem do Estado de São Paulo (Ojesp); a Orquestra Experimental de Repertório (OER); a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas; a Orquestra Filarmônica Catarinense; a Orquestra do Theatro São Pedro; a Camerata Antiqua de Curitiba; e a Orquestra Sinfônica da USP (Osusp). A Orquestra do Festival, formada pelos bolsistas selecionados desta edição, fará um ciclo completo das Sinfonias de Brahms, um dos mais amados compositores da música de concerto.

A programação também amplia o diálogo da música de concerto com outros gêneros musicais. No Parque Capivari, a Brasil Jazz Sinfônica, residente desta edição, se apresenta acompanhada de Fabiana Cozza, Mariana Aydar e Mônica Salmaso. O palco do Parque recebe também shows de Demônios da Garoa e do Roberta Sá Trio.

A agenda inclui, dentre outros, concertos do Coral Paulistano, da Orquestra Filarmônica de Violas, da Orquestra Municipal de Jundiaí, da Orquestra Joseense e da Orquestra da Fundação Lia Maria Aguiar, da Camerata de Cordas de Campos do Jordão e do Coro Jovem de Campos do Jordão – AME Campos, os três últimos formados por músicos da região.

Na música de câmara, o Festival recebe o Quarteto Camargo Guarnieri, o Heloísa Fernandes Quarteto, a soprano Camila Provenzale, os violinistas Rosnei Tuon e Cláudio Cruz, os violonistas Eduardo Isaac e Fabio Zanon, dentre muitos outros, com alguns deles integrando também o grupo de professores do Festival.

Uma das novidades desta edição são os concertos realizados à meia-noite no Espaço Cultural Dr. Além, em Abernéssia. A programação reúne o Hot Club Piracicaba Solistas e o violinista Ricardo Herz, ampliando o diálogo do Festival com o jazz, a música instrumental brasileira e outras sonoridades.

A agenda artística completa pode ser acessada no site oficial do Festival.

MÓDULO PEDAGÓGICO

O Festival receberá, ao todo, 140 bolsistas e mais de 50 professores convidados. Ao longo de quatro semanas de atividades, os alunos participarão de uma intensa programação de aulas, ensaios, masterclasses e apresentações, totalizando aproximadamente 1.200 horas de formação artística.

As atividades estão organizadas em cinco frentes: Academia de Ópera, voltada a solistas vocais e instrumentistas; Música de Câmara; Regência; Violão; e Orquestra do Festival. Os bolsistas terão contato direto com músicos e professores brasileiros e estrangeiros, em uma proposta pedagógica que alia excelência artística, prática de palco e intercâmbio de experiências.

Uma das novidades desta edição é a Academia de Ópera, iniciativa dedicada à formação de cantores e instrumentistas em repertório lírico. A atividade dialoga diretamente com a montagem de A Flauta Mágica, de Mozart, apresentada pelo Núcleo de Ópera do Festival sob direção musical de Roberto Minczuk. “O Festival proporciona uma verdadeira imersão musical. Durante um mês, os jovens músicos têm a oportunidade de estudar intensamente, tocar música de câmara, participar de ensaios e concertos e conviver diariamente com artistas e professores de excelência. Sou testemunha ocular e auditiva de várias gerações de músicos. Quando entrei no Festival como bolsista, em 1977, eu era o único aluno de oboé. Hoje, o nível da Orquestra do Festival é impressionante e mostra o quanto a formação musical evoluiu no Brasil. É muito encorajador ver jovens músicos preparados para integrar as principais orquestras do país e construir carreiras de destaque dentro e fora do Brasil”, afirma Arcadio Minczuk, coordenador pedagógico do Festival.

Os bolsistas participarão de apresentações em Campos do Jordão e São Paulo, integrando diferentes formações criadas especialmente para esta edição do Festival. A programação inclui concertos da Orquestra do Festival, além de apresentações ligadas às diversas frentes pedagógicas desenvolvidas ao longo do evento. “Na música de câmara, todos são protagonistas. Você está exposto, sem um regente intermediário, e depende do gesto e da escuta do outro. Esse treino é fundamental: músicos que passam pela música de câmara se tornam melhores músicos de orquestra. Por isso dedicamos uma parte tão importante da programação a essa prática. Ela está no coração da formação que oferecemos no Festival”, completa Arcadio.

Os concertos da Orquestra do Festival na Sala São Paulo serão transmitidos ao vivo pelo canal oficial do Festival no YouTube (link) nos dias 24 de julho e 2 de agosto. “A Fundação Osesp realiza este grande Festival desde 2012, mas a ligação da Osesp com Campos do Jordão é muito anterior. Ao longo de décadas, milhares de músicos passaram por esse programa de formação, que segue sendo uma das iniciativas mais importantes para o desenvolvimento da música de concerto no Brasil”, afirma Marcelo Lopes, presidente e CEO da Fundação Osesp. “Além da excelência artística e pedagógica, o Festival também desempenha um papel importante na difusão cultural e na economia criativa, levando ao público uma programação gratuita e de alta qualidade em Campos do Jordão e São Paulo. Ao longo de mais de cinco décadas, o evento vem contribuindo para enriquecer o cenário musical brasileiro e promover oportunidades de intercâmbio entre alunos, professores e artistas convidados”, conclui.

PRÊMIOS E BOLSAS

O Prêmio Eleazar de Carvalho contemplará o/a bolsista que mais se destacar nessa edição, concedendo a ele/a uma bolsa de US$ 1.400 mil (um mil e quatrocentos dólares) mensais para estudar por um período de até nove meses em uma instituição estrangeira de sua escolha, além de ter cobertas as despesas de traslado entre o Brasil e o exterior. Mais bolsistas que se destacarem durante as atividades do Festival poderão ser contemplados com outros prêmios.

ACESSIBILIDADE

A programação do 56º Festival de Inverno de Campos do Jordão oferecerá 18 concertos em sua programação com recursos de acessibilidade: audiodescrição e interpretação em Libras. Nestas apresentações, é necessário confirmar presença até três dias antes do evento, pelo e-mail da Ver com Palavras: contato@vercompalavras.com.br. A programação com acessibilidade será divulgada em breve no site do Festival.

SOBRE O FESTIVAL DE INVERNO DE CAMPOS DO JORDÃO

Criado em 1970 pelos maestros Eleazar de Carvalho, Camargo Guarnieri e Souza Lima, o Festival de Campos do Jordão combina, com excelência, uma programação de música de concerto a um trabalho pedagógico amplo e qualificado. Ao longo de suas 55 edições, o evento se consolidou como o maior e mais importante festival de música clássica da América Latina, oferecendo aos bolsistas a vivência com importantes nomes da música nacional e internacional e, paralelamente, uma programação cultural de qualidade, que beneficia não somente a cidade de Campos do Jordão (SP) como todo o seu entorno, ampliando as oportunidades de acesso à música erudita.

REALIZAÇÃO

A 56ª edição do Festival de Inverno de Campos do Jordão conta com o patrocínio da Desenvolve SP e Yelum Seguradora e apoio de Minalba, Nacional Gás e AlmavivA, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Parceiro de Mídia: Folha de São Paulo. Apoio Institucional: Parque Capivari, CARDE Museu, Auditório Claudio Santoro, Museu Felícia Leirner, EMESP Tom Jobim e Prefeitura de Campos do Jordão. Realização: Fundação Osesp, Estado de São Paulo, Ministério da Cultura e Governo do Brasil.

Consulte a programação: https://www.festivalcamposdojordao.org.br/programacao-e-ingressos/programacao/.

SERVIÇO:

56º Festival de Inverno de Campos do Jordão

DATA: 04 de julho a 02 de agosto de 2026

INGRESSOS: Entrada gratuita.

Auditório Claudio Santoro, CARDE Museu, Sala São Paulo, Sala do Coro e Estação Motiva Cultural: ingressos neste link três dias antes de cada apresentação, ao meio-dia (limitado a quatro por pessoa). Observação: há uma cota de 100 ingressos para serem retirados no dia de cada apresentação na Sala São Paulo e no Auditório Claudio Santoro, e de 50 ingressos na Estação Motiva Cultural. Eles estarão disponíveis 1h antes dos concertos.

Capela São Pedro Apóstolo e Espaço Cultural Dr. Além: distribuição de ingressos presencial, 1h antes, na entrada dos locais (limitada a dois por pessoa).

Parque Capivari: entrada livre.

LOCAIS (Campos do Jordão e São Paulo):

Auditório Claudio Santoro – Av. Dr. Luís Arrobas Martins, 1.880, Alto da Boa Vista, Campos do Jordão, SP. Tel. (12) 3662-2334. 820 lugares. Gratuito. Horário de funcionamento: somente em dias de concerto, a partir de 2h30 antes do início das apresentações.

Parque Capivari – R. Eng. Diogo José de Carvalho, 1.291, Capivari, Campos do Jordão, SP. Gratuito (entrada livre, sem necessidade de retirada de ingressos). Horário de funcionamento: diariamente, das 9h às 20h.

Espaço Cultural Dr. Além – Avenida Dr. Januário Miraglia, 1.582, Abernéssia, Campos do Jordão, SP. Tel. (12) 3664-2300. 186 lugares. Gratuito. Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 8h às 17h30.

Palácio Boa Vista – Capela São Pedro Apóstolo – Av. Adhemar Pereira de Barros, 3.001, Jardim Dirce, Campos do Jordão, SP. 90 lugares. Gratuito. Horário de funcionamento: de quarta a domingo, das 10h às 12h e das 14h às 17h.

CARDE Museu – Rua Benedito Olímpio Miranda, Av. Alto da Boa Vista, 280, Campos do Jordão, SPXX lugares. Gratuito. Horário de funcionamento: de quinta a segunda, das 10h às 18h.

Sala São Paulo – Sala de Concertos – Praça Júlio Prestes, 16, Térreo, Campos Elíseos, São Paulo, SP. Tel. (11) 3367-9500. 1.388 lugares. Gratuito. Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 9h às 18h.

Sala São Paulo – Sala Eleazar de Carvalho – Praça Júlio Prestes, 16, 1º andar, Campos Elíseos, São Paulo, SP. Tel. (11) 3367-9500. Gratuito. Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 9h às 18h.

Estação Motiva Cultural – Praça Júlio Prestes, 16, Térreo, Campos Elíseos, São Paulo, SP. Tel. (11) 3367-9500. 543 lugares. Gratuito. Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 9h às 18h.

Mais informações e conteúdo:

Site oficial

YouTube oficial

Instagram oficial

Facebook oficial.

(Com Alexandre Félix/ Fundação Osesp)

Museu Histórico da Cidade inaugura exposição “PRO-POLIS”, do artista Ricardo Siri

Rio de Janeiro, RJ, por Kleber Patricio

Ricardo Siri – Estudos para Movimento Mel Concreto 19_2023_cera de abelha Alveolada.

Há cerca de oito anos, o artista transdisciplinar Ricardo Siri começou a estudar e a criar abelhas nativas brasileiras. Esse processo lhe rendeu prêmios, como o terceiro melhor mel do Brasil, e transbordou para a sua criação artística. O resultado será apresentado pela primeira vez na exposição “PRO-POLIS”, que será inaugurada no dia 27 de junho de 2026, no Museu Histórico da Cidade, na Gávea, Rio de Janeiro. Com curadoria de Fernanda Lopes, serão apresentadas cerca de 20 obras inéditas, entre pinturas e esculturas, produzidas com mel, cera de abelha e própolis. “Os trabalhos estabelecem uma ponte entre natureza, cidade e cultura, revelando processos invisíveis de construção coletiva, proteção e transformação”, afirma o artista.

“Em PRO-POLIS, Ricardo Siri transforma materiais produzidos pelas abelhas em dispositivos de pensamento. Ao trazer mel, cera e própolis para o campo da arte, o artista nos convida a refletir sobre formas de coexistência, cuidado e construção coletiva que atravessam tanto a natureza quanto a vida em sociedade. Seu interesse não está em representar a natureza, mas em trabalhar a partir dela. Seus materiais carregam histórias, geografias e relações ecológicas complexas”, diz a curadora Fernanda Lopes.

Ricardo Siri – Jardineira – cosmos.

A própolis – substância utilizada pelas abelhas para proteger e imunizar a colmeia – torna-se matéria pictórica, em obras abstratas. O material, normalmente associado à defesa e à saúde do organismo das abelhas, é transformado em pintura, criando superfícies orgânicas com tonalidades naturais de marrom, verde e vermelho. “Nas pinturas, a própolis atua simultaneamente como matéria, cor e arquivo. Produzida a partir de resinas coletadas pelas abelhas em diferentes paisagens, ela traz para a superfície da obra vestígios de territórios, vegetações e ciclos naturais que permanecem inscritos em sua materialidade”, conta a curadora. Algumas obras incorporam também geoprópolis, mistura de terra e própolis produzida por espécies como as abelhas mandaçaia, ampliando o diálogo entre arte, território e biologia. “As pinturas revelam texturas, transparências e densidades próprias desses materiais, trazendo para o campo da arte uma matéria viva que carrega em si a memória vegetal das paisagens visitadas pelas abelhas”, ressalta Siri.

A exposição apresentará também quadros nos quais o artista cria estruturas a partir de folhas de cera de abelha, usando a história da arte como referência. Nas obras chamadas “Estudos para Movimento Mel Concreto”, ele faz uma alusão ao Movimento Neoconcreto, um dos mais importantes da arte contemporânea, surgido em 1959. “Eu junto a cera, derreto e faço uma folha, que passo no alveolador, que a deixa hexagonal, e crio estruturas, sempre muito matemáticas. De certa forma, todos os trabalhos falam de geometria, porque as abelhas são muito geométricas”, conta Siri, que é formado em engenharia civil.

Ricardo Siri – Propopolizada 02 – 2023 – pintura com própolis em papel Canson.

Ampliando a pesquisa sobre os movimentos artísticos, Siri também faz referências a importantes nomes da história da arte, como Piet Mondrian (1872–1944), reproduzindo as formas e as cores de sua obra, com cera de abelha e mel em natura, em trabalhos que chamou de “Meldrian”. As cores vêm da própria cera, sem pigmentos. Em seus estudos, Siri descobriu que cada espécie de abelha produz a cera de uma cor, e, muitas vezes, dentro da mesma colmeia, da mesma espécie, há variação de cores.

Ainda com as folhas de cera de abelha, cortando e montando, o artista criou QR codes, que, para sua surpresa, podem ser lidos por aparelho celulares e levam o público para dentro das colmeias, com mais informações sobre a vida das abelhas que criaram aquela cera. A tecnologia também fará parte de pinturas inspiradas nas estruturas das colmeias, feitas com própolis e pigmentos naturais de flores e plantas do quintal da casa do artista, que são polinizadas pelas abelhas, como bougainville, urucum e café. Em um primeiro olhar, o espectador verá formas hexagonais, de cores diversas. Ao fotografá-las, no entanto, aparecerão imagens concretas na tela, como uma abelha e uma flor, ampliando a experiência do público. “As pessoas estão o tempo todo com o celular nas exposições e, muitas vezes, fotografam sem nem olhar a obra direito. Então é uma brincadeira com o olhar, uma forma de chamar a atenção para o que está ali, uma forma de polinizar as pessoas”, diz o artista.

Ricardo Siri – Jardins Polinizados.

A maioria dos trabalhos são feitos com materiais vindos do meliponário do artista, que tem esse nome devido às melíponas, que são as abelhas nativas brasileiras. No entanto, no Brasil, encontramos outras espécies de abelhas, vindas de outros países, mas que não polinizam o nosso bioma. Em uma homenagem a estas abelhas, e aos milhares de estrangeiros que vieram para o Brasil, com os próprios avós do artista, ele criou obras que trazem imagens de mapas-múndi, feitos com cera de abelhas estrangeiras, encontradas em nosso país. “Todos esses mapas são para falar desse lugar de migração das abelhas. E até uma homenagem a elas, porque eu acho que elas são bem-vindas”, diz.

Completam a exposição, estruturas em formatos de colmos, feitos com corda e cera de abelha, que se relacionam com os trabalhos da exposição e também com a pesquisa que o artista vem desenvolvendo há muito tempo sobre os ninhos.

SOBRE O ARTISTA

Siri é artista transdisciplinar.  Músico, compositor, além de meliponicultor. Formado no ano de 2000 pela Los Angeles Music School. Com sete álbuns autorais lançados, recebeu em 2010 o prêmio da Música Brasileira pelo álbum “Ultrasom”. Suas performances emergiram do palco, e seus instrumentos viraram poesias sonoras. A partir daí, sua carreira expande definitivamente para as artes visuais, sendo convidado a realizar exposições e performances no Brasil e exterior como   Victoria and Albert Museum – Londres, NBK Gallery – Berlim e Portikus – Frankfurt. Com uma trajetória que une natureza e tecnologia, Siri desenvolve esculturas e instalações, que criam pontes sensoriais entre o orgânico e o urbano. Sua prática artística nasce do cuidado com os organismos vivos e propõe uma escuta profunda do mundo.

SOBRE A CURADORA

Crítica de arte, curadora e pesquisadora, Fernanda Lopes é doutora em história e crítica de arte pelo Programa de Pós-Graduação da Escola de Belas Artes da UFRJ. Atuou como diretora artística da galeria Athena (RJ, 2022-2024), curadora adjunta do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro [MAM Rio (2016-2020)] e curadora associada em artes visuais do Centro Cultural São Paulo [CCSP (2010-1012)]. Publicou os livros A experiência Rex – “Éramos o time do Rei” (2006), Área experimental: lugar, espaço e dimensão do experimental na arte brasileira dos anos 1970 (2012) e Francisco Bittencourt: arte-dinamite (2016, organizado com Aristóteles A. Predebon), além de ensaios e artigos, especialmente sobre arte brasileira e crítica de arte. Entre as curadorias que realizou desde 2008 está a Sala Especial do Grupo Rex na 29a Bienal de São Paulo (2010) e a curadoria adjunta da exposição Maria Martins: desejo imaginante, no Museu de Arte de São Paulo [Masp (2021)].

SOBRE O MUSEU HISTÓRICO DA CIDADE

O Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro (MHC) foi inaugurado em 1934, instalado originalmente no Palacete da Gávea, com o objetivo de preservar e conservar o patrimônio histórico e cultural da cidade, que foi capital da colônia, do império e da república. Desde sua criação, o MHC atuou como um espaço de referência para o estudo e a documentação da história urbana, social e cultural do Rio de Janeiro, reunindo acervo diverso composto por aproximadamente 25 mil itens, incluindo gravuras, pinturas, fotografias, mobiliário, porcelanas, mapas, maquetes, documentos e objetos diversos. Ao longo das décadas, o MHC passou por diferentes fases de expansão e atualização, consolidando-se como um espaço de preservação, pesquisa e difusão cultural. Seu acervo é resultado de doações de órgãos da administração municipal e de aquisições realizadas pela Prefeitura, refletindo não apenas a história local, mas também a inserção da cidade em contextos nacionais e internacionais. O MHC não se limita à guarda de objetos: desenvolve exposições permanentes e temporárias que promovem diálogo entre passado e presente, combinando história, memória urbana e expressões culturais contemporâneas. Por meio de ações educativas, oficinas, atividades culturais e programas de formação, o Museu busca engajar públicos diversos, incluindo crianças, jovens, adultos e profissionais das áreas de história, museologia e artes, estimulando reflexão crítica, senso de pertencimento e cidadania. Nos últimos anos, a instituição também tem promovido projetos que valorizam a participação comunitária, experiências sensoriais e itinerâncias educativas, consolidando-se como um espaço de mediação cultural que articula memória, educação e cultura, e contribui para a criação de uma rede integrada de museus municipais.

SERVIÇO:

Exposição “PRO-POLIS”, de Ricardo Siri  

Abertura: 27 de junho de 2026, às 9h

Exposição: até 22 de agosto de 2026

Museu Histórico da Cida (MHC) [3º andar]

Estrada Santa Marinha, s/n – Gávea – Rio de Janeiro – RJ  

De terça a domingo, das 9h às 16h.

Entrada gratuita

Curadoria: Fernanda Lopes.

(Com Beatriz Caillaux/Midiarte Comunicação)

MASP apresenta performances de Regina José Galindo sobre deportação e violência policial

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Regina José Galindo, Deportada (Todo lo que perdí) [Tudo o que perdi], 2024.

MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand apresenta, a partir de 3 de julho, a exposição Sala de Vídeo: Regina José Galindo. A mostra apresenta o registro em vídeo de “Deportada” (Todo lo que perdí) [Tudo o que perdi] (2024), performance da artista que utiliza o próprio corpo para denunciar as violências estruturais impostas às populações migrantes, em especial àquelas expulsas dos Estados Unidos, por políticas de deportação. No final da mostra, Regina José Galindo (Cidade da Guatemala, 1974) realiza a performance inédita “Duelo”.

Galindo é uma das principais referências contemporâneas da performance na América Latina. Artista e poeta autodidata, formou-se na cena guatemalteca do final dos anos 1990, fazendo parte de uma geração que começou a circular internacionalmente em um período de reabertura política após décadas de ditadura militar e violência de Estado. Esse contexto atravessa toda a sua produção: nascida durante a guerra civil que dizimou e levou ao desaparecimento compulsório de milhares de guatemaltecos, Galindo transforma sua própria história em matéria artística. Em 2005, foi premiada com o Leão de Ouro para Jovens Artistas na Bienal de Veneza.

Com curadoria de Bruna Fernanda, assistente curatorial, MASP, a sala de vídeo apresenta dois canais exibidos simultaneamente. Em uma tela maior, Galindo se veste com todas as roupas de Cristina Cazales Pacheco, mulher deportada de Nova York para o México, cujo marido e filhos permanecem nos Estados Unidos. Durante a ação, os presentes são convidados a retirar, uma a uma, cada camada de roupa do corpo da artista, até o momento em que ela sai da sala. Em uma tela menor, um relato de Cristina, ao mesmo tempo íntimo e político, narra a vida construída nos Estados Unidos, a separação da família e a perda de um período de vida que não pode ser recuperado.

Na obra, os vestígios materiais de Cristina – roupas, móveis, fotografias – manifestam o apagamento de sua existência por uma sociedade que normaliza as consequências de deslocamentos forçados. Ao se cobrir com essas camadas e permitir que sejam retiradas por estranhos, Galindo coloca em cena o gesto da deportação como um ato coletivo: quem retira a roupa também participa, ainda que simbolicamente, da violência que expulsa. O trabalho retoma um tema recorrente na trajetória da artista, a migração de povos centro-americanos para os Estados Unidos, em um contexto de acirramento da repressão às populações imigrantes.

Ao longo de mais de duas décadas, a produção de Galindo tem abordado abusos dos direitos humanos, violências de gênero e opressões estruturais que operam em escala global. Em trabalhos como ¿Quién puede borrar las huellas? [Quem pode apagar as pegadas?] (2003) e Presencia [Presença] (2017), ela mobiliza o próprio corpo e o de outras pessoas como suporte para tornar visível o que as estruturas de poder buscam apagar. A roupa, recorrente em sua prática, funciona como vestígio material de um corpo que já não está mais ali, expondo a materialidade de uma existência reduzida, muitas vezes, a um número ou a uma estatística.

Deportada (Todo lo que perdí) [Tudo o que perdi] foi comissionada e produzida pelo Hemispheric Institute (Nova York, EUA), com apoio de Mellon Fellow Residence, em fevereiro de 2024, com fotografias de Manuel Molina Martagon e agradecimentos a Cristina Cazales e sua família. A obra é inédita no Brasil.

Sala de Vídeo: Regina José Galindo integra a programação anual do MASP dedicada às Histórias latino-americanas. A programação do ano também inclui mostras de Carolina Caycedo, Colectivo Acciones de Arte, Claudia Alarcón e Silät, Damián Ortega, Jesús Soto, La Chola Poblete, Manuel Herreros e Mateo Manaure, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Sandra Gamarra Heshiki, Santiago Yahuarcani e Sol Calero. E mostras audiovisuais de Clara Ianni, Oscar Muñoz, Claudia Martínez Garay e Edgar Calel.

PERFORMANCE NO VÃO LIVRE

Por ocasião do encerramento da Sala de Vídeo, em 22 de agosto de 2026, Regina José Galindo realizará uma performance inédita no Vão Livre do MASP. Intitulada Duelo, a ação é desenvolvida a partir de uma pesquisa sobre violência policial no Brasil e dialoga com o trabalho exibido na sala de vídeo. A artista estará vestida com as roupas de luto de uma mãe que perdeu um filho assassinado pela polícia e permanecerá imóvel enquanto o depoimento dessa mãe é transmitido ao longo de aproximadamente uma hora. Horário a confirmar.

SOBRE A ARTISTA

Regina José Galindo (Cidade da Guatemala, 1974) é artista e poeta. Autodidata, ela desenvolveu sua prática na cena guatemalteca dos anos 1990 e se tornou uma das principais referências da performance na América Latina contemporânea. Utilizando o corpo como principal suporte, sua obra tensiona os limites físicos e morais de si mesma e do público para denunciar abusos dos direitos humanos, violências de gênero e opressões estruturais. Em 2005, foi premiada com o Leão de Ouro para Jovens Artistas na Bienal de Veneza. Sua obra integra coleções e foi apresentada em instituições de referência em todo o mundo. No Brasil, realizou uma exposição individual na Galeria Portas Vilaseca, no Rio de Janeiro, em 2025.

ACESSIBILIDADE

Todas as exposições temporárias do MASP possuem recursos de acessibilidade, com entrada gratuita para pessoas com deficiência e seu acompanhante. São oferecidas visitas em Libras ou descritivas, mediante solicitação pelo e-mail acessibilidade@masp.org.br, além de textos e legendas em fonte ampliada e conteúdos audiovisuais com audiodescrição, legendagem e interpretação em Libras. Todos os materiais estão disponíveis no site e canal do YouTube do museu e podem ser utilizados por pessoas com ou sem deficiência, públicos escolares, professores, pessoas não alfabetizadas e interessadas em geral, em visitas espontâneas ou acompanhadas pela equipe MASP.

REALIZAÇÃO

Sala de Vídeo: Regina José Galindo é realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. O ano de Histórias Latino-americanas no MASP conta com patrocínio do Nubank.

SERVIÇO:

Sala de Vídeo: Regina José Galindo

3/7 — 23/8/2026

Curadoria: Bruna Fernanda, assistente curatorial, MASP

Edifício Lina Bo Bardi, 2º subsolo

MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo, SP 01310-200

Telefone: (11) 3149-5959

Horários: terças grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h) com patrocínio Nubank; quarta e quinta das 10h às 18h (entrada até as 17h); sexta das 10h às 21h (entrada gratuita das 18h às 20h30 com patrocínio B3); sábado e domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h); fechado às segundas.

Agendamento on-line obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos

Ingressos: R$ 85 (entrada); R$ 42 (meia-entrada)

Clientes Nubank Ultravioleta têm 50% de desconto no valor do ingresso inteiro e nos produtos selecionados da loja do MASP; clientes Nubank têm 25% de desconto.

(Fonte: Museu de Arte de São Paulo “Assis Chtaeubriand”)

Ballet Vera Bublitz inicia celebrações de 50 anos

Porto Alegre, RS, por Kleber Patricio

Vera Bublitz homenageia Fernando Bujones. Foto: Alex Gonçalves.

O primeiro encontro que abriu as comemorações dos cinquenta anos do Ballet Vera Bublitz, em Porto Alegre, foi um sucesso. Para dar início à celebração do cinquentenário, a grande dama da dança do RS, Vera Bublitz, recebeu ex-alunas e convidados na quarta-feira, 17 de junho, na sede da Corte Real, em Porto Alegre. O encontro, com mais de 40 bailarinas que fizeram parte da história da escola, foi marcado pela homenagem póstuma a Fernando Bujones, o norte-americano ícone da dança que projetou o Ballet Vera Bublitz para o mundo, ao dividir o palco com alunas da escola em 1988 e 1990.

O evento contou com a presença de diferentes gerações do ballet que passaram pela escola, como Elizabeth Gonçalves, que foi aluna da primeira turma de Vera em Cruz Alta; e Liége Gautério, bailarina que recebeu transplante de pulmão e continua ativa na dança e no esporte como bicampeã dos 100 metros rasos em sua categoria. Entre as presentes, também esteve Ângela Ferreira, que foi partner de Bujones em 1990 e Juliana Prietsch, médica e ex e atual aluna do Ballet Vera Bublitz, ao lado da filha Alícia, que conquistou medalha de ouro no World Ballet Competition em Orlando, nos Estados Unidos, há dois anos. A apresentação dos bailarinos Mauricio Pires, de 12 anos, e Isabelle Carolo Cruz, 10 anos, encantou o público e mostrou alguns dos novos talentos que estão sendo formados pela escola.

Vera entre as ex-alunas Vivine Tremea, de Porto Alegre, e Elizabeth Gonçalves, de sua primeira turma em Cruz Alta.

Ao final, Vera Bublitz lançou um desafio para suas ex-alunas. O professor russo Egor Totmianin foi contratado especialmente para colocar a coreografia da Mazurka de “Coppélia” com essas bailarinas no espetáculo de final de ano e o aquecimento para as aulas já começou no próprio evento. A apresentação da peça do ballet de repertório será no dia 28 de novembro, no Teatro da Fiergs, em Porto Alegre, rememorando a primeira participação de Bujones ao lado do Ballet Vera Bublitz em mais uma celebração rumo ao cinquentenário, completado em 2028.

(Com Tatiana Casser Csordas/Milim Comunicação)

Exposição inédita “Território de passagem” leva ao MIS a primeira individual de Ruchita em São Paulo

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Com curadoria de Brunno Almeida Maia e direção de arte e expografia de Leandro Leão, mostra reúne videoartes e séries fotográficas, além de ativações e o lançamento de um livro da artista multimídia curitibana. Fotos: Divulgação.

Nascida em Curitiba e radicada em Florianópolis, a artista multimídia Ruchita inaugura, no dia 11 de julho de 2026, sábado, das 10h às 14h, no Museu da Imagem e do Som a exposição “Território de passagem”, sua primeira individual na capital paulista. Com visitação gratuita até 24 de agosto, a mostra, que inclui o lançamento do livro “Todo momento de achar é um perder-se a si própria” e uma série de ativações, foi concebida especialmente para o MIS e apresenta oito obras produzidas entre 2017 e 2025. São videoartes e séries fotográficas que investigam as relações entre corpo, tempo e memória.

Com curadoria de Brunno Almeida Maia e direção de arte e expografia de Leandro Leão, a individual reafirma a proposta de levar ao público a linguagem da videoarte, articulando elementos performáticos, audiovisuais e fotográficos em uma proposta imersiva e não linear. A exposição inédita estabelece, ainda, um diálogo direto com o acervo de videoarte do MIS, referência nacional e na América Latina, com mais de 5 mil títulos produzidos e catalogados desde os anos 1970. Ao inserir a produção de Ruchita nesse contexto histórico, Território de passagem aproxima a pesquisa e a produção da artista a uma tradição experimental marcada por nomes como Walter Zanini, Letícia Parente, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Arthur Omar.

“Existe ainda uma centralização forte na produção do eixo Rio-São Paulo, e artistas do Sul, do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste encontram barreiras de visibilidade. Fazer minha estreia em São Paulo justamente no MIS tem um significado importante para mim – e divido esse sentimento com outros artistas que são sub-representados – sobretudo porque meu trabalho multimídia tem foco no audiovisual”, comemora Ruchita. “O vídeo ainda enfrenta resistência institucional em comparação a outros suportes, como a pintura ou a escultura, mas não há como negar que a tecnologia tem atravessado cada vez mais a produção artística contemporânea. Nesse sentido, o MIS sempre teve um papel relevante de projeção e reconhecimento.”

Partindo de experiências pessoais traduzidas em performances para a câmera, Ruchita coloca seu próprio corpo como campo de experimentação artística e desenvolve trabalhos em fotografia, instalação e vídeo que evidenciam a transitoriedade entre retrato e autorretrato. Em Território de passagem, suas investigações são atravessadas por questões existenciais, psicológicas e simbólicas, articulando aspectos íntimos e coletivos da experiência humana.

Estruturada a partir de dois eixos curatoriais – O Corpo Inacabado e O Corpo é Tempo –, a exposição reúne obras que abordam temas como vulnerabilidade, transcendência, repetição, impermanência e dissolução. No primeiro eixo, a série Não sou finito (2018) documenta a ação performática de uma videoinstalação em duas telas que flagra o corpo da artista amarrado a uma árvore – representando amarras sociais e mentais – e a tentativa de alcançar o infinito puxando uma corda suspensa, gesto repetitivo que aproxima o corpo do intangível.

Já a série inédita Alternar-se (2025/2026) mergulha na experiência de convívio diário da artista com o diabetes. Utilizando mel e sangue como metáforas, Ruchita compõe um ensaio visual e sonoro que explora os altos e baixos de seu cotidiano. Em Limiares, a artista escreve com sangue sobre espelho um gráfico de oscilações de taxas de glicemia; em Compasso, um lenço vermelho traduz essa inconstância; em Abismo, o reflexo em uma poça de mel evoca uma dor corporalizada; em Um corpo que me rodeia, o mel escorre pelo corpo de Ruchita, evidenciando movimentos que escapam de nosso controle e nos atravessam.

Alternar-se nasce de algo que atravessa meu corpo, minhas emoções e minha rotina. Senti que era importante falar sobre esse tema porque os números seguem crescendo. Hoje, mais de 16 milhões de pessoas convivem com diabetes no Brasil e quase 600 milhões de pessoas no mundo. Então, essa obra funciona também como um convite para a observação do corpo e do cuidado cotidiano”, propõe Ruchita.

As 23 fotografias de Des-continuum – registros de sangue e mel sobre papel, expostas sem moldura – rompem limites físicos e simbólicos. A obra Um estado claro de ambiguidade (2017-2018) completa o primeiro eixo da exposição. Nela, 12 pessoas têm a visão obliterada por um espelho que reflete os olhos da artista. Ao lado da tela de exibição do vídeo, um autoretrato impresso de Ruchita é fixado diretamente sobre a parede, contendo o mesmo pedaço de espelho colado que sobrepõe seu olhar. Assim, os olhos do espectador estarão refletidos no lugar dos olhos da artista – uma reflexão sobre retrato, autorretrato, alteridade e um convite a se conectar à experiência do outro.

No segundo eixo, O Corpo é Tempo, a série Face à impermanência investiga duração e efemeridade em diálogo com a cultura japonesa do Wabi-Sabi (que defende que nada é acabado, permanente ou perfeito). O tríptico é composto de duas obras audiovisuais e uma instalação fotográfica. Em Esse movimento perpétuo (2018), uma videoinstalação registrada na praia de Naoshima e projetada sobre areia real depositada no chão exibe a imagem da artista, que surge e desaparece em sintonia com algas que se decompõem, simbolizando a fusão do indivíduo na natureza e o ciclo eterno de decomposição e reintegração. Já em Estar sem estar (2018), Ruchita permanece imóvel por horas no cruzamento de Shibuya, em Tóquio, enquanto a multidão passa em ritmo frenético – projetado em loop, o vídeo, de 8’09” e dimensões variáveis, foi filmado em câmera lenta para acentuar o paradoxo entre contemplação zen e velocidade urbana, um choque que também ecoa no cotidiano da metrópole paulistana.

 “A performance sempre foi a base do meu trabalho. Meu processo criativo parte de experiências internas, de questões que eu tento externalizar por meio da imagem”, explica Ruchita. “Tudo surge dessa investigação pessoal, dessa busca existencial que me acompanha desde muito nova. O corpo acaba se tornando um lugar de percepção, experimentação e transformação. É a partir dele que tento criar conexões com o outro”, conclui a artista.

Trajetos livres de visitação

A expografia de Território de passagem foi concebida para evitar percursos lineares e estimular diferentes possibilidades de circulação do público. A partir de um prisma central e de planos inclinados que redesenham a espacialidade da Sala Maureen Bisilliat, o projeto assinado por Leandro Leão propõe uma experiência de deriva, aproximando corpo, imagem, som e arquitetura. Ao invés de uma sequência fixa de leitura, a exposição convida o visitante a construir seu próprio trajeto.

“A seleção das obras foi construída de forma muito cuidadosa para que diferentes períodos da produção da Ruchita dialogassem entre si dentro dos eixos da mostra”, afirma Almeida Maia. “A própria expografia procura traduzir isso espacialmente, criando relações entre vídeo, fotografia, arquitetura e deslocamento. A mostra também é marcada por atravessamentos de território e de gênero. No contexto institucional, a videoarte brasileira foi historicamente associada a uma produção masculina e concentrada entre Rio de Janeiro e São Paulo. Inserir uma artista mulher, vinda de fora desse eixo, é reconhecer e dar visibilidade a transformações importantes na arte contemporânea brasileira”, conclui o curador.

Além da exposição, Território de passagem contará com uma programação de ativações que inclui um bate-papo sobre videoarte contemporânea com Ruchita, o curador Brunno Almeida Maia e a videoartista e pesquisadora Márcia Beatriz Granero. O programa contempla ainda: visitas mediadas; oficina de experimentações em videoarte; ações de registro audiovisual para o acervo institucional do MIS; e o lançamento de Todo momento de achar é um perder-se a si própria, livro que compila a produção da artista entre 2017 e 2025. 

Sobre Ruchita

Artista multimídia nascida em Curitiba (PR, 1979), Ruchita cria obras que abrangem fotografia, instalações, vídeos e performances. Atualmente vive e trabalha em Florianópolis (SC). Em sua trajetória morou, estudou e trabalhou em Santiago (Chile), Bogotá (Colômbia), San Diego (California, EUA), Miami (Flórida, EUA) e Rio de Janeiro (Brasil). Graduou-se em Comunicação Audiovisual no International Fine Arts College de Miami. Inaugurou em 2024 a exposição individual Estou/Sou, no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica no Rio de Janeiro. Apresentou em 2023 a individual Face à Impermanência, no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC). Entre 2019 e 2020 integrou as mostras coletivas Le delicate storie dell’arte del cambiamento, na PaviArt, em Pavia, Itália, e Deus Ex Terra, no Contemporary Art Observatorium, em Lavagna, Itália. Suas obras foram expostas também no Labora Photo Prix Madrid. Expôs na semana da ARCO na HYBRID – International fair for emerging Art, em Madri, e posteriormente na JustLX – Lisboa Contemporary Art Fair, no Museu da Carris, Lisboa. Realizou 12 exposições individuais em Santa Catarina entre 2017 e 2025. Participou, ainda, de cinco coletivas no Brasil, quatro exposições no exterior e 27 festivais internacionais, com premiação em nove deles. 

Sobre Brunno Almeida Maia

Doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU–USP), onde desenvolve pesquisa sobre as relações entre moda e arquitetura. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), atua como curador, pesquisador e docente em diversas instituições culturais e acadêmicas. Destacam-se seus trabalhos de curadoria nas exposições e ciclos realizados na Casa Museu Eva Klabin, no Rio de Janeiro, Casa Museu Ema Klabin, em São Paulo, no Sesc Avenida Paulista e no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc–SP, bem como sua participação no Grupo de Práticas e Estudos em Curadoria (GPEC/FAU–USP). Foi residente do Núcleo de Estudos Contemporâneos do Museu da Imagem e do Som (NECMIS) e organizador da jornada em homenagem ao centenário de Gilda de Mello e Souza. Como educador, leciona em instituições como USP, IED, SENAC, FAAP, Belas Artes, MASP, MAM-SP, MIS e Paço das Artes de SP, com foco nas intersecções entre moda, arte, literatura e cultura material. Publicou ensaios em revistas acadêmicas e culturais, como a Revista Zum (IMS), Revista Dissonância de Teoria Crítica da Unicamp, Fundação Bienal de São Paulo, a Revista do CPF-Sesc e Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), e é autor do livro Moda, corpo e vestimenta (2016), além de contribuir com capítulos em obras coletivas. Sua mais recente publicação é Tempos de exceção: ensaios sobre o contemporâneo (2025).

Sobre Leandro Leão

Arquiteto e designer. Doutorando (2020 –) em dupla titulação pela Universidade de São Paulo (FAU USP) e pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS – Paris). Mestre (2019) na área de História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo pela FAU USP. Graduou-se (2014) em Arquitetura e Urbanismo na mesma instituição com estágio em pesquisa EHESS – Paris (2013). Tem especialização em Arquitetura da Paisagem pelo Centro Universitário Senac (2017), em Gestão Pública Municipal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp, 2019) e em Estilismo pela ESMOD – Paris (2023). Foi professor convidado pelo Senac SP nas áreas de Arquitetura e Desenho. Desenvolve pesquisas acadêmicas na área de História da Arte e História da Arquitetura desde 2009. Trabalhou como colaborador em destacados escritórios do Brasil, como Pedro Paulo de Melo Saraiva, Base Urbana e Artifício Arquitetura. Seus trabalhos receberam dezenas de prêmios nacionais e internacionais, entre eles pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Latin America Design Award e DNA Paris. É membro da Society of Architectural History e da European Architectural History Network.

SERVIÇO:

Exposição Território de passagem – Ruchita

Local: Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) – Espaço Maureen Bisilliat

Endereço: Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo

Data: de 11 de julho a 24 de agosto de 2026

Visitação gratuita: terças a sextas, 10h às 19h; sábados, 10h às 20h; domingos e feriados, 10h às 18h. Ativações gratuitas (sujeitas a lotação): visita mediada (20/8, 19h30); bate-papo (21/8, 19h30); oficina de experimentação em videoarte (22/8, 10h).

(Com Pedro Sant’Anna/Baobá Comunicação)