
Foto: Stig de Lavor.
Em 2026, o Coral Paulistano, um dos corpos artísticos do Theatro Municipal de São Paulo, celebra 90 anos de trajetória. O Coral foi criado em 1936 a partir da proposta de trazer a música brasileira para a programação do teatro. A iniciativa de Mário de Andrade foi bem recebida e implementada pelo então diretor do Departamento Municipal de Cultura para sensibilizar a elite paulistana com as ideias e os ideais do movimento modernista, que contagiava os compositores brasileiros da época e que eram, até então, desconhecidos pela sociedade.
O surgimento do grupo é considerado um marco da história da música em São Paulo, pois foi um dos muitos desdobramentos do movimento modernista da Semana de Arte Moderna de 1922. Ao longo dos anos, alguns dos maiores destaques a música brasileira estiveram à frente do coral, como Camargo Guarnieri, Fructuoso Vianna, Miguel Arqueróns, Tullio Colacioppo, Abel Rocha, Zwinglio Faustini, Antão Fernandes, Samuel Kerr, Henrique Gregori, Roberto Casemiro, Mara Campos, Tiago Pinheiro, Bruno Greco Facio, Martinho Lutero Galati e Naomi Munakata.
A maestra Maíra Ferreira, que atualmente é regente titular do Coral, afirma que o principal objetivo do grupo é divulgar a música brasileira dedicando-se com êxito a esse propósito. “Falar sobre os 90 anos do Coral Paulistano implica em destacar as qualidades que, a meu ver, o definem hoje. Trata-se de um grupo profundamente diverso em suas escolhas de repertório, estilos e formatos de concerto, sempre respeitando a tradição coral, olhando para o passado, mas afirmando-se como um conjunto essencialmente contemporâneo, tanto nas escolhas artísticas, quanto na maneira como compreendemos e interpretamos a música coral atual”, ressalta. “Para mim, é uma honra, uma alegria e também uma grande responsabilidade celebrar esses noventa anos de um grupo criado por Mário de Andrade, escritor, historiador e figura fundamental para a história da cultura, da arte e da música brasileiras. Em nenhum momento desejamos nos afastar da visão que ele teve enquanto diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, sustentada por uma bagagem intelectual admirável”, celebra a maestra.
90 anos: Memórias
Em celebração aos 90 anos, haverá o concerto Paulistano 90 Anos: Memórias, no dia 12, quinta-feira, às 20h, na Sala do Conservatório, com um programa que revisita a história do grupo por meio de obras de compositoras e compositores brasileiros que marcaram sua atuação. Sob regência de Maíra Ferreira, o repertório inclui obras de Giovanni Pierluigi da Palestrina, Heitor Villa-Lobos, Dinorá de Carvalho e Antonio Ribeiro.
Figura central da terceira geração do nacionalismo musical brasileiro, Camargo Guarnieri (1907–1993) teve papel fundamental no desenvolvimento da vida musical paulistana. Discípulo de Mário de Andrade, foi professor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, regente da Orquestra Sinfônica Municipal e dirigente do próprio Coral Paulistano, período em que promoveu estreias históricas e consolidou a excelência artística do conjunto. Sua produção, com mais de 700 obras, inclui mais de 80 composições para coro.
Escrita em 1981, a obra que ganha estreia mundial nesta celebração é uma composição para narrador, tenor solista, coro misto, trompete e instrumentos de percussão, como chocalho, reco-reco, pandeiro e tamborim. O texto baseia-se na adaptação do poeta Carlos Drummond de Andrade para o Auto da Lusitânia, do dramaturgo português Gil Vicente. Com personagens alegóricos, a peça aborda temas universais como a verdade, a cobiça, a vaidade e a honra, estabelecendo um diálogo entre a tradição dos autos vicentinos e a realidade brasileira contemporânea.
Maíra Ferreira destaca que este primeiro concerto comemorativo ganhou um significado especial. “Levaremos ao palco grande parte do programa apresentado no concerto inaugural do Coral Paulistano, em 1936, incluindo obras que nunca mais haviam sido executadas desde então. Esse reencontro entre passado e presente foi especialmente feliz, pois articula a memória do que foi feito com o gesto contemporâneo de apresentar uma obra inédita de Guarnieri, justamente o primeiro regente do grupo. O programa se constrói como uma costura simbólica entre figuras centrais da nossa história e o desejo pulsante do novo. Trata-se de preservar a memória artística do Coral Paulistano, das pessoas que foram fundamentais para sua fundação, mas também de afirmar aquilo que queremos deixar para o futuro. Que, ao olharem para 2026, possam compreender o que estava sendo criado neste momento: uma instituição que honra sua trajetória sem abrir mão da invenção”, destaca Maíra.
Serviço:
Paulistano 90 Anos: Memórias
Sala do Conservatório, Praça das Artes
CORAL PAULISTANO
Maíra Ferreira, regência
12 de fevereiro, quinta-feira, às 20h
Programa
GIOVANNI PIERLUIGI DA PALESTRINA
Gitene liete rime, ov’ or si siede [2’]
Sicut cervus / Sitivit anima mea [6’]
HEITOR VILLA-LOBOS
Xangô [1’30”]
DINORÁ DE CARVALHO
Ou-lê-lê-lê! [2’]
ANTONIO RIBEIRO
Encomenda
CAMARGO GUARNIERI
Auto de todo mundo e ninguém [30’] – estreia mundial
Ingressos por R$ 50 (inteira)
Duração de 60 minutos
Classificação: Livre para todos os públicos.
(Com Letícia Santos/Assessoria de imprensa do Theatro Municipal)