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Eventos extremos como inundação no rio Juruá se tornam 2,5 vezes mais prováveis com mudanças climáticas

Amazônia, por Kleber Patricio

Inundação do Rio Juruá em 2021 afetou mais de 43 mil pessoas, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares. Foto: Marcos Vicentte/Secom/Agência de Notícias do Acre.

Eventos extremos como as inundações de 2021 na bacia do rio Juruá, no Oeste da Amazônia, se tornam 2,5 vezes mais prováveis devido às mudanças climáticas na comparação com um cenário sem interferência humana. A constatação é de artigo da parceria de Ciência para Serviços Climáticos Brasil (CSSP-Brasil), que envolve cientistas de instituições nacionais, como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e estrangeiras, como a Universidade de Viena (Áustria) e a Universidade de Oxford (Reino Unido). O estudo foi publicado na revista científica International Journal of Disaster Risk Reduction no último dia 29 de maio.

O trabalho constatou, ainda, que as ações humanas aumentaram os riscos associados ao evento. 61% da probabilidade total de ocorrência da inundação de 2021 pode ser atribuída diretamente às mudanças climáticas — levando um evento que naturalmente se repetiria em 107 anos a acontecer em 42 anos. Na ocasião, mais de 43 mil pessoas sofreram impactos diretos, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares – sendo que 10 milhões podem ser atribuídos às mudanças climáticas, segundo o artigo.

Para avaliar o impacto ambiental, os pesquisadores utilizaram dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos, do Instituto Nacional de Meteorologia, do Cemaden e do conjunto de dados Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data (CHIRPS), que mapeia a precipitação ao longo do tempo com base em informações de satélites e de pluviômetros. Para a estimativa do impacto socioeconômico, os cientistas usaram dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, plataforma do Sistema Nacional e Proteção e Defesa Civil que reúne informações sobre riscos e desastres nos municípios brasileiros.

No caso das inundações do rio Juruá – que atravessa os estados do Acre e do Amazonas –, a precipitação entre os meses de dezembro de 2020 a março de 2021 foi 48% maior do que a média para o período. As cheias também afetaram 25 km² de área urbana e 1.150 km² de áreas de pastagem, prejudicando a mobilidade da população afetada e contaminando solos agrícolas utilizados para subsistência.

Porém, os dados subestimam o real impacto, como destaca a coautora Renata Pacheco Quevedo: “Ao considerar a realidade brasileira, principalmente de uma região de extrema relevância estratégica e ambiental como a Amazônia, o estudo evidenciou gargalos relacionados à coleta, padronização e integração dos dados sobre impactos”. As lacunas limitam a compreensão completa dos danos causados, como gastos relacionados a hospitalizações e tratamentos de condições como ansiedade e depressão. “Esses gastos não previstos acabam afetando todo o sistema de saúde; portanto, considerar impactos socioeconômicos a longo prazo ajuda a garantir respostas mais eficazes e medidas preventivas mais precisas”, avalia a autora.

Mesmo com a abordagem mais conservadora, a magnitude das consequências surpreendeu os cientistas — especialmente devido aos impactos severos sobre 22 municípios cobertos parcialmente ou totalmente pela bacia, incluindo comunidades ribeirinhas altamente dependentes das dinâmicas de água para suas atividades econômicas. “Os resultados nos fizeram refletir sobre a urgência de aproximar a ciência da tomada de decisões políticas, independentemente de ideologias, partidos ou religiões. Sem uma ação coordenada e baseada em evidências, esses impactos continuarão a ser socializados, contribuindo para o empobrecimento do país como um todo”, concluem as autoras Renata Quevedo e Liana Anderson.

(Fonte: Agência Bori)

No Dia Mundial do Oceano, mulheres cientistas ainda estão longe da equidade

Brasil, por Kleber Patricio

Vida marinha é tema central da ciência oceânica, mas as mulheres seguem sub-representadas na produção científica. Foto: Pexels.

Por Germana Barata e Washington Segundo — Neste Dia Mundial do Oceano (8), ainda não há o que comemorar quando se trata da equidade de mulheres cientistas. A Década do Oceano chega à metade em 2025, e a primeira avaliação sobre a contribuição de mulheres na produção científica sobre o oceano no Brasil não é nada animadora.

Por meio da rede Ressoa Oceano em parceria com o Instituto Brasileiro de Informação de Ciência e Tecnologia (Ibict) avaliamos 1,3 milhão de artigos, de 2018 a 2024, com ao menos uma autoria brasileira, disponíveis no banco de dados OpenAlex, um dos mais representativos bancos de publicações científicas do mundo. Desse total, 4,6% estão relacionados ao oceano.

A partir desse vasto universo de publicações, selecionamos 31 tópicos categorizados no OpenAlex relacionados ao oceano e identificamos a autoria de especialistas homens e mulheres, a partir do primeiro nome, além de sua posição de liderança na autoria e o tipo de acesso do artigo.

O levantamento mostra que as mulheres estão próximas de atingir a equidade na produção científica quando consideramos todas as áreas do conhecimento, com 46% de participação contra 48% de homens. Porém, quando se trata do oceano, elas ainda são minoria: 38% contra 57%. O percentual residual corresponde a artigos em que não foi possível definir o gênero pelo primeiro nome.

E as perspectivas futuras não são animadoras, já que os valores têm se mantido estáveis desde 2018, sem perspectivas de mudanças para as mulheres que investigam o oceano. O mais impressionante é que os dados do Censo do Ensino Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), realizado entre 2009 e 2022, informam que mais de 56% de estudantes de graduação em oceanografia são mulheres – 60,9% no mestrado e 52,2% no doutorado. Portanto, elas são maioria na área mais diretamente ligada ao oceano, a oceanografia.

Além disso, identifica-se no estudo realizado que há um claro crescimento do número de coautores por publicação.  O que isso quer dizer? Que, apesar da produção científica ter diminuído mundialmente, principalmente com a pandemia da Covid-19, como algumas análises reforçam (vide a realizada em 2023 pela Agência Bori com a editora científica Elsevier), a colaboração de cientistas do Brasil cresceu, saindo da média de 4 autores por artigo em 2018 para chegar ao valor médio de 6 coautores por artigo em 2024.

A colaboração pode ser uma alternativa aos impactos negativos provocados pela diminuição de recursos para a ciência combinada ao aumento nos custos de publicação, que podem variar de US$ 2.000 a US$ 3.400, e chegar a chocantes US$ 12.000! Esses efeitos, se não mitigados, poderão seguir impactando as mulheres cientistas, e suas representações de liderança na pesquisa.

Esse é o primeiro levantamento de uma série anual que visa monitorar a produção científica sobre o oceano ao longo da década do Oceano, uma iniciativa da Unesco para melhorar as condições de degradação da saúde do oceano até 2030.

Até aqui, os dados mostram que será preciso grandes investimentos das agências de fomento e instituições de pesquisa voltadas para o oceano. Apesar de ocupar pouco mais de 70% da superfície do planeta, o oceano recebe apenas 1,7% dos recursos para a ciência. E, neste dia, lembramos que o oceano é absolutamente essencial para a vida neste planeta azul, como pede a comunidade científica. Acrescenta-se o fato de que hoje se inaugura o Congresso do Oceano das Nações Unidas, na cidade litorânea francesa de Nice, quando negociações serão acordadas pelos países membros, incluindo o Brasil.

Políticas científicas precisam ser desenhadas e executadas para que as mulheres cientistas que se dedicam a desvendar o oceano possam comemorar, em 2030, a equidade de gênero.

Sobre os autores:

Germana Barata é pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e coordena a rede de comunicação sobre o oceano Ressoa Oceano, que produz e compartilha conteúdos sobre oceano, além de analisar dados relacionados à produção científica e a cobertura jornalística sobre o oceano.

Washington Segundo é coordenador-geral de informação científica e técnica do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e lidera projetos voltados à Ciência Aberta, repositórios digitais, interoperabilidade de sistemas e gestão de dados científicos.

Os artigos de opinião publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Agência Bori ou do site Kleber Patricio Online.

(Fonte: Agência Bori)

No Sesc Santana: sabores da Paulistânia são celebrados em vivência gastronômica

São Paulo, por Kleber Patricio

Foto: Divulgação.

Nos dias 14 e 15, o Sesc Santana promove uma vivência que convida o público a explorar a riqueza da cultura alimentar caipira por meio de um passeio sensorial e afetivo pelos sabores da Paulistânia — região histórico-cultural que abrange o estado de São Paulo e áreas do Sudeste e Sul do Brasil.

Conduzida por Úrsula Ferro, pesquisadora da alimentação tradicional e idealizadora da Ayá Comidas Nativas, a atividade reúne histórias, objetos, causos e, claro, muita comida. Durante o encontro, serão preparados e degustados pratos típicos da culinária caipira, todos com base no milho — ingrediente central dessa tradição — e outros produtos vegetais.

A proposta valoriza o uso de alimentos regionais, ao mesmo tempo em que apresenta uma abordagem contemporânea, com receitas exclusivamente vegetais que ampliam o repertório gastronômico e nutricional dos participantes. Mais do que cozinhar, o encontro é um convite à prosa e à escuta das memórias que fazem parte do jeito caipira de viver e comer.

Serviço: 

Datas dos eventos: 14/6 | sábado | 12h30 — 15/6 | domingo | 12h30

Classificação livre. A partir de 12 anos. Gratuito – Entrega de senhas no local com 30 minutos de antecedência

Endereço: Sesc Santana – Av. Luiz Dumont Villares, 579 – Jd. São Paulo.

Local: 30 lugares – Espaço de Tecnologia e Artes (ETA)

Duração: 180 minutos.

Acesso para pessoas com deficiência – estacionamento.

Estacionamento – R$ 17,00 a primeira hora e R$ 4,00 a hora adicional – desconto para credenciados.

Paraciclo: gratuito (obs.: é necessário a utilização de trava de segurança). 19 vagas.

Para informações sobre outras programações, acesse o portal Sesc SP.

(Com Leandro Pereira/Sesc SP)

Habermas explora tensão entre naturalismo e religião

São Paulo, por Kleber Patricio

Capa do livro.

A oposição entre naturalismo e religião tem sido um tema central nas discussões filosóficas e sociais. Em Entre naturalismo e religião, lançamento pela Editora Unesp, o filósofo alemão Jürgen Habermas oferece uma análise profunda das implicações epistemológicas e políticas desse confronto, examinando modernidade, pluralismo e as exigências das sociedades pós-seculares. A tradução é de Antonio Segatto e Rúrion Melo.

No primeiro eixo, Habermas explora as condições pós-metafísicas de uma razão destranscendentalizada, discutindo como a filosofia contemporânea deve abordar a normatividade intrínseca às formas de vida socioculturais. Ele conecta o desenvolvimento histórico-natural da humanidade com as demandas práticas da razão, destacando a importância da comunicação na formação do conhecimento por meio da relação entre linguagem, objetividade e intersubjetividade.

O segundo eixo examina os desafios que as teorias normativas do Estado de direito enfrentam diante do pluralismo religioso e ideológico. Habermas analisa como manter a solidariedade cívica em sociedades contemporâneas, preservando os valores constitutivos de suas visões de mundo. Ele enfatiza a necessidade de uma esfera pública onde crentes e não crentes interajam de forma igualitária, contribuindo para a formação democrática da vontade coletiva.

No terceiro eixo, o foco está no pensamento pós-metafísico em relação ao naturalismo e à religião, abordando as dicotomias entre liberdade e determinismo, fé e saber, razão e natureza. Habermas defende que a filosofia pode mediar um diálogo produtivo entre religião e racionalidade, especialmente em sociedades pós-seculares, e critica o naturalismo forte por suas visões reducionistas, sugerindo que ele deve ser repensado.

O quarto eixo conecta o controle estatal do pluralismo à ambiguidade da tolerância religiosa, refletindo sobre as condições para uma convivência pacífica em uma sociedade globalizada. Habermas argumenta que a secularização parcial pode ser reformulada por uma teoria que respeite tanto os limites filosóficos quanto as exigências políticas contemporâneas.

Habermas observa que a oposição entre naturalismo e religião esconde uma “cumplicidade secreta” em que ambas as partes, sem autorreflexão, podem ameaçar a coesão política por conta da polarização. Ele ressalta que a cidadania liberal exige uma reflexão sobre os limites tanto da fé quanto do saber, essencial para manter o common sense mesmo nas democracias mais antigas.

Sobre o autor | Um dos mais importantes filósofos da atualidade, Jürgen Habermas, nascido na Alemanha em 1929, criou uma nova visão sobre as relações entre linguagem e sociedade. Foi professor de Filosofia da Universidade de Heidelberg e da New York School for Social Research, além de codiretor do Instituto Max Plank para a Investigação das Condições de Vida do Mundo Técnico-Científico, em Starnberg. A Editora Unesp tem diversas obras de sua autoria publicadas na Coleção Habermas.

Título: Entre naturalismo e religião: Ensaios filosóficos

Autor: Jürgen Habermas

Tradução: Antonio Ianni Segatto, Rúrion Melo

Número de páginas: 551

Formato: 13,7x 21 cm

Preço: R$ 138

ISBN: 978-65-5711-225-0

Mais informações sobre a Editora Unesp estão disponíveis no site oficial.

(Com Diego Moura/Pluricom Comunicação Integrada)

IMS lança curta-metragem sobre arquivo de Dalton Trevisan (1925-2024), com registro raro do escritor

São Paulo, por Kleber Patricio

Frame do curta-metragem sobre o arquivo de Dalton Trevisan. Crédito: Instituto Moreira Salles.

No dia 13 de junho (sexta-feira), o Instituto Moreira Salles lança um curta-metragem sobre o escritor Dalton Trevisan (1925–2024), em celebração ao centenário do autor paranaense, completado no dia seguinte (14/6). O curta-metragem, que estará disponível no canal de YouTube do IMS, gira em torno do arquivo de Trevisan, doado ao IMS em 2024. Filmado na residência do autor em Curitiba, o filme traz uma raridade: um breve registro de Trevisan, conhecido pelas poucas aparições públicas, trabalhando em frente ao seu computador, aos 99 anos.

Com cerca de 10 minutos, o curta é narrado por sua agente literária e amiga Fabiana Faversani, que mostra materiais do arquivo do escritor, naquele momento armazenados no apartamento onde ele morava. São livros, fotografias, correspondências, recortes de jornais e diários, entre outros itens. Segundo Faversani, Trevisan doou seu arquivo ao IMS “por ter plena ciência da importância de o material estar disponível para pesquisa e provocar uma série de novas discussões sobre a obra”. 

O filme dialoga com uma série de iniciativas realizadas em celebração ao centenário do escritor. A editora Todavia, por exemplo, que representa o autor desde 2024, publicará os primeiros seis de um conjunto de 37 livros de Trevisan, mais uma antologia inédita organizada por Caetano W. Galindo e Felipe Hirsch. As demais obras ganharão novas edições ao longo dos anos.

Sobre o arquivo

Doado pelo escritor ao IMS em 2024, o arquivo de Dalton Trevisan inclui cadernetas, diários, fotografias, cartas, recortes de jornais e livros. A doação concluiu um ato iniciado em outubro de 2020, quando o IMS recebeu do autor a extensa correspondência trocada com Otto Lara Resende (1922–1992).

Entre os destaques, estão pastas com recortes de jornais e revistas, incluindo desde crônicas suas publicadas na imprensa, grande quantidade de resenhas e reportagens sobre seus livros, como também material reunido por temas específicos: crimes, cinema, Star Trek, saga da qual era fã, e escândalos políticos, entre outros. O arquivo traz ainda dezenas de gravuras e ilustrações de Poty Lazzarotto (1924–1998), amigo desde a juventude e ilustrador de suas obras, e correspondências trocadas com nomes como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava.

Com a chegada ao IMS, o arquivo de Trevisan passará por etapas de conservação, catalogação e digitalização, para então começar a ser disponibilizado para pesquisas, de modo que o público tenha acesso ao material.

Sobre o autor

Dalton Trevisan nasceu em Curitiba em 14 de junho de 1925 e faleceu no dia 9 de dezembro de 2024, aos 99 anos. Formou-se em direito pela Universidade Federal do Paraná e chegou a exercer a advocacia durante alguns anos, tendo atuado também como crítico de cinema e repórter policial. Em 1946, aos 21 anos, com amigos como Erasmo Pilotto e Poty Lazzarotto, criou a revista literária Joaquim, da qual era editor e onde publicou seus primeiros contos.

Seu primeiro livro, Novelas nada exemplares, o tornou nacionalmente conhecido – a reunião de contos ganhou o Prêmio Jabuti, primeiro dos quatro que colecionou ao longo da carreira, consagrada ainda com os prêmios Ministério da Cultura de Literatura (1996), Portugal Telecom de Literatura Brasileira, atual Oceanos, dividido com Bernardo Carvalho (2003), Camões (2012) e Machado de Assis, da ABL (2012).

Entre seus livros, destacam-se ainda Cemitério de elefantes (1964), O vampiro de Curitiba (1965), do qual herdou a alcunha Vampiro de Curitiba, Contos eróticos (1984), A guerra conjugal (1975), Macho não ganha flor (2006) e o único romance, A polaquinha (2013). A partir deste ano, sua obra completa será relançada pela editora Todavia.

Ficha técnica do curta-metragem

Direção e montagem: Matheus Balbino

Assistente de direção: Matheus Nogueira

Operação de câmera: Matheus Balbino, Matheus Nogueira

Color grading: João Felipe Moreira

Pesquisa literária e roteiro e narração: Fabiana Faversani

Acessibilidade: AHU – Acessibilidade Humanista Ltda.

(Com Mariana Tessitore/Assessoria de imprensa IMS)