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Espetáculo “Felizarda” reflete sobre a hiperprodutividade e os abismos da comunicação

São Paulo, por Kleber Patricio

Elenco de “Felizarda”. Foto: André Nicolau.

Ser a ‘felizarda’ por conseguir a vaga de emprego. Trabalhar. Ter colegas de mesa. Mas para qual função? Para fazer o quê? Em um mundo cada vez mais voltado à produtividade sem descanso, o novo espetáculo, dirigido por Beatriz Barros com idealização das atrizes Bella Camero e Louise D’Tuani, foi escrito por Cecilia Ripoll e reflete sobre tais impactos na vida em sociedade. “Felizarda” faz uma temporada de estreia gratuita no TUSP Maria Antonia (R. Maria Antônia, 294 – Vila Buarque, São Paulo) até dia 29 de junho, com sessões de quinta a sábado, às 20h, e, aos domingos, às 18h.

O projeto começou com a vontade de as atrizes Bella e Louise trabalharem juntas. A partir desse encontro, procuraram a escritora e dramaturga Cecília Ripoll, que apresentou algumas ideias e possibilidades de texto. “Buscávamos algo para montarmos, que fosse atual e falasse da sociedade hoje, sem perder o humor. Acho que conseguimos desenvolver junto essa peça”, coloca Louise D’Tuani.

Na trama, uma pessoa começa a trabalhar em uma empresa cujo produto ela desconhece. Enquanto tenta incessantemente descobrir o que, afinal, está vendendo, a protagonista precisa lidar com as mais variadas neuroses e histerias típicas do nosso tempo. Sintomas psíquicos brotam ao ritmo frenético da hiperprodutividade e dos abismos da comunicação, apresentando um retrato tragicômico da sociedade contemporânea.

Os personagens não têm nomes. “Queremos mostrar que, pela lógica do mundo corporativo, somos todos facilmente substituíveis. Por isso, os atores e as atrizes são designados apenas como: Vizinho de Mesa, Mentora, Felizarda e Esposa da Felizarda”, conta a atriz Bella Camero. Em cena também estão Louise D’Tuani, Sidney Santiago Kuanza e Sol Menezzes. A direção de movimento e a preparação corporal são de Ariel Ribeiro.

Sobre a encenação

Na encenação, situações profissionais e pessoais se misturam a todo o momento. O trabalho passa a ocupar cada vez mais aspectos da vida, eliminando a fronteira entre os dois universos. Por esse motivo, a cenografia de Pedro Levorin é formada por elementos que evocam tanto a empresa quanto a casa da Felizarda. A luz assinada por Wagner Antônio segue o mesmo caminho. Nesse contexto opressivo, construir vínculos torna-se um grande desafio. “Cada personagem tem a sua forma de expressão, seus trejeitos, um vocabulário muito bem estabelecido. Essa foi uma maneira de falarmos sobre nossa dificuldade de comunicação e como isso impacta as relações”, comenta a diretora Beatriz Barros.

Esses aspectos também se refletem na trilha sonora de Dani Nega. Inspirada pelo improviso do jazz, a artista criou linhas melódicas específicas para os personagens, como se a cada um fosse atribuído um instrumento musical próprio.

Ariel Ribeiro, responsável pelo figurino, com sua pesquisa Zootomia, desenvolveu para cada personagem peças que mostram os corpos contemporâneos e os possíveis colapsos que podem reverberar em sociedade.

Felizarda questiona a facilidade com que entramos na lógica do sistema, sem problematizar absolutamente nada. Nenhum dos colaboradores sabe o que a empresa faz, mas ninguém assume isso. Nem mesmo a personagem-título tem a coragem de dizer isso para a esposa.

Felizarda: Amor, tenho duas notícias. Uma boa e uma ruim. A boa é que fui contratada pra vaga com o melhor salário. A ruim é que a vaga é um pouco vaga / Não / Amor, tenho duas notícias. Uma boa e uma ruim. A boa é: consegui o emprego. A ruim é: não sei qual é o emprego / Não…Amor, uma ótima notícia!

Esposa: Eu também tenho!

Felizarda: O quê?

Esposa: Uma ótima notícia.”

Trecho da dramaturgia de Felizarda, de Cecilia Ripoll

“Estamos tão focados em provar que podemos ser eficientes e produtivos 24 horas por dia que nos alienamos. Não nos conectamos mais nem com os nossos sentimentos e nem com as outras pessoas. Assim, ficamos cada vez mais sozinhos”, defende Louise.

Apesar do tema denso, o texto é permeado por muita ironia e humor. De acordo com Beatriz, o trabalho é definido como uma distopia contemporânea não situada no tempo, ou seja, não existem elementos muito característicos de um período histórico. A narrativa se encaixaria bem no passado, no presente ou no futuro.

Sinopse | Felizarda é contratada por uma empresa, mas não sabe exatamente para quê. Enquanto tenta entender qual é sua função, vê-se cercada por neuroses e angústias típicas de um mundo hiperprodutivo, onde a comunicação falha e o trabalho invadem todas as esferas da vida. A partir de situações absurdas e cotidianas, o espetáculo traça um retrato tragicômico da alienação contemporânea.

Ficha Técnica

Elenco: Bella Camero, Louise D’Tuani, Sidney Santiago Kuanza, Sol Menezzes

Direção: Beatriz Barros

Idealização: Bella Camero e Louise D’ Tuani

Assistência de Direção: Castilho

Texto: Cecilia Ripoll

Direção de Movimento e preparação corporal: Ariel Ribeiro

Cenografia e projeto gráfico: Pedro Levorin

Figurino: Elias Kalleb

Assistente de figurino: Brun Pereira

Luz: Wagner Antônio

Assistência de iluminação: Marina Meyer

Trilha original: Dani Nega

Operação de som: Abismo de Bibi

Fotos: André Nicolau

Assessoria de Imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques, Daniele Valério e Flávia Fontes

Produção: Corpo Rastreado | Gabs Ambròzia.

Serviço:

Felizarda

Data: até 29 de junho, de quinta a sábado, às 20h, e, aos domingos, às 18h

Local: TUSP Maria Antônia – R. Maria Antônia, 294 – Vila Buarque

Ingressos: gratuitos | Retirada 1h antes na bilheteria

Telefone: (11) 2648-5222

Duração: 90 minutos

Classificação: 14 anos.

(Com Daniele Valério/Canal Aberto Assessoria de Imprensa)

Zipper Galeria exibe “Ser Ilha”, exposição inédita de Felipe Goés

São Paulo, por Kleber Patricio

Pintura 423, 2022. Fotos: Zipper Galeria.

A Zipper Galeria apresenta “Ser Ilha”, exposição inédita de Felipe Góes. Com texto curatorial de Renata Rocco, a mostra reúne o conjunto de 8 pinturas que evocam paisagens em constante formação, erosão e reinvenção.

O ponto de partida conceitual da exposição emerge do encontro entre a obra do poeta Manoel de Barros (1916–2014) e o fenômeno natural que originou Surtsey — ilha formada no Atlântico sul da Islândia em decorrência de uma erupção vulcânica entre 1963 e 1967.

Desde a erupção, Surtsey vem sendo moldada pela erosão dos ventos e do mar, que já reduziu a ilha a quase metade de suas dimensões, em um ciclo contínuo de feitura e desfazimento. Esse processo ressoa diretamente no gesto pictórico de Góes: camadas sucessivas de tinta cobrem parcialmente tentativas anteriores de forma, revelando e ocultando memórias, fantasias e construções imagéticas.

Felipe Góes, Pintura 339, 2019 – acrílica sobre tela – 42 x 50 cm.

Nesse sentido, a exposição dialoga com a poética de Manoel de Barros, poeta brasileiro do século XX cuja obra se debruça sobre a reinvenção do olhar para o mundo ordinário. Inspirado pelo Pantanal, Barros transformava coisas mínimas em matéria filosófica, celebrando o “desimportante” com lirismo e humor. Seus termos — como “ser”, “transver” e “desformar” — oferecem chaves sensíveis para pensar a lógica interna das pinturas de Góes, marcadas por camadas, apagamentos e reconstruções.

Em suas telas, Góes sobrepõe camadas de tinta para criar imagens que não se fixam completamente. Suas pinturas evocam formas que emergem e se desfazem, como se estivessem em fluxo, como se fossem fragmentos de um mundo em lenta deriva.

A curadoria traz leituras que ampliam os sentidos da obra, articulando questões telúricas e poéticas. “Ser Ilha” propõe uma experiência em que a paisagem se torna metáfora de um estado de transição — entre o visível e o intuído, entre o gesto e o apagamento. Assim, o processo pictórico espelha os próprios ciclos de criação, transformação e desaparecimento do mundo natural.

Felipe Góes, Pintura 377, 2020 – acrílica sobre tela – 42 x 50 cm.

Renata Rocco, autora do texto curatorial ressalta que “As ilhas de Felipe Góes não existem no mundo real. São fabulações, construídas sem mapa ou bússola, nascidas no instante do gesto. São invenções que ganham corpo à medida que são pintadas, como se o artista criasse territórios à deriva, onde podemos nos perder — ou nos encontrar”.

Sobre o artista 

Felipe Góes (São Paulo, 1983) vive e trabalha em São Paulo. Sua pesquisa se volta à representação de paisagens e do cosmos, explorando como percebemos e construímos imagens no tempo presente, em diálogo com questões ligadas à natureza, ao meio ambiente e à experiência da existência no planeta.

Realizou exposições individuais na Zipper Galeria (São Paulo, 2023), Galeria Kogan Amaro (Zurique, 2022 e São Paulo, 2022 e 2019), Galeria Murilo Castro (Belo Horizonte, 2018), Istituto Moreira Salles (Poços de Caldas, 2017), Galeria Virgílio (São Paulo, 2016 e 2018), Central Galeria de Arte (São Paulo, 2014), Phoenix Institute of Contemporary Art (Arizona, EUA, 2014) e Usina do Gasômetro (Porto Alegre, 2012).

Participou das exposições coletivas Ainda não é o fim do mundo (Paço das Artes, São Paulo, 2025), El viaje interminable (Palácio Pereda, Embaixada Brasileira em Buenos Aires, Argentina, 2023), Ephemeral Existence – Teleportal (Studio 620, Nova York, EUA, 2022), Mapping Spaces (Kentler International Drawing Space, Nova York, EUA, 2016), 2ª Bienal Internacional de Asunción (Assunção, Paraguai, 2017) e Utopia de colecionar o pluralismo da arte (Fundação Marcos Amaro, Itu, 2019).

Envolveu-se também em residências artísticas em Ottawa School of Art (Ottawa, 2024); School of Visual Arts (Nova York, 2021); Phoenix Institute of Contemporary Art (Phoenix, 2014) e Instituto Sacatar (Itaparica, 2012).

Sobre Renata Rocco

Renata Rocco é pesquisadora e curadora. Tem Pós-doutorado pelo Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP, 2023 – Bolsa FAPESP), Doutorado (2018 – Bolsa FAPESP) e Mestrado (2013 – Bolsa CAPES) pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo, todos sob orientação da Profa. Dra. Ana Gonçalves Magalhães, docente e curadora do MAC USP.

Rocco é autora do livro Danilo Di Prete em Ação: a construção de um artista no ambiente da Bienal de São Paulo (2022), artigos sobre arte moderna italiana e brasileira, e sobre as primeiras edições da Bienal de São Paulo. Foi curadora de exposições de arte moderna MAC USP e de artistas contemporâneos em São Paulo. Foi membro do Comitê de Indicação do PIPA 2025 e trabalha desde março de 2024, no Acervo Artístico dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.

Serviço:

Felipe Góes – Ser Ilha

Texto curatorial: Renata Rocco

Abertura: 14 de junho de 2025, sábado, a partir das 11h

Período expositivo: 14 de junho até 19 de julho de 2025

Local: Zipper Galeria — Rua Estados Unidos, 1494, Jardim América, São Paulo
www.zippergaleria.com.br | @zippergaleria.

(Com Edgard França/Cor Comunicação)

Instituto Tomie Ohtake apresenta Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros

São Paulo, por Kleber Patricio

Cena da peça Othello, com Ruth de Souza e Abdias Nascimento. Fotos: José Medeiros.

O Ministério da Cultura, via Lei Federal de Incentivo à Cultura, e o Instituto Tomie Ohtake, com a correalização do Ipeafro – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros anunciam a exposição Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros, que conta com patrocínio do Nubank, mantenedor do Instituto Tomie Ohtake. Sob curadoria de Eugênio Lima, a mostra ficará em cartaz de 13 de junho a 3 de agosto de 2025, paralelamente às exposições Manfredo de Souzanetto – As montanhas, Manuel Messias – Sem limites e Casa Sueli Carneiro em residência no Instituto Tomie Ohtake.

Reunindo cerca de 110 itens, entre fotografias e documentos provenientes do acervo do Ipeafro, a mostra ilumina a histórica colaboração entre o Teatro Experimental do Negro (TEN) e o fotógrafo José Medeiros (1921–1991) ao longo de quase duas décadas. Mais do que documentar, a exposição busca evidenciar uma parceria artística que é, ao mesmo tempo, política e poética, ressaltando o papel fundamental do TEN tanto na evolução do teatro moderno no Brasil quanto na afirmação da identidade negra nas artes e na esfera pública. A relação entre o TEN e Medeiros é de colaboração simbólica e prática: enquanto o grupo teatral lutava por representação e dignidade para pessoas negras no cenário artístico, o fotógrafo registrava e difundia essa luta com sensibilidade e respeito, contribuindo de forma decisiva para sua preservação na memória visual brasileira.

Ensaio da peça O imperador Jones, com Aguinaldo Camargo e o elenco masculino.

Fundado em 1944 por Abdias do Nascimento, dramaturgo, ator, artista plástico, escritor, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras brasileiras, o TEN foi uma iniciativa pioneira no combate ao racismo e na promoção da cultura afro-brasileira por meio das artes cênicas. Nascimento tinha como objetivo criar um espaço onde artistas negros pudessem se expressar com autonomia e dignidade, enfrentando o preconceito que os limitava a papéis estereotipados na sociedade e no teatro da época.

Para Abdias Nascimento, o teatro era espelho e resumo da peripécia existencial humana – mas só poderia alcançá-la realmente ao incorporar a humanidade negro-africana em sua dimensão plena. A dignidade dos povos afrodescendentes e a dramaticidade de sua epopeia no Brasil, as quais Abdias e o TEN buscaram projetar, transparecem nas imagens criadas por José Medeiros. Amigo e participante do TEN, o olhar do fotógrafo abraçava e celebrava as pessoas e criações do grupo, tanto no palco como na cena cultural e política do país.

Sobre José Medeiros

Ensaio da peça Todos os filhos de Deus têm asas, com Ruth de Souza e Ilena Teixeira.

José Medeiros foi um importante fotojornalista brasileiro entre as décadas de 1940 e 1960. Como colaborador da revista O Cruzeiro, um dos principais veículos de comunicação da época, o fotógrafo registrou momentos marcantes da vida social e cultural brasileira. Segundo o curador, foi provavelmente com restos de filmes utilizados na revista que o fotógrafo fazia seus registros sobre o TEN. A lente de Medeiros acompanhou ensaios, bastidores e apresentações da companhia, ajudando a consolidar uma memória visual daquele movimento artístico e político inovador.

As contribuições de Medeiros foram além do simples registro documental. Suas fotografias possuíam um olhar sensível e esteticamente apurado, valorizando a expressividade dos corpos negros em cena e o simbolismo presente nas encenações. Eugênio Lima aponta que o conjunto das imagens exibidas manifesta, “…de maneira inequívoca, que Medeiros tinha a intenção de transformar a documentação do TEN em uma obra de arte: as fotos, nitidamente dirigidas pelo fotógrafo, não são necessariamente o registro de um momento, mas, sim, uma produção feita com a intenção de tornar-se icônica”, afirma o curador.

Sobre o Ipeafro

Fundado em 1981 por Abdias Nascimento e Elisa Larkin Nascimento, o Ipeafro é uma associação sem fins lucrativos sediada no Rio de Janeiro. Sua missão é preservar e difundir o acervo de Abdias, que inclui obras de arte e documentos ligados ao Teatro Experimental do Negro e ao projeto Museu de Arte Negra. O acervo reúne manuscritos, correspondências, registros parlamentares e vasta iconografia, e centenas de obras artísticas. Com base nesse material, o Ipeafro realiza exposições, cursos, fóruns, oficinas e publicações. Também promove o acesso ao acervo por meio de seu site e canais digitais, ampliando o alcance educativo e cultural da instituição.

Sobre Abdias Nascimento

Abdias Nascimento (1914-2011), poeta, dramaturgo, artista visual e ativista panafricano, foi deputado federal, senador da República e Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova York (EUA). Como parlamentar, ele foi autor das primeiras propostas ao Estado brasileiro de políticas públicas de combate ao racismo (1983). É autor do conceito político-cultural de Quilombismo. Organizou, em 1950, o 1o Congresso do Negro Brasileiro, que propôs a criação de um Museu de Arte Negra. Curador do projeto de 1950 até 1968, quando realizou sua exposição inaugural, ele continuou o trabalho no exílio (1968-1981), onde desenvolveu a própria pintura e a exibiu em museus, galerias e universidades dos Estados Unidos. Pelo conjunto da obra, foi indicado oficialmente ao prêmio Nobel da Paz.

Programa Público

A esta exposição soma-se um programa público de encontros, oficinas e vivências. No dia 28 de junho, da 16h às 18h, ocorre a conversa com Leda Maria Martins e Aldri Anunciação. No dia 5 de julho serão três eventos, começando pela conversa com William Santana Santos e Guilherme Diniz, com mediação de Mari Per, das 16h às 18h, seguida por uma palestra com Samuel Titan sobre José Medeiros, das 18h às 18h30 e, encerrando a programação do dia, uma performance com Verônica Santos, das 18h30 às 19h30. No dia 19 de julho, das 16h às 19h, ocorre uma sessão do filme de Daniel Solá Santiago seguido de debate com Mari Queen e Heitor Augusto. Uma performance com Malu Avelar no dia 02 de agosto, das 16h às 18h, encerra a programação. A programação é atualizada pelo site e redes sociais do Instituto ao longo do período expositivo.

Amigo Tomie

O Programa de Amigos do Instituto Tomie Ohtake quer aproximar o público de um dos espaços de arte mais emblemáticos da cidade de São Paulo. Além de apoiar, o Amigo Tomie fará parte de uma comunidade conectada à arte, contará com benefícios especiais e experiências únicas. São três categorias de apoio, contribuindo com novas exposições, programas educativos, orçamento anual e manutenção do Instituto.

Serviço:

Teatro Experimental do Negro nas fotografias de José Medeiros

Em cartaz até 3 de agosto de 2025

De terça a domingo, das 11h às 19h – última entrada até as 18h

Entrada franca

Instituto Tomie Ohtake

Av. Faria Lima, 201 (Entrada pela Rua Coropé, 88) – Pinheiros SP

Metrô mais próximo: Estação Faria Lima/Linha 4 – Amarela

Fone: (11) 2245-1900.

(Com Martim Pelisson/Instituto Tomie Ohtake)

Formigas agricultoras fazem ninho de todo tamanho e regeneram o solo

São Paulo, por Kleber Patricio

Aspectos externos de Ninhos de formigas Attini. Acima: Mycetarotes (esq.) e Mycocepurus (dir.); abaixo: duas entradas de ninhos de Trachymyrmex. Foto: Reprodução/BJB.

Pequenas agricultoras que cultivam fungos como alimento há milhões de anos, formigas cultivadoras de fungo pertencentes à tribo Attini constroem lares tão diferentes quanto quitinetes e arranha‑céus, influenciando diretamente a saúde dos solos e o ciclo de nutrientes. Ao radiografar 49 ninhos, pesquisadores acharam desde câmaras solitárias a 30 cm da superfície até túneis com 2,05 m de profundidade que ventilam o solo, reciclam nutrientes e guardam pistas sobre a própria evolução desses insetos‑fazendeiros. O novo estudo foi publicado nesta sexta‑feira (20 de junho) no Brazilian Journal of Biology.

As formigas, de cinco gêneros diferentes, foram seguidas até as entradas dos ninhos, localizados no campus da Unesp em Rio Claro, São Paulo, Brasil, que foram marcadas e escavadas manualmente, e medidas como largura, profundidade e tamanho das câmaras foram registradas. Operárias e materiais encontrados nas câmaras, como fungos, larvas e pupas, foram levados ao laboratório para observações adicionais.

Também participaram pesquisadores da Uesb (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), UFV (Universidade Federal de Viçosa), Uema (Universidade Estadual do Maranhão) e Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), em colaboração com a Uner (Universidad Nacional de Entre Ríos, Argentina).

A arquitetura dos ninhos mostrou-se altamente adaptável, variando conforme a linhagem evolutiva de cada gênero. Estruturas profundas e multi‑câmaras, como as do gênero Trachymyrmex (31 ninhos), aumentam a ventilação natural e aceleram a decomposição da matéria orgânica. Já ninhos superficiais, como os de Cyphomyrmex (4 ninhos) e Mycetarotes (3 ninhos), provocam impactos ambientais mais localizados.

Entender esse espectro ajuda a prever como as formigas responderão a mudanças climáticas, a calibrar práticas de recuperação de solos degradados e até a inspirar projetos de ventilação passiva em obras subterrâneas. Também foram analisados ninhos de Mycocepurus (7) e Myrmicocrypta (4). “Essa variação revela que a construção do ninho é altamente adaptativa e não um traço fixo, o que surpreende e amplia nossa compreensão sobre a nidificação dessas espécies”, explica Aldenise Alves Moreira da Uesb, autora do estudo desenvolvido como parte de seu pós-doutorado, com a supervisão de Odair Correa Bueno, na Unesp. Para ela, o resultado aponta que, embora todas cultivem fungos, as estratégias de construção diferem bastante, refletindo distintas trajetórias evolutivas e ecológicas dentro do grupo Attini.

A pesquisadora ressalta que essas descobertas ajudam a entender melhor as relações históricas desses insetos. “Ao comparar as estruturas, é possível inferir padrões de ancestralidade e divergência entre os gêneros estudados”, diz. “As informações sobre os ninhos complementam dados genéticos e morfológicos, possibilitando uma visão mais integrada da evolução das formigas cultivadoras de fungos”, acrescenta. Moreira acredita que os dados podem ajudar a construir uma linha do tempo até as características observadas atualmente. “Isso ajuda a identificar como mudanças na organização do ninho podem ter sido respostas adaptativas a pressões ambientais ou funcionais, fornecendo pistas sobre a história natural desses insetos”, argumenta.

A investigação também pode ter papel na formulação de estratégias que levem em conta o impacto desses insetos sobre a agricultura e os ecossistemas florestais. “As formigas dessa tribo cultivam fungos porque eles metabolizam o material forrageado que as operárias coletam, transformando-o em alimento digerível”, explica. “Entender como fazem isso permite compreender a forma como organizam seu espaço, o que influencia o fluxo de nutrientes, a decomposição da matéria orgânica e a estrutura do solo”, diz. Como exemplo, cita que ninhos mais complexos, como os de Trachymyrmex, podem acelerar a ciclagem de nutrientes e favorecer a fertilidade do solo em ambientes florestais.

A equipe pretende, agora, ampliar o número de espécies analisadas para obter um panorama mais completo da diversidade estrutural. “Os próximos passos incluem o estudo das variações arquiteturais dentro das espécies, para entender o comportamento de escavação dos ninhos, a investigação da relação entre a arquitetura do ninho e a produtividade dos fungos cultivados e a exploração de como essas diferenças influenciam o papel ecológico das formigas em diferentes habitats”, conclui Aldenise Moreira.

(Fonte: Agência Bori)

‘Suco’ de bactéria dado a frango ajuda a impedir e tratar infecção por Salmonella

São Paulo, por Kleber Patricio

Pesquisa mostra que substância derivada de bactéria pode reduzir infecção por Salmonella sem uso de antibióticos. Foto: FreePik.

Substâncias produzidas pela bactéria Enterococcus faecium mostraram eficácia contra Salmonella Heidelberg em frangos de corte, patógeno associado a doenças e contaminação de ovos e carne. A descoberta é resultado de um estudo realizado na Unesp, em parceria com a canadense Universidade de Calgary, e foi publicada na revista Ciência Rural na última sexta (20). Os resultados indicam a possibilidade de controlar a salmonelose aviária sem antibióticos, favorecendo um manejo sustentável e prevenindo a resistência antimicrobiana.

Para investigar os efeitos do filtrado de E. faecium — uma mistura rica em compostos bioativos produzidos por essa bactéria — contra a Salmonella Heidelberg (Heidelberg, no caso, é uma variante, não o epíteto de espécie, que é enterica: Salmonella enterica), causadora da salmonelose, os pesquisadores dividiram 32 frangos jovens em quatro grupos. Um deles recebeu o filtrado por via oral, uma vez ao dia, durante cinco dias antes do contato com a bactéria, enquanto outro grupo recebeu o mesmo tratamento após a infecção para observar uma possível ação terapêutica. Os demais grupos serviram como controle, permanecendo sem tratamento, para comparação dos resultados.

Entre as aves que receberam o filtrado antes da exposição à Salmonella, 62,5% apresentaram ausência ou baixos níveis da bactéria no intestino aos 21 dias, contra 37,5% das não tratadas. Essa diferença, porém, não foi estatisticamente significativa. No grupo tratado após a infecção, a quantidade da bactéria foi 174 vezes menor que no grupo controle. “Estudos apontam que bactérias ácido-lácticas, como a E. faecium, podem produzir peptídeos autoindutores, que podemos chamar de filtrado ou posbiótico”, explica Fernanda Barthelson, autora do estudo.

“Esse filtrado induz a comunicação bacteriana na microbiota intestinal, modulando-a no controle de patógenos”, acrescenta. Ela ainda ressalta que a E. faecium já está naturalmente presente nas aves, então o uso do filtrado não aumenta o risco de infecções. “Damos apenas um ‘start’ para estimular um processo de modulação, onde elas produzirão outras substâncias sinalizadoras com função específica, como a inibição da Salmonella”, diz.

De acordo com Barthelson, a compreensão de mecanismos como o investigado pelo estudo pode favorecer a produção avícola, contribuir para a saúde de humanos e, até mesmo, permitir a criação de mecanismos preventivos e tratamentos para outras espécies. “O conhecimento desse comportamento dessas bactérias é necessário para o desenvolvimento de produtos que permitam melhor desempenho das aves e reduzam a contaminação de produtos avícolas”, argumenta. “Acreditamos no potencial de inserção do posbiótico em outras áreas, além das cadeias comerciais, inclusive, na manutenção de uma microbiota saudável, por exemplo, em animais de companhia e humanos”, defende.

Os resultados da pesquisa também são importantes na prevenção da resistência antimicrobiana — apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das principais ameaças à saúde pública global. Esse fenômeno ocorre quando bactérias e outros microrganismos desenvolvem mecanismos que os tornam resistentes aos antibióticos e uma das principais estratégias para combatê-lo é a redução do uso desses medicamentos.

 “O controle das salmonelas se tornou mais desafiador devido à restrição do uso de antibióticos na indústria avícola”, explica a pesquisadora. “Nesse cenário, nosso estudo demonstrou os efeitos protetores da microbiota intestinal estimulada pelo filtrado no controle da S. Heidelberg, com potencial como abordagem não antibiótica para o manejo dessa importante doença”, afirma.

A equipe de autores pretende intensificar as investigações sobre a ação do filtrado. Segundo Barthelson e Adriano Okamoto, orientador do trabalho, os próximos passos devem incluir a identificação da molécula específica presente no filtrado que induz a modulação da microbiota e favorece o combate à bactéria. Ainda que os resultados sejam positivos, ela salienta que é necessário aprofundar os conhecimentos sobre o tema antes de utilizar o filtrado em larga escala. “O uso comercial deste filtrado ainda precisa de pesquisas para melhor elucidação e comprovação de sua eficácia no campo”, conclui Barthelson.

(Fonte: Agência Bori)