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Paisagens de Laura Villarosa ocupam a Zipper Galeria

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Artista desembarca em São Paulo para apresentar trabalhos recentes em que utiliza técnicas têxteis e diferentes materiais pictóricos. Fotos: Divulgação.

A partir de 16 de maio, a Zipper Galeria abriu para o público “Fio d’água”, exposição de Laura Villarosa. Com texto crítico de Priscyla Gomes, a mostra reúne um conjunto inédito de trabalhos em que a artista constrói paisagens imaginadas em que pintura e bordado se constituem mutuamente.

As composições de Villarosa evocam territórios anteriores ao mapa, superfícies percorridas por linhas e relevos que parecem preceder qualquer tentativa de localização geográfica. A artista trabalha a imagem que se forma pela acumulação paciente do gesto, fora do registro figurativo direto.

O bordado funciona como uma linguagem plástica autônoma e como método de pensamento para sua pesquisa. Cada camada de fio assentada sobre o tecido adensa a imagem, constrói volume, cobre uma região da superfície para que outra se revele. Suas paisagens resultam de sobreposições e decisões acumuladas ao longo de um tempo dilatado.

Sobre os trabalhos de Laura Villarosa, Priscyla Gomes destaca no texto crítico da exposição: “Ao fazer da pintura uma prática atravessada pelo fio, Laura retoma uma história antiga de gestos transmitidos e reinventados. Tecer, costurar, bordar e entrelaçar são ações cotidianas, recorrentemente associadas à produção feminina, mas também potentes modos de exploração do sensível. Nessa fusão de labores, a artista aproxima imagem e matéria, visão e tato, superfície e profundidade”.

Para este conjunto, a artista trabalha com fios de procedências diversas: alguns chegam por meio de fornecedores especializados, outros por doação de pessoas próximas que passaram a reconhecer em sua prática uma atenção particular ao material. Fios naturais convivem com sintéticos no mesmo trabalho, peças artesanais ao lado de industriais. A escolha de cada um aproxima-se da escolha de um pigmento. Em seus processos, Villarosa observa a cor que o fio carrega e o modo como ele absorve ou devolve a luz. Avalia também a textura que cada material imprime à superfície quando assentado em camada. Desses critérios surge a paleta de cada paisagem, definida pelo material antes mesmo de qualquer ideia de imagem.

Os trabalhos reunidos na mostra propõem uma forma de pensamento que se faz por meio da textura. O tecido bordado adquire ali a densidade de um campo pictórico e a sensibilidade de uma pele, submetido à mesma economia de gestos que organiza a pintura. O título “Fio d’água” elucida essa condição: uma imagem em transformação contínua, conduzida por um curso silencioso que se mantém em movimento.

Sobre a artista

Laura Villarosa (Palermo, Itália, 1961) vive e trabalha em Niterói, Rio de Janeiro, desde os anos 1980. Sua pesquisa estabelece a paisagem como campo expandido, no qual a pintura e as técnicas têxteis operam em regime de equivalência. Fios, linhas, algodão, nylon, cerâmica fria, aquarela, acrílica e resina são alguns dos materiais recorrentes em uma produção que recusa a representação literal do natural para propor, em seu lugar, uma construção material da experiência sensível diante da terra.

A formação de Villarosa articula um longo percurso em pintura e cor com o aprendizado de práticas têxteis incorporadas ao trabalho autoral a partir de 2017, quando passou pelo programa Imersões Poéticas da Escola Sem Sítio, no Paço Imperial do Rio de Janeiro, sob acompanhamento do artista Efrain Almeida. Desde então, a artista trata o processo como matéria constitutiva da obra, acumulando camadas de fios, tecidos e pigmentos sobre superfícies que adquirem espessura e volume. As composições flertam com a abstração e evocam atmosferas que oscilam entre serenidade e inquietação.

Em séries recentes, como Paisagem e Sensibilidade, Villarosa amplia o repertório de materiais, trabalhando sobre sedas oriundas de San Leucio, antiga colônia fundada no sul da Itália no século XVIII, reconhecida pela produção de tecidos para palácios e por seu projeto de sociedade igualitária. A artista também passou a usar cerâmica fria para modelar nuvens e diferentes texturas para compor suas paisagens imaginárias, ao mesmo tempo utópicas e distópicas. A artista costura a cerâmica ainda úmida, antes que o tempo e o calor a endureçam, e não se vê como ceramista: toma o material como extensão da tinta. Há, nos trabalhos, um interesse pela imaterialidade do ar, pelo volume das nuvens, pela densidade das montanhas e pelo reflexo instável das águas.

Villarosa realizou as individuais Lugar de passagem, na Zipper Galeria (2024); A ambígua linha sinuosa, na Zipper Galeria (2021); Na Voluta do horizonte, na Casa Brasil (Rio de Janeiro, 2025); A (des)ordem natural das coisas, na Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea (Rio de Janeiro, 2025); Aurora, na Galeria Dotart (Belo Horizonte, 2023); Impermanências, no CEART UFF (Niterói, 2023); Impermanência, projeto solo para a Zona Maco (Cidade do México, 2023); Seiva, na C. Galeria (Rio de Janeiro, 2022, com curadoria de Catarina Duncan); Reinventando paisagens, na DotArt (Belo Horizonte, 2020); e Melancolia da paisagem, na Galeria Sem Título (Fortaleza, 2019). Participou de coletivas como Paralelas, na Casa Ondina (São Paulo, 2025); Fios, entre poéticas e tramas, na Gaby Indio da Costa Arte Contemporânea (Rio de Janeiro, 2024); No tempo da pintura, na Galeria Belizário (São Paulo, 2024); Rios e seus afluentes, na C.Galeria para a ArtRio (Rio de Janeiro, 2023); Paisagem passagem, na Fundação Mokiti Okada (São Paulo, 2021); o 12º Salão dos Artistas sem Galeria, na Zipper Galeria (São Paulo, 2021); e Coradjetiva, na BADESC (Florianópolis, 2014).

SERVIÇO:

Fio d’água – Laura Villarosa

Texto curatorial: Priscyla Gomes

Local: Zipper Galeria – R. Estados Unidos, 1494 – Jardim America, São Paulo

Abertura: 16 de maio | Período expositivo: 16 de maio a 13 de junho de 2026

Informações:  www.zippergaleria.com.br | @zippergaleria.

(Com Edgard França/Cor Comunicação)

Festival de Parintins traduz força da Amazônia em um dos maiores espetáculos culturais do Brasil

Parintins, AM, por Kleber Patricio

Entre Caprichoso e Garantido, arena de Parintins transforma ancestralidade, arte e identidade amazônica em uma celebração viva da brasilidade. Fotos: Reprodução/Festival Parintins.

No coração da floresta amazônica, cercada pelo rio Amazonas e a 369 quilômetros de Manaus, Parintins se prepara para receber uma das manifestações culturais mais potentes do país. Nos dias 26, 27 e 28 de junho de 2026, o Bumbódromo será palco da 59ª edição do Festival de Parintins, encontro que coloca frente a frente os bois Caprichoso e Garantido em três noites de música, teatro, dança, artes plásticas, saberes ancestrais e narrativas que nascem da própria Amazônia.

A grandiosidade da festa também se traduz em números. Em 2025, o festival atraiu cerca de 120 mil visitantes e movimentou aproximadamente R$ 184 milhões na economia local. Para 2026, a expectativa é de crescimento de 5%, com projeção de 126 mil turistas, impacto econômico de R$ 193,2 milhões e geração de mais de 30 mil empregos diretos e indiretos em áreas como turismo, cultura, comércio e serviços.

Mais do que uma festa popular, o Festival de Parintins afirma a força criativa de um território. Em cena, mitos, lendas, referências indígenas, africanas e europeias se encontram com as histórias de povos ribeirinhos, indígenas e caboclos, que assumem o protagonismo de suas próprias narrativas por meio das toadas, alegorias, coreografias e personagens que movimentam a arena.

Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2018, o Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins representa a memória coletiva, a identidade e a força criativa dos povos da região. Esse reconhecimento ajuda a dimensionar a relevância de uma tradição que ultrapassa a arena e se conecta à formação cultural brasileira. A cada edição, o festival reafirma sua singularidade ao unir criação artística, pertencimento e representatividade. O resultado é uma celebração que projeta a cultura amazônica para o Brasil, sem perder a profundidade de suas raízes locais.

Para Fred Góes, presidente do Boi Garantido, Parintins representa a cultura brasileira em sua essência. “Quando observamos os folguedos do Brasil, percebemos que todos carregam essa característica fundamental, que é a mistura de culturas. Na Amazônia, essa diversidade se torna ainda mais evidente. Somos uma região que historicamente viveu certo isolamento, o que fortaleceu uma identidade própria, construída a partir de múltiplas influências. O Festival de Parintins cumpre um papel fundamental ao tirar a Amazônia da invisibilidade cultural e projetar nossa identidade para todo o Brasil”, afirma.

Segundo ele, o boi-bumbá incorpora influências de diferentes regiões e povos, mas ressignifica tudo a partir da realidade amazônica. “O resultado é um espetáculo que dialoga com o Brasil inteiro, sem perder suas raízes. Passamos meses debatendo, construindo narrativas e buscando formas de traduzir, na arena, temas que falem da nossa história, da cultura amazônica e também de questões universais”, completa.

Do lado do Caprichoso, Ericky Nakanome, presidente do Conselho de Artes, vê o festival como um reflexo potente da brasilidade construída a partir do Norte. Para ele, não se trata de sintetizar todo o Brasil, mas de revelar, pela arte, uma identidade amazônica viva, plural e em constante transformação. “Ao observar o festival, percebo que muitos dos elementos que formam o Brasil estão presentes, especialmente as matrizes indígenas, africanas e europeias, expressas nos itens, nas temáticas e nas toadas. Ainda assim, o festival traduz, acima de tudo, a identidade do povo do Norte”, analisa.

Essa fusão de referências aparece na estética do boi-bumbá, nas narrativas apresentadas na arena e na própria história de Parintins. A cidade, marcada pela circulação entre Belém e Manaus e por ciclos migratórios como o da borracha, tornou-se um território de encontro entre povos, símbolos e expressões artísticas. Para Fred Góes, essa herança é o que faz de Parintins um farol cultural. “O Festival é mais do que um espetáculo. É um espaço de reflexão, identidade e valorização da nossa cultura. É a prova de que, por meio da arte, conseguimos contar quem somos e como queremos seguir enquanto sociedade”, finaliza.

Na leitura de Nakanome, o Festival de Parintins funciona como um grande eco cultural. “Ele não sintetiza todo o Brasil, mas reverbera uma brasilidade construída a partir da Amazônia, viva, diversa e em constante transformação”, conclui.

(Com Alisson Schafascheck/Vicente Negrão Assessoria)

Contos de Machado de Assis à luz da Psiquiatria e do Direito contemporâneo

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Capa.

Em 1869, Machado de Assis publicou o conto “O anjo Rafael”, no qual descreveu com precisão clínica um quadro em que o delírio de um pai é transmitido à filha criada em isolamento absoluto. Oito anos depois, Lasègue e Falret formalizariam na literatura médica aquilo que hoje se conhece como folie à deux, a psicose compartilhada. Esse pioneirismo do maior escritor brasileiro é o fio condutor de “Machado de Assis: a loucura e as leis”, obra organizada e comentada pelo psiquiatra Daniel Martins de Barros, com edição revista, ampliada e atualizada publicada pela Matrix Editora.

A proposta do livro é conduzir o leitor por um percurso interdisciplinar que une Literatura, Psiquiatria e Direito, tendo como fio condutor contos emblemáticos do pai do realismo brasileiro. “A literatura é rica em exemplos de descrições precisas – e por vezes pioneiras – de quadros clínicos”, comenta Barros. Textos como O alienistaO enfermeiro e A causa secreta revelam-se surpreendentemente atuais quando lidos à luz de questões contemporâneas sobre responsabilidade, normalidade, moralidade e poder.

O autor mostra como Machado antecipou debates centrais da psiquiatria moderna e expôs, com ironia e lucidez, os riscos do autoritarismo travestido de ciência. Os doze contos selecionados atravessam temas como crimes passionais, sadismo, burnout em cuidadores, simulação de doenças, jogo patológico e a validade jurídica de testamentos feitos por suicidas. “O interesse deste livro, mais do que reduzir a leitura da obra machadiana a uma superficial compilação de aspectos jurídicos ou médicos, é identificar em seus escritos pontos de convergência entre esses dois saberes, auxiliando-nos nessa já declarada complexa atividade, descobrindo como o talento literário do autor articulou essa interface”, comenta o autor.

Barros mostra que a loucura, na ficção machadiana, nunca é apenas patologia. É categoria social, instrumento de controle e espelho desconfortável da normalidade. Em um momento em que debates sobre saúde mental, imputabilidade penal e direitos de pessoas com transtornos mentais ocupam o centro das discussões jurídicas e políticas brasileiras, Barros oferece um instrumento raro: a ficção como ferramenta de compreensão do que a técnica ainda não consegue nomear.

O psiquiatra revela ainda a relação dos contos com as normas jurídicas, investigando as interações sociais regradas pelo Direito Civil e Público. Dentre os temas, discute a fundamentação legal das internações involuntárias e trata sobre a capacidade civil e a curatela conforme o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Traz também exemplos como a aplicação da atenuante de violenta emoção em homicídios, além de dilemas atuais da Psiquiatria Forense.

A nova edição inclui dois textos inéditos com comentários originais do organizador, e foi atualizada conforme mudanças no Código Civil, que transformaram profundamente o tratamento jurídico da capacidade civil e da interdição no Brasil, e incorpora as classificações mais recentes de transtornos mentais. Machado de Assis: a loucura e as leis é uma obra que dialoga com estudantes, profissionais do direito e da saúde, professores e leitores amantes da literatura clássica.

Ficha técnica

Título: Machado de Assis: a loucura e as leis – Reflexões sobre a natureza humana no encontro entre Literatura, Psiquiatria e Direito

Autoria: Daniel Martins de Barros

Editora: Matrix Editora

ISBN: 978-6556166599

Páginas: 248

Preço: R$ 85,00

Onde encontrar: Matrix EditoraAmazon e livrarias de todo o país.

Sobre o autor

Foto: Divulgação.

Daniel Martins de Barros é médico psiquiatra e professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Doutor em Ciências e bacharel em Filosofia pela USP, atua em divulgação médica. É autor de obras como Viagem por dentro do cérebro (indicado ao prêmio Jabuti de 2014), O caso da menina sonhadoraLado bom do lado ruimRir é precisoViver é melhor sem ter que ser o melhorTubo de ensaios (semifinalista do prêmio Jabuti Acadêmico) e Sofrimento não é doença. Pela Matrix Editora, publicou os livros-caixinha® Exercícios de Argumentação e Percepção x Realidade. Mantém o canal Daniel Martins de Barros no YouTube, sobre cérebro e comportamento, além de colunas na Band News FM, CNN e revista Galileu.

Redes sociais do autor: Instagram | Youtube | LinkedIn.

Sobre a Matrix Editora

Apostar em novos talentos, formatos e leitores. Essa é a marca da Matrix Editora, desde a sua fundação em 1999. A Matrix é hoje uma das mais respeitadas editoras do país, com mais de 1.100 títulos publicados e oito novos lançamentos todos os meses. A editora se especializou em livros de não-ficção, como biografias e livros-reportagem, além de obras de negócios, motivacionais e livros infantis. Os títulos editados pela Matrix são distribuídos para livrarias de todo o Brasil e também são comercializados no site www.matrixeditora.com.br

(Com Misael Freitas/LC Agência de Comunicação)

Galeria MITS expõe “Quando a Água Aprende a Queimar”, de Lía Matos

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Em busca da Chama (2023), Lía Matos. Fotos: MITS.

A Galeria MITS apresenta a exposição individual “Quando a Água Aprende a Queimar”, de Lía Matos. A mostra marca o momento na pesquisa da artista, que parte de paisagens abstratas para criar espaços e campos energéticos que permitem que o invisível se evidencie lentamente a partir de tensões e sobreposições.

Partindo da pintura, Lía Matos desenvolve um trabalho que se constrói por camadas, apagamentos e reaparições. As obras não se organizam a partir de uma imagem pré-definida, mas de um processo que se desdobra ao longo da execução. Ao escutar histórias de pessoas, conhecidas ou desconhecidas, a artista incorpora essas narrativas em suas pinturas, criando imagens que não pertencem exclusivamente a quem as produz. Seu processo se inicia com um gesto de liberação, como se algo precisasse ser retirado de dentro para então ganhar forma. A partir daí, a tela se transforma em interlocutora.

Cor e gesto estabelecem relações que se transformam continuamente em superfícies densas. O conjunto apresentado envolve o espectador em uma experiência que exige tempo e atenção, pois as obras não se oferecem de imediato, portanto se constroem na permanência do olhar.

Em articulação com o nome da exposição, o fogo aparece como elemento recorrente na produção recente de Lía Matos. A presença do elemento vai além de um símbolo, e atua como força que orienta o processo, que em contrapartida, a água surge como fluxo e deslocamento. A relação entre esses dois elementos organiza o conjunto da exposição, propondo uma reflexão sobre instabilidade, mudança e continuidade.

Lía Matos.

Sobre o convite para Lía expor, Roger Supino conta sobre a importância de jovens artistas que estão transformando o cenário da arte contemporânea. “Existe um compromisso muito claro da galeria em acompanhar artistas em formação, como é o caso da Lía, que apresenta sua primeira individual no Brasil depois de uma trajetória construída em Nova York. Para a MITS, interessa abrir espaço para o que está surgindo agora, com frescor e consistência.”

A exposição abriu ao público no dia 7 de maio e fica até o final de junho na Galeria MITS.

Sobre Lía Matos

Lía Matos é uma artista multimídia brasileira que vive e trabalha em Ridgewood, Nova York. Sua prática atravessa pintura, escultura, instalação e performance, com interesse em processos ligados à memória, espiritualidade e materialidade. É formada em Belas Artes pela School of Visual Arts, em Nova York, e realizou sua primeira exposição individual na cidade em 2024, na ChaShaMa. Seu trabalho já foi apresentado em exposições no Brasil e nos Estados Unidos e integra coleções privadas em diferentes países.

Sobre MITS

Fundada em 2023 por Roger Supino, catalisa artistas emergentes e conecta essas produções de repertório jovem à formação de um novo público colecionador. Com uma abordagem curatorial que dialoga com o tempo presente e um ambiente acolhedor, a MITS promove uma comunicação recheada de repertório artístico, apostando em formação de público e conexões mais horizontais. Além da representação de artistas contemporâneos emergentes, a galeria atua no mercado secundário, desenvolve projetos personalizados para colecionadores, e realiza parcerias com instituições e iniciativas sociais, reafirmando seu compromisso com um ecossistema artístico conectado. Descubra mais em @mits.galeria.

SERVIÇO:

Exposição Quando a Água Aprende a Queimar, de Lia Matos

Até final de junho

Visitação: segunda a sábado, das 10h às 20h

Local: Galeria MITS – Rua Padre João Manuel,740

Entrada gratuita.

(Com Giovanna Morrone/SAL PR)

Coletivo Desvio Padrão apresenta espetáculos acessíveis e ciclo formativo em São Paulo

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Só se fechar os olhos, Coletivo Desvio Padrão. Fotos: Thamires Mulatinho.

Coletivo Desvio Padrão realiza, entre os dias 9 e 11 de junho, uma programação que integra arte e acessibilidade em diferentes espaços do centro de São Paulo. Com apresentações dos espetáculos Só se fechar os olhosePara além do gesto, além de oficinas e seminários gratuitos, o projeto investiga a audiodescrição e a Língua Brasileira de Sinais como linguagens criativas nas artes da cena. Com atividades no Espaço Parlapatões e no Centro MariaAntonia (USP), a proposta parte de uma investigação sobre tradução intersemiótica, explorando como experiências sensoriais podem ser recriadas a partir de diferentes linguagens, como som, palavra e língua de sinais.

Da audiodescrição à criação

A pesquisa nasce da experiência do coletivo com audiodescrição de espetáculos de dança – técnica que traduz elementos visuais em palavras e permite que pessoas cegas ou com baixa visão construam imagens a partir da escuta.

Mais do que um procedimento descritivo, a audiodescrição envolve escolhas narrativas lexicais e sonoras que influenciam diretamente a forma como o espectador imagina uma cena. É justamente essa dimensão subjetiva e criativa que o projeto explora.

A partir daí, o Coletivo propõe um deslocamento: em vez de descrever uma obra existente, cria uma obra imaginária de dança que se concretiza no ato da narração.

Uma dança que só existe na imaginação

Com concepção de Maria Fernanda Carmo e Mariana Farcetta, “Só se fechar os olhos” é um espetáculo que radicaliza a relação entre som e imagem ao propor que a dança não seja vista, mas imaginada.

Em cena, duas performers, caracterizadas como rainhas e vestindo figurinos de grandes proporções, com barras que se estendem por cerca de cinco metros, permanecem paradas e em silêncio. A coreografia não é executada fisicamente. A experiência é conduzida pela narração, que se entrelaça à trilha sonora e a sons concretos. É a partir dessa camada sonora que o público constrói as imagens da dança.

O texto que descreve essa dança foi criado por Edgar Jacques, ator e dramaturgo, cego desde a infância. Sem nunca ter visto com os olhos um espetáculo de dança, ele elabora uma coreografia imaginada, invertendo a lógica tradicional da criação cênica.

Na narrativa, duas rainhas de xadrez descobrem movimentos possíveis para além da norma. Ao fechar os olhos, o espectador é convidado a “ver” essas figuras e participar ativamente da construção da cena.

Criado em 2019, o espetáculo desdobrou-se ao longo dos anos em diferentes formatos, incluindo versões sonora, audiovisual e em Libras, ampliando o próprio conceito de tradução que sustenta o projeto.

A tradução em Libras como obra

Para além do gesto” nasce como uma tradução de “Só se fechar os olhos” para a Língua Brasileira de Sinais, mas rapidamente se transforma em uma obra autônoma.

O ponto de partida é um problema conceitual: como adaptar um espetáculo baseado na escuta para um público que não ouve? A solução encontrada foi preservar a narração como eixo central, deslocando-a para a expressividade da Libras.

Em cena, as atrizes surdas narram a dança em língua de sinais, sem executá-la fisicamente. Assim como na obra original, o movimento não está dado: ele é imaginado pelo espectador, agora a partir da visualidade e da potência expressiva do corpo que sinaliza.

A versão incorpora ainda novos elementos tradutórios que expandem a experiência: o uso da luz cênica e de projeções que complementam a narrativa, a presença de legendas descritivas integradas à cena e a musicalidade visual.

Desenvolvida pelo Coletivo Desvio Padrão, a musicalidade visual é uma técnica que traduz elementos musicais – como ritmo, melodia, harmonia, timbre, intensidade e dinâmica – em expressão corporal, tornando visíveis as sensações provocadas pela composição sonora. Mantendo o universo ficcional das duas rainhas de xadrez, a obra propõe outra via de acesso à experiência e reforça a ideia de que cada linguagem não apenas traduz, mas recria. O resultado é uma obra em constante deslocamento: uma experiência sonora que se torna visual, uma dança que não é dançada, uma tradução que se transforma em criação.

Acessibilidade como linguagem

Além dos espetáculos, o projeto inclui um ciclo formativo que explicita os processos por trás das obras e amplia o debate sobre acessibilidade nas artes.

As atividades abordam temas como a construção de imagens por meio da linguagem, a tradução de musicalidades em gestos e as escolhas envolvidas na audiodescrição. Oficinas práticas e seminários reúnem artistas e pesquisadores para discutir metodologias e experiências no campo.

Os bate-papos após as apresentações também integram a proposta, permitindo ao público acessar os bastidores da criação e refletir sobre os deslocamentos provocados pelas obras.

SERVIÇO:

Isso é dança? | O processo de criação de “Só se fechar os olhos”

Bate-papo com criadores (instigação e mediação: Cintia Alves, ECA/USP)

Data: 9 de junho, terça-feira

Horário: das 19h às 22h

Local: Espaço Parlapatões

Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 158, Consolação, São Paulo/ SP

Ingressos: pague quanto quiser – disponíveis pelo Sympla.

Data: 10 de junho, quarta-feira

Local: USP Centro Maria Antonia

Endereço: Rua Maria Antônia, 294, Vila Buarque, São Paulo/ SP

Entrada livre e gratuita

Horários:

das 10h às 13h

Oficina com Coletivo Desvio Padrão: legenda gráfica – uma proposta animada de representação sonora

Onde: Sala 103

das 14h às 17h

Seminário Audiodescrição nas artes da cena – a escolha dos elementos e ferramentas na busca pela acessibilidade estética

Onde: Salão Nobre

Abertura: Coletivo Desvio Padrão

Mediação: Viviane Sarraf (PPGMUS/USP)

Convidado 1: Vinicius Romanini (PGEHA/USP)

Convidado 2: Lara Souto Santana

Do que não se vê ao que não se escuta: O processo de criação de “Para além do gesto

Bate-papo com artistas, tradutores e performers (instigação e mediação: Fábio de Sá)

Data: 10 de junho, quarta-feira

Horário: das 19h às 22h

Local: Espaço Parlapatões

Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 158, Consolação, São Paulo/SP

Ingressos: pague quanto quiser – disponíveis pelo Sympla.

Data: 11 de junho, quinta-feira

Local: USP Centro Maria Antonia

Endereço: Rua Maria Antônia, 294, Vila Buarque, São Paulo/ SP

Entrada livre e gratuita

Horários:

das 10h às 13h

Seminário Ver o som – corpo tradutor de musicalidades

Abertura: Coletivo Desvio Padrão

Mediação: Fernanda Machado (FFLCH, USP)

Convidado 1: Leandro Vitorino (PPGLin, UESB)

Convidado 2: Guilherme Peluci (ECA, USP)

Onde: Salão Nobre

das 14h às 17h

Oficina com Coletivo Desvio Padrão: musicalidade visual – a construção de uma gramática para a tradução de sons em gestos e expressão corporal

Onde: Sala 103.

Sobre o Coletivo Desvio Padrão

Desvio Padrão é um coletivo formado por artistas, técnicos e produtores que transitam nas pontas da curva normal – pessoas surdas, ouvintes, enxergantes, com deficiência visual e física – atuantes no campo da cultura, a partir da diversidade de corpos e percepções. O grupo desenvolve projetos que articulam criação artística, formação e acessibilidade, propondo novas formas de produzir e fruir experiências culturais.

Sua atuação inclui a realização de cursos, laboratórios e oficinas, ações de formação e sensibilização para equipes, produção de conteúdo artístico digital voltado à pluralidade de públicos e criação de espetáculos comprometidos com a diversidade no palco e na plateia. O coletivo também elabora e implementa planos de acessibilidade para eventos culturais, oferecendo recursos como audiodescrição, interpretação em Libras e outras ferramentas de mediação. www.coletivodesviopadrao.com.br | @desviopadraocoletivo.

(Com Patricia Marrese/Marrese Assessoria)