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Arte & Cultura

Rio de Janeiro

Etc e Tal transforma “Dom Quixote” em uma experiência visual arrebatadora e reafirma a força da mímica brasileira no cenário contemporâneo

por Kleber Patrício

Uma das companhias mais importantes do teatro físico brasileiro, a carioca Etc e Tal apresenta Dom Quixote, espetáculo infanto-juvenil sem palavras que reinventa o clássico de Miguel de Cervantes por meio da mímica, da comicidade gestual e de uma sofisticada dramaturgia visual. A estreia acontece no dia 7 de março de 2026 no Teatro Glaucio […]

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Lazer & Gastronomia

Inglaterra

British Pullman, A Belmond Train, Inglaterra, apresenta “Celia”, vagão exclusivo assinado por Baz Luhrmann e Catherine Martin

por Kleber Patrício

Novo vagão é dedicado a eventos e jantares privados; espaço foi idealizado e desenhado pelo cineasta Baz Luhrmann, diretor de filmes como Moulin Rouge!, The Great Gatsby e Elvis, e pela figurinista e designer de produção Catherine Martin, quatro vezes vencedora do Oscar por seu trabalho em Moulin Rouge! e The Great Gatsby

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Encontro nacional reúne caçadores de aurora e histórias que atravessam o mundo

Curitiba, por Kleber Patricio

Por 10 anos, Nayla Takahashi Aoki guardou um sonho no peito. O tipo de sonho que não se desfaz com o tempo, ao contrário, cresce, amadurece, resiste até a uma pandemia. Fotos: Nayla Takahashi Aoki.

Por 10 anos, Nayla Takahashi Aoki guardou um sonho no peito. O tipo de sonho que não se desfaz com o tempo – ao contrário, cresce, amadurece e resiste até a uma pandemia. E quando finalmente se realizou, veio acompanhado de lágrimas, silêncio e o tipo de beleza que é impossível explicar com palavras.

Aos 34 anos, Nayla é gerente executiva de planejamento em São Paulo. Mas por alguns dias em fevereiro deste ano, ela foi muito mais do que isso. Foi uma caçadora de aurora boreal – e encontrou o que procurava no céu congelado da Lapônia. “Faz uns 10 anos que eu comecei a procurar mais sobre a aurora. Eu já conhecia o fenômeno, claro, mas era distante, quase impossível. Financeiramente era difícil. Mas era o sonho da minha vida”.

Tudo foi adiado pela pandemia, mas não esquecido. Depois, cada nova viagem que cogitava fazer era adiada por um pensamento insistente: “Se eu juntar mais um pouquinho, eu vejo a aurora”. Foi nesse meio tempo que Nayla conheceu Marco Brotto, o curitibano conhecido como O Caçador de Aurora Boreal. “Comecei a seguir ele nas redes, acompanhar os posts e os stories… Ficava deslumbrada. Era muita paixão pelo que ele fazia. Eu até pensei em ir sozinha, mas falei pra mim mesma: a chance de não ver é grande. Então, que eu vá com alguém que vai fazer de tudo pra me mostrar”.

Foi a decisão certa

Na tela da memória, as luzes dançantes do céu da Lapônia ainda brilham. Tão fortes quanto naquela noite congelante.

A primeira noite da expedição trouxe uma aurora tímida. A segunda, um pouco mais intensa. E então veio a terceira… “Teve uma hora que eu me afastei do grupo, fui pra um cantinho, sentei e chorei. Chorava de emoção. Vieram perguntar se estava tudo bem. E eu disse: tá tudo bem. É que eu não tô acreditando que tô aqui vendo tudo isso”.

Na tela da memória, as luzes dançantes do céu da Lapônia ainda brilham. Tão fortes quanto naquela noite congelante. “Eu não superei. Encontrei o pessoal hoje no encontro aqui em Curitiba e falei: já quero a próxima. Já tô pensando em como me organizar de novo. Vale muito a pena”.

E ali, no 5º Encontro Nacional de Caçadores de Aurora Boreal, rodeado de gente que viveu algo parecido, Marco Brotto confirma o que todo viajante sente: a verdadeira luz da aurora não está só no céu. Está dentro da gente.

Nayla é uma das mais de 300 pessoas que participaram do evento organizado pelo curitibano, referência quando o assunto é caçar as luzes do norte, com mais de 170 expedições bem-sucedidas.

(Fonte: Agência Souk)

Livros: ‘Bastidores da Ciência’ desmitifica estereótipos que envolvem o mundo científico

São Paulo, por Kleber Patricio

Capa do livro.

Como você imagina um cientista? Provavelmente em um laboratório, com jalecos brancos, livros espalhados, óculos de proteção ou com ‘fundo de garrafa’ e alguns equipamentos sofisticados. Um cenário bastante comum em filmes na TV. E as grandes descobertas são sempre do tipo ‘momento Eureka’. Tudo isso acaba negligenciando o fato de que este profissional trabalha incansavelmente horas a fio, durante muito tempo, até conseguir chegar a um resultado mais diferenciado. Para desmitificar esse e outros estereótipos, Leandro Lobo lança, pela editora ICH, o livro ‘Bastidores da Ciência’, no dia 8/4, às 19h, na Livraria Janela do Shopping da Gávea.

Com uma linguagem clara e acessível, para divertir além de instruir, a obra dá luz a esses bastidores para mostrar a vida mais cotidiana e real de cientistas e pesquisadores. Além disso, apresenta pesquisas e resultados que impactam tanto a ciência mundial como no dia a dia de todos.

O autor é o microbiologista e imunologista Leandro Lobo, professor no Instituto de Microbiologia Paulo de Góes da UFRJ e pesquisador na área de bacteriologia médica. “É comum recebermos a notícia de algum grande feito da ciência seja um produto tecnológico ou uma nova equação que nos ajuda a entender o universo, mas muitos não sabem que, para cada descoberta, houve centenas, talvez milhares, de tentativas fracassadas. Cientistas também cometem erros, mas esses erros nos ajudam a aprender e o bom cientista sabe valorizar esses erros. Esse livro conta histórias de erros, acasos e situações inesperadas na ciência. São histórias incomuns, às vezes bizarras e muitas vezes engraçadas, que vão fazer o leitor enxergar o trabalho do cientista de uma maneira completamente diferente, muito mais mundana e divertida”, explica.

Dividido em seis partes, a obra traz capítulos sobre Histórias e curiosidades que não nos contam, como um método inusitado de produzir a vacina contra o tifo serviu para libertar judeus na Segunda Guerra; Pequenas e grandes invenções que mudaram nosso dia a dia, como a insulina e o inventor da lâmpada Thomas Edison e, O acaso nas descobertas, como a toxina botulínica, de veneno a tratamento estético. Também traz Personagens curiosos e admiráveis, como Vital Brazil e Bertha Lutz, além de uma parte dedicada aos equívocos em Cientistas também erram, como, por exemplo, a de um químico, duas vezes prêmio Nobel que errou ao propor uma estrutura tridimensional do DNA. Por fim, Em busca de seu merecido lugar traz um espaço dedicado a histórias de cientistas que deixaram de receber crédito por suas descobertas.

Uma pesquisa de percepção da ciência brasileira feita pelo Datafolha de 2015 apontou que 63% dos entrevistados afirmaram ter interesse por ciência e tecnologia, mas 77% não souberam nomear um instituto de pesquisa ou até mesmo uma universidade no Brasil, ainda que quase todos os entrevistados (99%) acreditassem que a ciência é fundamental para o desenvolvimento do país. “Se as pessoas têm tanto interesse em ciência, por que os materiais de divulgação científica são pouco consumidos? É claro que grande parte do problema tem origem na dificuldade dos cientistas em adaptar a linguagem acadêmica para uma mais compreensível, com analogias e metáforas, que prendam a atenção e favoreçam o entendimento do assunto para que pessoas não especializadas possam participar do debate”, afirma Lobo.

Serviço:

Bastidores da Ciência

Lançamento: dia 8/4, às 19h, com sessão de autógrafos

Local: Livraria Janela do Shopping da Gávea Rio de Janeiro – RJ.

(Com Kadygia Ferreira/Danthi Comunicação)

Teatro contra misoginia e violência de gênero

Rio de Janeiro, por Kleber Patricio

Foto: Aloysio Araripe.

O que leva um jovem a transformar frustração pessoal em ódio mortal? Este é o tema do espetáculo ‘O Anorak’, que chega aos palcos do Teatro Ziembinski, no Rio de Janeiro, no próximo dia 2 de maio. Escrito pelo canadense Adam Kelly Morton, o texto narra os acontecimentos que antecederam o ataque que chocou o mundo: o assassinato em massa de 14 mulheres na Escola Politécnica da Universidade de Montreal, em 1989.

Protagonizado pelo ator Daniel Chagas e dirigido por Sueli Guerra, a montagem vai além da reconstituição do crime: investiga as origens do ódio e expõe as fissuras da masculinidade moldada pela rejeição, solidão e um sentimento de inadequação que culmina na violência. “Quando encontrei esse texto, percebi que tocava em uma ferida que o mundo insiste em ignorar. Infelizmente, o discurso de ódio contra as mulheres não é uma página virada da história; ele persiste, e com força, também no Brasil. O espetáculo é um convite para refletirmos sobre como a misoginia é construída e perpetuada socialmente”, afirma Chagas.

Para a diretora, conhecida por trabalhos que exploram a relação entre corpo, emoção e cena, encarar esta montagem foi um processo delicado e, acima de tudo, necessário. “Tem sido muito difícil encarar esse texto, principalmente para mim e para toda equipe, que é composta por mulheres. Eu sou mãe de menino, então isso pesa ainda mais. É fundamental refletir sobre como e o quanto nós, como sociedade, somos responsáveis por essa construção: homens misóginos, inseguros, frágeis diante dos seus próprios sentimentos e incapazes de lidar com frustração. Eles se tornam alvos fáceis para pensamentos e atitudes extremas, como os que a peça expõe”, ressalta Sueli.

Além da profundidade do tema, o processo de construção da montagem exigiu de Daniel um mergulho intenso e um cuidado ético redobrado. “Desde o início, eu sabia que essa montagem só poderia ter mulheres conduzindo a criação. A misoginia é um tema que diz respeito a todos, mas são as mulheres que sentem na pele. Ter a Sueli Guerra na direção foi fundamental, porque ela trouxe generosidade e firmeza para atravessar esse território tão delicado.”

O trabalho de encenação apostou no equilíbrio entre texto e fisicalidade, num jogo sutil de presença e ausência. “Digamos que o movimento aqui circula entre o interno e o externo, nas sutilezas da suspensão e do tônus. Não queríamos reforçar estereótipos, mas provocar o público a sentir e refletir profundamente”, completa a diretora.

A arte como provocação social

Além de expor as raízes da misoginia, O Anorak também convida à autocrítica social: como os discursos de ódio se formam, se alimentam e ganham espaço seja em salas de aula, fóruns virtuais ou ambientes de convívio. A montagem não tem como objetivo apontar culpados específicos, mas ampliar a compreensão sobre um fenômeno que atravessa classes sociais, culturas e fronteiras. Ressalta Sueli: “A arte, para mim, tem o papel de iluminar o que preferimos manter na sombra. O fato de o tema ser mais do que atual foi o que me motivou a dirigir essa peça.” 

Para Daniel, o desejo é que o espetáculo percorra diferentes públicos e territórios. “Eu sonho com esse texto viajando o país, indo não só para os grandes centros, mas chegando também às periferias, às cidades pequenas. A arte precisa alcançar quem mais precisa dela, porque é no encontro com essas histórias que a gente, talvez, consiga mudar alguma coisa.”

Com 90 minutos de duração, O Anorak se propõe a ser mais do que teatro: um convite incômodo e necessário para refletir sobre as bases da nossa convivência social.

Serviço:

Espetáculo Anorak

Texto: Adam Kelly Morton

Atuação: Daniel Chagas

Direção: Sueli Guerra

Estreia: 2 de maio

Sextas e sábados: 20h

Domingos: 19h

Duração: 90 minutos

Teatro Municipal Ziembienski – rua Urbano Duarte, Tijuca (em frente ao metrô São Francisco Xavier).

(Fonte: Mis Comunicação)

Cineasta português Edgar Pêra desafia o cinema convencional em obra experimental que dialoga com Fernando Pessoa

Rio de Janeiro, por Kleber Patricio

Fotos: Divulgação/Bando à Parte.

Produzido por Rodrigo Areias, da produtora Bando à Parte (Portugal), o filme ‘Não Sou Nada’ (2023), do cineasta português Edgar Pêra, estreia no Brasil via Fênix Filmes no dia 15 de maio. Realizador conhecido por sua filmografia iconoclasta e vanguardista, constrói um ensaio audiovisual hipnótico e desconcertante, inspirado no poema homônimo de Álvaro de Campos, um dos heterônimos mais turbulentos de Fernando Pessoa. Mais do que uma adaptação, o filme é uma experiência sensorial que dissolve as fronteiras entre cinema, poesia e música, mergulhando o espectador em um turbilhão de imagens, sons e reflexões sobre identidade, memória e a própria natureza da arte.

Direção: Edgar Pêra

Roteiro: Edgar Pêra, Luísa Costa Gomes

Fotografia: Jorge Quintela

Montagem: Cláudio Vasques

Som: Pedro Marinho

Design De Produção: Ricardo Preto

Música: Jorge Prendas

Trilha Sonora: The Legendary Tigernam

Elenco: Miguel Borges, Victoria Guerra, Albano Jerónimo, Vitor Correia, Marco Paiva, António Durães, Paulo Pires

Produtor: Rodrigo Areias

Produzido Por: Bando À Parte

Classificação Indicativa: 16.

Sinopse

Se a pessoa contém em si imensas latitudes, o poeta que todos conhecemos conteve muito mais. No thriller umbilical de Edgar Pêra, Pessoa (Miguel Borges) alberga na mente todo um ‘Clube do Nada’, povoado pelos heterónimos que codificam as suas peculiaridades e lhe enriquecem a voz lírica pela experiência múltipla. A ameaça de uma psique estilhaçada é permanente, mais ainda com a chegada de uma mulher bem diferente da Ofélia (Victoria Guerra), que mora no real, e com o ‘convalescente do momento’ Álvaro de Campos (Albano Jerónimo) a querer ocupar à força o ‘rés-do-chão do pensamento’. A trilha sonora é assinada por The Legendary Tigernam, nome artístico de Paulo Furtado, que também participa no filme como ator.

Não Sou Nada: Um thriller psicológico no universo de Fernando Pessoa

O filme é uma obra audaciosa que reinventa o gênero biográfico ao transformar a vida e os heterônimos de Fernando Pessoa em um thriller psicológico surrealista. Estrelado por Albano Jerônimo, Victoria Guerra e Miguel Borges, o longa estreou em janeiro de 2023 no Festival de Cinema de Roterdão, nos Países Baixos, chamando a atenção por sua abordagem inovadora.

A história se passa em uma redação onde Pessoa e seus heterônimos — todos vestidos de forma idêntica (terno preto, chapéu e bigode) — trabalham na 23ª edição da revista Orpheu. No entanto, o ambiente aparentemente normal se transforma quando Ofélia (interpretada por Victoria Guerra), a única paixão conhecida do poeta, surge em cena. Sua presença desencadeia uma série de eventos misteriosos, incluindo assassinatos, em um clima que remete ao ‘noir clássico’, mas com toques de surrealismo e tensão psicológica.

O filme opera em dois planos interligados: o mundo da redação (o ‘Clube do Nada’) e um hospício, sugerindo que tudo pode ser uma projeção da mente perturbada de Pessoa. A narrativa não segue uma lógica convencional, convidando o espectador a mergulhar no caos criativo e existencial do poeta.

Edgar Pêra constrói o roteiro quase inteiramente com versos de Fernando Pessoa, incluindo passagens em inglês — língua que o poeta, criado na África do Sul, também dominava. Os heterônimos, como Álvaro de Campos (interpretado por Albano Jerônimo), ganham vida própria, disputando espaço e autoridade em cena.

Não Sou Nada é o projeto mais ambicioso de Edgar Pêra, fugindo completamente das biografias tradicionais. Mais do que contar a vida de Pessoa, o filme reproduz seu universo mental — caótico, poético e cheio de camadas. Para quem busca cinema experimental, literatura e uma viagem sensorial pela mente de um dos maiores escritores portugueses, esta é uma obra que precisa ser sentida e, não, apenas assistida.

Um filme-catástrofe, um retrato do vazio

Pêra não conta uma história: ele desmonta-a. Através de uma montagem fragmentada, que mescla película Super 8, vídeo digital e arquivos deteriorados, Não Sou Nada evoca um mundo em ruínas — tanto físico quanto psicológico. A Lisboa que vemos não é a cidade turística, mas um labirinto de sombras, fábricas abandonadas e rostos apagados, como se o cineasta estivesse a escavar os escombros de uma civilização esquecida.

Edgar Pêra: O alquimista do cinema português 

Edgar Henrique Clemente Pêra (Lisboa, 1960) é um dos cineastas mais inventivos de Portugal, frequentemente descrito como um ‘anarquista da imagem’ ou ‘o punk do cinema lusitano’. Com uma carreira que atravessa quatro décadas, Pêra construiu uma filmografia que desafia classificações, misturando vanguarda, pop, literatura e uma obsessão pela materialidade do cinema.

Formação e influências | Estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e na Royal College of Art (Londres). Influências díspares: do cinema experimental (Stan Brakhage) ao punk rock, passando por Fernando Pessoa e a literatura beatnik.

Obras Cinematográficas – Edgar Pêra

Longas

Kinorama – Beyond The Walls of The Real (2021)

Magnetick Pathways (2018)

The Amazed Spectator (2016)

Lisbon Revisited (2014)

Cinesapiens (segment of 3x3D Film with Jean-Luc Godard and Peter Greenaway) 2013

The Baron (2011)

The Window (Don Juan Mix) (2001)

Manual of Evasion LX 94 (1994)

Curtas

Who Is The Master Who Makes The Grass Green? (1996)

The City of Cassiano (1991).

(Com Alexandre Aquino)

Lázaro Roberto: mestre da fotografia afro-brasileira ganha sua primeira exposição individual na Galeria Nonada SP

São Paulo, por Kleber Patricio

Poucos nomes na fotografia brasileira carregam o peso histórico e a relevância de Lázaro Roberto. Aos quase 70 anos, o fotógrafo que dedicou sua vida a documentar a história do povo negro no Brasil inaugura, enfim, sua primeira exposição individual assinada com seu próprio nome. Apesar de ser amplamente reconhecido por sua produção, essa é a primeira vez que apresenta seu trabalho autoral de forma independente. Até então, sua presença em exposições sempre se deu através do Zumvi Arquivo Fotográfico, coletivo que ajudou a fundar e que se tornou referência na documentação e preservação da memória negra no Brasil. A mostra revela uma produção autoral até então pouco acessível ao grande público, mas cuja importância já atravessa fronteiras.

Desde os anos 1990, Lázaro Roberto se consolidou como um dos grandes protagonistas da fotografia afro-brasileira. Como fundador do Zumvi Arquivo Fotográfico, ele não apenas registrou, mas ressignificou a trajetória e a resistência da população negra na Bahia, criando um acervo essencial para a memória do país. Com um olhar que une fotografia documental e experimental, seu trabalho se transforma em ato político, preservando histórias e expandindo narrativas que o Brasil não pode esquecer.

O reconhecimento de sua obra vai muito além do território nacional. Suas fotografias fazem parte de importantes coleções, como as do Instituto Moreira Salles, do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e do Itaú Cultural, além da prestigiada coleção do The Institute of Chicago. Esses acervos atestam o impacto de sua visão artística, que dialoga com a complexidade da identidade afro-brasileira e sua inserção no patrimônio cultural global.

Para o crítico britânico Oliver Basciano – colaborador de publicações como ArtReview, Frieze, The Guardian e The New York Times, Lázaro Roberto “é um caso que muda a história”. Seu ensaio crítico reforça a grandiosidade do fotógrafo, destacando como sua trajetória representa um divisor de águas na construção da memória negra no Brasil.

Esta exposição não é apenas um marco na trajetória de Lázaro Roberto, mas um momento decisivo em seu reconhecimento enquanto artista autoral. Pela primeira vez, sua obra se apresenta sob sua própria assinatura, evidenciando um olhar mais pessoal e expandindo os limites de sua expressão artística. Mais do que um compromisso com a memória coletiva, seu trabalho ganha agora uma nova dimensão, que o coloca no centro da cena artística e lhe restitui o lugar que sempre lhe pertenceu—o de um artista de renome internacional, cujo legado se impõe com a força e a relevância que lhe são devidas.

“O olhar de negro para negro permeia sua obra: o título da exposição, ‘Lente Negra’, vem do apelido que Roberto carrega há décadas; mas também identifica o olhar a partir do qual essas imagens são captadas. Corpos e culturas são retratados sem a hierarquia interpretativa – muitas vezes exploratória – que sustenta grande parte da fotografia documental produzida por autores brancos e voltada para um público branco. Em português, uma fotografia se ‘tira’; em inglês, o ato pode ser ainda mais violento – ‘capturar’ (‘capture’) a imagem –, mas nenhuma destas palavras parece adequada para Roberto. Por muito tempo, essas imagens não foram retiradas da comunidade onde foram criadas, mas se juntaram ao trabalho de outros fotógrafos negros.” (Oliver Basciano)

Serviço:

Exposição O Lente Negra

Artista: Lazaro Roberto

Texto: Oliver Basciano

Paríodo: até 31 de maio de 2025

Local: NND SP – @nonada_nada

Endereço: Praça da Bandeira, 61 – Centro, São Paulo, SP

Dias e horários de funcionamento: terça a sexta-feira, das 11h às 19h; sábado, das 11h às 15h.

(Com Silvia Balady/Balady Comunicação)