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Sinfônica de Indaiatuba se apresenta no Festival de Inverno de Campos do Jordão

Campos do Jordão, por Kleber Patricio

Concerto em Campos de Jordão acontece neste domingo. Foto: Felipe Gomes.

A Orquestra Sinfônica de Indaiatuba (OSI) se apresenta pela primeira vez no maior e mais tradicional evento de música clássica da América Latina: o Festival de Inverno de Campos do Jordão, que está em sua 53ª edição. Sob regência do maestro Paulo de Paula, o concerto acontece no Parque Capivari, região central da cidade, neste domingo, 16 de julho, a partir das 11h, e será aberto ao público. “Estamos felizes em colocar o nome de Indaiatuba na rota da música clássica brasileira”, destaca o maestro.

No programa do concerto, ‘Carmen’, de Georges Bizet (1875); ‘Dança Húngara nº 5’, de Johannes Brahms (1869); o ‘Concerto para Violoncelo’ de Saint-Saëns com a participação do violoncelista sérvio Viktor Uzur, e ‘O Danúbio Azul’, de Johann Strauss II (1866). “Recebemos o convite do diretor do Festival, o violonista Fábio Zanon, que fez uma participação como solista em nossa temporada do ano passado”, conta o maestro. Para ele, participar do Festival de Inverno de Campos do Jordão e fazer parte da programação que reúne algumas das maiores orquestras brasileiras é o reconhecimento da qualidade musical que a Sinfônica de Indaiatuba alcançou. “Estamos muito gratos com isso”, completa.

Para que o público da cidade, que não poderá estar presente no evento, tenha acesso ao repertório, o maestro Paulo de Paula confirmou que o mesmo programa será apresentado na abertura do Encontro Musical de Indaiatuba (EMIn) no dia 18 de julho, às 20h na sala Acrísio de Camargo, no Ciaei.

Solista convidado | Viktor Uzur nasceu em Jagodina, na Sérvia, onde se formou na Escola para Crianças Musicalmente Superdotadas ‘Horeum Margi’ em Ćuprija. É bacharel e mestre em Performance de Violoncelo com diploma de solista do Conservatório Tchaikovsky, em Moscou. Já se apresentou como solista, músico de câmara e artista convidado na Áustria, Espanha, Itália, França, Rússia, Canadá, Coréia, China, Letônia, Brasil, Estados Unidos e ex-Iugoslávia. De material próprio, inclui obras-primas russas aclamadas pela crítica, que fazem parte da programação de diversas rádios ao redor do mundo, inclusive da Rádio Cultura no Brasil.

Vídeo – Orquestra Sinfônica de Indaiatuba.

Serviço:

Orquestra Sinfônica de Indaiatuba no 53º Festival de Inverno de Campos do Jordão

Data: 16 de julho l Horário: 11h

Local: Parque Capivari – Rua Engenheiro Diogo José de Carvalho – Capivari, Campos do Jordão (SP) | mapa aqui

Ingresso: aberto ao público

Instagram | Facebook.

(Fonte: Armazém da Notícia)

A importância de um sistema emergencial de recuperação de desastre baseado nas vítimas

Brasil, por Kleber Patricio

Área alagada após fortes temporais em abril de 2023 em Bacabal, Maranhão. Foto: Gabriel Correa/Agência Brasil.

Inundações e secas são imprevisíveis no Brasil? Não. Seja por força da variabilidade, mudança climática ou de ambas, há décadas algumas regiões como o Nordeste e o Sul vivenciam esses eventos e suas consequências. Apesar disso, normalizamos a seca como se ela não fosse um desastre e, nesse contexto, tratamos o gasto público com resposta emergencial como se fosse uma solução. Faremos o mesmo com a inundação? Até quando? E quanto às atuais e futuras vítimas desses eventos que, diante da falta ou excesso de água, perdem tudo o que têm, inclusive seus meios de subsistência?

Essas perguntas devem desencadear a urgente reflexão sobre auxílio e recuperação de desastre no país, especialmente em um momento de aumento da frequência e magnitude de eventos extremos. Movimentos como a elaboração do Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil e de orçamentos públicos devem colocar as vítimas no centro do debate.

Historicamente inundações e secas levam a respostas como ajuda humanitária, formação de redes de solidariedade e deslocamento temporário da área de risco para abrigos. Por parte do Estado, há a destinação de recursos emergenciais por meio de créditos extraordinários ou provenientes do orçamento de outros ministérios, a abertura de linha de crédito para determinados grupos e a liberação de fundo de garantia e benefícios fiscais enquanto durar a situação de emergência, entre outros. Embora tenham o seu valor, esses auxílios não são suficientes para recuperar a área atingida e, ao mesmo tempo, auxiliar as vítimas na reconstrução de suas vidas. Além disso, por lacuna da legislação brasileira sobre o tema, eles dependem do poder executivo e costumam demorar.

Como resultado, a verdade é que boa parte da população brasileira afetada por seca e/ou inundação consegue ter, no máximo, acesso à ajuda humanitária, como doações de cestas básicas, colchões, roupas, o que dura por pouquíssimo tempo. Esta realidade está muito distante do que se pode considerar uma solução à garantia dos direitos humanos e fundamentais presentes em acordos internacionais assinados pelo Brasil e assegurados pela Constituição Federal. O direito à alimentação, moradia, saúde física e mental, ao trabalho, para citar apenas alguns, ficam completamente descobertos passadas duas ou três semanas da fase emergencial.

A mudança deste quadro requer a estruturação de um sistema emergencial, mas que também garanta um auxílio de médio e longo prazos para as vítimas. Existem algumas alternativas encaminhadas – como o Projeto de Lei nº 920/23, que quer destinar parte das multas por infrações e crimes ambientais ao Fundo Nacional para Calamidades Públicas, Proteção e Defesa Civil (Funcap). Criado para o custeio de ações de prevenção em áreas de risco de recuperação de áreas atingidas por desastres, o fundo nunca exerceu sua finalidade por falta de regulamentação e de fontes suficientemente robustas. Espera-se que com a aprovação dos valores venha também a esperada regulamentação da União diretamente aos fundos constituídos pelos Estados, pelo Distrito Federal e pelos Municípios.

Sobre os autores:

Fernanda Dalla Libera Damacena é advogada, consultora e pesquisadora especialista em Direito Público, com ênfase em Direito dos Desastres.

Victor Marchezini é sociólogo pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais/ MCTI.

(Fonte: Agência Bori)

Favela Mundo promove colônia de férias gratuita

Rio de Janeiro, por Kleber Patricio

Foto: Raphael Pizzino.

O recesso escolar está chegando e muitas crianças ficam sem atividades nesse período, principalmente as moradoras das comunidades. Pensando nisso, a ONG Favela Mundo desenvolve, há vários anos, a Colônia de Férias que, em 2023, será realizada na Rocinha. São esperadas 240 crianças e jovens entre 6 e 18 anos, que poderão se divertir com jogos com bola, danças e brincadeiras tradicionais como corrida do saco, bambolê, dança da cadeira e muito mais. A colônia de férias será realizada de 17 a 28 de julho, sempre às segundas, quartas e sextas, das 14h às 16h. Serão disponibilizadas 40 vagas por dia. Para participar, basta chegar na Biblioteca parque da Rocinha com 30min de antecedência.

O momento não é só de lazer, mas também de aprendizado por meio de brincadeiras com o resgate de jogos tradicionais que fogem do digital. “Queremos trazer mais oportunidades de diversão para a garotada das comunidades e auxiliar os responsáveis na busca de atividades para os pequenos, já que muitas vezes as crianças ficam em casa ociosas ou em frente à TV ou nos jogos digitais. A colônia de férias da Favela Mundo, além de oferecer atividades lúdicas durante o recesso escolar, investe na saúde física e socialização da criançada, que aproveita a ocasião para fazer novos amigos”, aponta Marcello Andritotti, fundador da ONG Favela Mundo.

A Favela Mundo é patrocinada pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Rio Brasil Terminal, Magellan IP, LAMSA e MetrôRio, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Lei do ISS.

Favela Mundo | A ONG Favela Mundo é a única entidade no país a ser reconhecida pela ONU como “Modelo de Inclusão Social nas Grandes Cidades”. O reconhecimento ocorreu no evento World Cities Day, em Nova York. Além deste, a Favela Mundo já esteve representando o Brasil em outros nove eventos no exterior, sendo três desses na Organização das Nações Unidas.

Serviço:

Local: Biblioteca Parque da Rocinha – Estrada da Gávea, 454

Conheça mais sobre a ONG em www.favelamundo.org.br ou (21) 2236-4129.

(Fonte: Agência IS)

Contos de Pedro Almodóvar retornam às livrarias brasileiras em única edição pelo selo Tusquets

São Paulo, por Kleber Patricio

Capa do livro.

Foi no decorrer da década de 1980 que Pedro Almodóvar, um dos diretores de cinema mais prestigiados e conhecidos do mundo, escreveu uma série de crônicas para a revista La Luna de Madrid. Anos depois, o grande editor Jorge Herralde propõe a publicação destes textos e o resultado é a obra “Patty Diphusa e Fogo nas entranhas”, que chega pela primeira vez às livrarias em edição única pelo selo Tusquets, da Editora Planeta. O livro é formado por duas histórias principais e marcam a estreia do cineasta na literatura.

A primeira parte da obra traz as memórias devassas da narradora-protagonista Patty Diphusa, uma estrela de filmes adultos que, ao contar suas experiências mais íntimas, reflete sobre a cena de Madri na década de 1980, regada a sexo e drogas. “Entre a quantidade de personagens femininas que escrevi, Patty é uma de minhas favoritas. Uma garota com tanta vontade de viver que nunca dorme, naïf, terna e grotesca, invejosa e narcisista, amiga de todo mundo e de todos os prazeres e disposta sempre a ver o melhor lado das coisas”, escreve Almodóvar no prólogo da obra.

Já a segunda parte é protagonizada por um grupo de cinco mulheres cujas vidas se cruzam pelo mútuo envolvimento com um chinês sentimental, dono de uma fábrica de absorventes íntimos e que, de tanto ser traído, se transforma no vilão da história. Para esta edição, os textos contaram com a tradução de Eric Nepomuceno, que já fez versões para o português de obras de importantes autores, como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Gabriel García Márquez, além trazer na capa a ilustração do projeto gráfico original.

Reflexo dos sentimentos de Almódovar em meio a balbúrdia do movimento cultural dos anos 1980, “Patty Diphusa e Fogo nas entranhas” passeia entre a ficção e a não ficção ao mesmo tempo, explorando de maneira instigante, despojada, repulsiva e empolgante as reflexões do autor sobre os círculos artísticos de Madrid. “Me alegra muito que esses textos se transformem em livro, embora, quando os escrevia, nunca estivesse seguro de que iria escrever o capítulo seguinte”, conta Almodóvar. Ganhador de mais de 150 prêmios, incluindo Oscar e Globo de Ouro, o cineasta encerra o texto com um convite. “Para terminar, só me resta pedir que leiam este livro com a mesma falta de pretensão com que ele foi escrito”, finaliza.

Trechos do livro

Sempre descubro motivos para ser otimista. É que, apesar de ser uma sex symbol, sou bastante equilibrada.

A vida é muito efêmera, às vezes você não tem outro remédio a não ser fazer tudo ao mesmo tempo, se quiser tirar algum proveito dela.

Eu me chamo Patty Diphusa e pertenço a esse tipo de mulheres que protagonizam a época em que vivem. Minha profissão? Sex symbol internacional ou estrela internacional de pornô, como quiserem chamar.

Estupefato, Ming ficou olhando para ela. Não sabia por que, mas o cinismo de Mara o deixava paralisado. Naquele momento, pensou coisas muito feias sobre ela, mas não conseguiu falar. Foi até a janela e a viu com um homem do mundo que a esperava em seu automóvel.

FICHA TÉCNICA

Título: Patty Diphusa e Fogo nas entranhas

Autor: Pedro Almodóvar

Tradução: Eric Nepomuceno

Páginas: 160 p.

Preço: R$56,90

ISBN: 978-85-422-2183-1

Editora Planeta | Selo Tusquets.

Sobre o autor

Pedro Almodóvar é um dos cineastas mais prestigiados do mundo. Nascido em 1949, na Espanha, o diretor também é roteirista, ator e produtor de cinema. Seu trabalho já lhe rendeu mais de 150 prêmios por filmes como “Tudo sobre minha mãe”, “A pele que habito” e “Dor e glória”. Marcada pelo melodrama, humor irreverente, cores ousadas, citações da cultura popular e complexas narrativas, sua obra tem criado grande impacto mundial nas últimas décadas.

Sobre o Selo Tusquets | Criado em 1969 na Espanha e presente no Brasil desde 2016, Tusquets é o selo de ficção literária da Planeta. Publica autores como Alejandro Zambra, J.P. Cuenca, Camila Sosa Villada, Xico Sá, Marina Colasanti, José Eduardo Agualusa, Shusaku Endo, Javier Cercas, Marguerite Duras, Ferréz, Bob Dylan, Leila Slimani e Édouard Louis.

(Fonte: Editora Planeta)

Coletivo Coletores comemora 15 anos com exposição inédita no Museu Nacional da República

Brasília, por Kleber Patricio

“Pujança Editada”, 2020, Fotografia a partir de intervenção urbana digital com vídeo mapping sobre o monumento do Borba Gato (obra inédita).
Crédito: Coletivo Coletores.

Quem tem direito à cidade? Quais monumentos nos representam ou deveriam nos representar? Quem determina o que será ou não lembrado? Quem tem direito à memória? – é de indagações como essas que surge o trabalho do Coletivo Coletores, dupla criada em 2008 na periferia da Zona Leste de São Paulo por Toni Baptiste e Flávio Camargo, artistas multimídia, pesquisadores e professores, e que traz, em sua obra, o rearranjo de signos, ícones e memórias de resistência que compõem tecidos urbanos e sociais.  Marcando seus 15 anos de existência, o Coletivo Coletores ocupa o Museu Nacional da República de Brasília com a primeira exposição de arte digital e multimídia da instituição, com curadoria e expografia assinada por Aline Ambrósio, arquiteta, expógrafa, curadora e produtora cultural mineira e afro-indígena. A mostra “Signos de Resistência, Bordas da Memória” entra em cartaz a partir de 13 de julho na Galeria Principal do museu e reúne uma seleção de mais de 250 obras; dentre elas, 50 inéditas e trabalhos emblemáticos da trajetória da dupla.

“O conjunto de obras trará destaque para ícones e territórios do Brasil que foram apagados ou esquecidos, a exemplo da figura de Tebas, primeiro arquiteto negro do país e, ainda, a história por trás das Igrejas dos Homens Pretos e de diferentes líderes sociais que foram perseguidos ou assassinados e se tornaram símbolos nacionais e internacionais na luta pela igualdade racial, pelos direitos humanos e pela vida”, explica a curadora.

Coletivo Coletores. “Tebas Rememórias II” (2020). Série fotográfica a partir de intervenção urbana digital com videomapping sobre Igreja de São Gonçalo.

A exposição lança um olhar à história e às contradições da construção do Brasil e busca recontar a história do país a partir de suas memórias apagadas e de suas contradições hegemônicas. A proposta dos artistas é questionar e rememorar os signos que representam historicamente as lutas e resistências não apenas no território brasileiro, mas também em outros espaços de disputa das periferias do sul global, culminando no rompimento de bordas e barreiras visíveis e invisíveis que permeiam a existência desses grupos sociais marginalizados e subjugados. Para ampliar a circulação dessas histórias e ícones, os Coletores apresentam intervenções urbanas digitais, fotografias, videomappings, animações, pichações e instalações multimídia organizadas em seis núcleos: Ícones da resistência, Bandanas-Bandeiras, Arquitetura: Territórios de Memória, PALAVRACIDADE, Costurando Bordas e Percursos Insurgentes.

Ícones da resistência

Figuras icônicas da resistência brasileira, pessoas negras, originárias e periféricas são homenageadas nesse núcleo da exposição. São personalidades que se tornaram símbolos nacionais e internacionais na luta pela igualdade racial, pelos direitos humanos e pela vida, como Marielle Franco, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Carolina Maria de Jesus, Marighella, Tereza de Benguela, Galdino da etnia Pataxó, Luiz Gama, Tebas, Chico Mendes e Martin Luther King, entre outros.

Entre os trabalhos, está “Tebas Rememórias II” (2020), obra que parte de uma narrativa antirracista e contracolonial que revisita a trajetória de Joaquim Pinto de Oliveira, popularmente conhecido como Tebas, o primeiro arquiteto negro do Brasil.

Série fotográfica a partir de intervenção urbana digital com videomapping sobre Igreja do Carmo.

A história de Tebas, assim como a história da cidade de São Paulo, viveu e vive uma série de edições, apagamentos, construções, lendas, leituras e mitos. Por meio de uma vídeo-projeção mapeada, os Coletores apresentam imagens das construções remanescentes, vídeos, animações 2D e 3D e textos animados que revisitam as obras de Tebas e contam seu legado.

Outra obra presente neste núcleo é “Resista!” (2014), série de fotografias criada a partir de intervenção urbana digital com videomapping. Projeto pioneiro na ocupação de periferias com arte e tecnologia, esse trabalho se inicia com a apropriação de imagens de cânones de lutas e resistências globais nas lutas por direitos humanos, como Luther King Jr.

Na vista, a paisagem da comunidade Vila Flávia, em São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, é ressignificada por meio de imagens como da caminhada de Selma – protesto que ocorreu em 1965, Montgomery, EUA, em favor da igualdade de direitos – e busca promover a reflexão sobre as lutas coletivas e os avanços sociais e culturais na conciliação de pautas, vivências e crenças.

Bandanas-Bandeiras

A bandana, elemento que é um dos principais signos de resistência reconhecido nacional e internacionalmente e utilizados por diferentes grupos sociais de diversos países, é apresentado na obra do Coletivo Coletores como bandeira e um símbolo de poder, identidade e territorialidade. “A bandana se tornou um dos principais signos de resistência globalmente reconhecíveis, deixando de ser utilizada apenas como proteção contra as intempéries em regiões desérticas ou como símbolo de demarcação e indumentária ao ser apropriada por múltiplos grupos sociais insurgentes. Esse elemento simbólico e identitário une nações e, nessa exposição, é apresentado em diferentes formatos, como bandeira, fotografia, vídeo e instalação, demonstrando sua diversidade poética, política e estética”, explica Aline Ambrósio.

Arquitetura: Territórios de Memória

Territórios e monumentos são comumente ressignificados e reapresentados nas obras do Coletivo Coletores de diferentes formas, incluindo esculturas, maquetes, fotografias, projeção holográfica e vídeo instalação, entre outras. Esse núcleo demonstra a apropriação da cidade, a pesquisa histórica e a relação dos artistas com a arquitetura e o território.

Em “Refundação” (2020 – 2023), vídeo instalação inédita feita a partir da intervenção que o Coletivo Coletores realizou no Monumento às Bandeiras em São Paulo, os artistas convidam o público a refletir sobre quem tem direito à memória ou ao esquecimento e como as edições da história podem gerar ícones controversos, como os bandeirantes.

Coletivo Coletores. “Resista!” (2014), fotografia a partir de intervenção urbana digital com videomapping na comunidade Vila Flávia, São Mateus, São Paulo.

Na ação inicial, realizada na pandemia de Covid-19, em 2020, o Coletivo Coletores realizou a intervenção em escala monumental, mapeando a escultura dos Bandeirantes tridimensionalmente. Para exposição no Museu Nacional, os artistas fazem uso, de forma digital, do elemento fogo, a fim de acender as discussões sobre as disputas acerca da memória e sobre como devemos rever o papel dessas figuras no espaço urbano.

A discussão acerca dos monumentos que ocupam os espaços públicos e a memória coletiva aparece, também, nas obras “Maldita herança 1.0” (2023) e “Pujança Editada” (2020). “Maldita herança 1.0” é uma escultura concebida a partir do processo de escaneamento e modelagem 3D do Monumento ao Borba Gato. Nesta obra, o Coletivo Coletores discute sobre como pensar, apropriar e editar a memória, a fim de oferecer ao público uma narrativa contra hegemônica e que se aproxime da história e da verdade. Em tempos em que o mundo é permeado pelos meios digitais, o que os artistas fazem aqui é uma provocação às formas de utilização desses meios, mostrando que também podem ser caminhos estratégicos para a documentação histórica.

Em “Pujança Editada”, os artistas realizam intervenções com videomapping no Monumento Borba Gato e transformam a escultura em uma espécie de estrutura oca, pela qual será revelada seus alicerces e entranhas, tal qual um raio X histórico. Aqui, os Coletores  trazem iconografias diversas que contam as memórias e resistências de diferentes povos que foram subtraídos, violentados e esquecidos. “Nesse sentido, a concepção de pujança tradicionalmente utilizada para narrar os feitos de figuras históricas, será editada para dar lugar aos valores reais implícitos à figura do Borba Gato”, comentam os artistas.

PALAVRACIDADE

Neste núcleo, a curadoria concentra trabalhos que se dedicam à palavra e à sua relação direta com o tecido urbano e com as edificações. “A palavra é entendida nessa exposição e na produção do Coletivo Coletores como uma ferramenta de resistência e existência. Diversos signos da identidade afro-brasileira, originária e periférica passam pela palavra, seja ela falada e ritmada em letras de música ou aplicada em pixos, lambes, artes gráficas e outros formatos. Nesse sentido, a palavra em conjunto e em diferentes formatos é lida em sua totalidade como imagem em uma leitura semiótica e poética de aproximação”, explica Aline Ambrósio.

Coletivo Coletores. Série bandanas – “Bandana Sangue Paulista” Reinauguração do CAU-SP – 2022, São Paulo, SP.

Entre as obras inéditas que compõem o núcleo, está “Estamos vivxs” (2023), uma série de fotografias  a partir de intervenção urbana digital com videomapping sobre arquitetura de equipamentos culturais como o próprio Museu Nacional da República, o Theatro Municipal de São Paulo e o Paço Imperial do Rio de Janeiro.

Em “Signos de Resistência, Bordas de Memória”, a obra será exibida com uma intervenção urbana de pixo digital na fachada do Museu da República e se desdobrará em fotografia e vídeo dentro do espaço expositivo. “‘Estamos vivxs’ foi projetada como uma sequência de ações em espaços arquitetônicos emblemáticos para a história das cidades, mas que, em muitas vezes, em sua apropriação, se tornam espaços reprodutores de contradições e violências. Nesse sentido, ao pixar com videomapping a fachada desses pontos, o Coletivo Coletores chama atenção para as múltiplas existências que são negadas, apagadas ou apartadas desses locais”, conta Aline Ambrósio.

Costurando Bordas

Neste núcleo, o Coletivo Coletores traz ao público uma espécie de ateliê aberto, no qual integram todos os signos tratados na exposição, e apresenta obras em formatos cotidianos, dando destaque à moda, à música, ao comportamento e ao entretenimento como forma de bem viver dos grupos sociais historicamente marginalizados e segregados. A moda, a música e o estilo se apresentam como importantes ferramentas para o rompimento de bordas e barreiras, pois são formas de povos negros, originários e periféricos se colocarem, legitimarem-se, mas também, apresentarem-se no mundo, criando assim uma identidade e ressaltando a ancestralidade contida em cada escolha que não é apenas estética. São apresentados vestuários, joalheria, acessórios como bandanas, objetos escultóricos, fotografias, vídeo performance, um pinball para as pessoas brincarem e interagirem, entre outras obras. É a cidade viva e em movimento, unindo os diferentes povos a partir da arte.

Percursos Insurgentes

A apropriação do território através das vias e percursos que são desbravados pelo Coletores com o ledtruck, um veículo instalativo ressignificado pelos artistas, que se utiliza da linguagem publicitária e percorre diferentes centralidades brasileiras com palavras e imagens de manifesto contra apagamentos históricos, violências sociorraciais, injustiças globais e desigualdades.

Coletivo Coletores, “Refundação” (2020 – 2023). Vídeo instalação a partir de intervenção urbana digital com vídeo mapping sobre o Monumento às Bandeiras.

Repensar os usos das tecnologias e os usos dos espaços públicos são temáticas e processos que o Coletores têm se interessado desde o início de sua trajetória, seja por pensar na democratização da arte na cidade, na ressignificação dos meios publicitários ou, do mesmo modo, desenvolver uma intervenção que acontece em escala geográfica, repensando não só territórios e agentes, mas também seus fluxos migratórios. “Os ledtrucks, por exemplo, são dispositivos criados para a publicidade em grandes meios urbanos, equipados com painéis de LED imponentes sobre caminhões que percorrem as estradas e permitem uma comunicação rápida e efetiva, sem aviso prévio, assim como acontece com os pixos pela cidade”, reflete a curadora. Nesta série, o Coletores procura explorar os percursos das cidades realizando uma cartografia transmídia que se vale da palavra, do pixo e da animação para dialogar ou questionar territórios.

O núcleo integra, ainda, registros do percurso de ledtruck em ações como o percurso realizado no Rio de Janeiro em busca de uma resposta após cinco anos do assassinato de Marielle Franco e manifestos realizados na pandemia de Covid-19.

Sobre o Coletivo Coletores

Formado em 2008 na periferia da Zona Leste da Cidade de São Paulo pelos artistas e pesquisadores Toni Baptiste e Flávio Camargo, o Coletivo Coletores tem como proposta pensar as cidades como meio e suporte para suas ações, utilizando diferentes linguagens visuais e tecnológicas discutindo temáticas ligadas às: periferias globais, apagamentos históricos/culturais e o direito à cidade. Em sua pesquisa poética, o Coletivo Coletores realiza ações que buscam evidenciar a história e as estratégias de resistência das coletividades e movimentos culturais insurgentes, além de colaborar com espaços, coletivos e movimentos sociais periféricos ou historicamente marginalizados. O Coletivo Coletores já participou de diferentes projetos e exposições ligados à arte, tecnologia e cidade em instituições, como MAM SP, Itaú Cultural, Museu das favelas, Museu da Língua Portuguesa, FILE SP, FONLAD Portugal, Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, Instituto Moreira Salles, Rede Sesc, Red Bull Station, CCSP, British Council e Bienal internacional de Arte Contemporânea de Dakar, além de ser indicado ao MVF Awards 2021 e contemplado com o prêmio ProAC por histórico em artes visuais 2021 e receber o Prêmio PIPA 2022.

“Estamos vivxs”, 2021, fotografia a partir de intervenção urbana digital com vídeo mapping sobre arquitetura do Theatro Municipal de São Paulo.

No decorrer dos últimos 15 anos, o Coletivo tem desenvolvido produções artísticas que buscam romper com a lógica habitual do circuito de arte contemporânea, fazendo do espaço urbano – onde quer que estejam – seu local de criação e ateliê. Eles utilizam a cidade como suporte para dar vida às obras que nascem do diálogo e do contato direto com o território, suas memórias e seus signos. Os trabalhos iniciam com uma pesquisa histórica, documental e estética e resultam em uma produção de metalinguagens da memória que ressignificam espaços arquitetônicos e monumentos históricos, como Borba Gato, Monumento às Bandeiras, Igreja dos Homens Pretos, o Sítio da Ressaca e Sesc Paraty, entre outros.

Sobre Aline Ambrósio

Natural de Minas Gerais, Aline Ambrósio é arquiteta e curadora afro-indígena. Pós-Graduada em Arquitetura e Urbanismo (UFMG), graduada em Arquitetura e Urbanismo (PUC Minas) e em Design de Ambientes (UEMG). É especialista em Produção de Exposições e Sustentabilidade em Cidades, Edificações e Produtos, possuindo ampla experiência em projetos expográficos e curatoriais, produção cultural e em pesquisa em artes visuais e curadoria. Pesquisadora bolsista pela FAP/DF e pelo Cnpq/UnB, dedica-se à investigação e crítica em arte contemporânea, arte brasileira e arte e tecnologia, expografia e curadoria. Atualmente, é curadora independente, expógrafa e produtora cultural, sendo também membro dos grupos de pesquisa LAC (Laboratório de Arte Contemporânea) e da Rede de Pesquisa e Formação em Curadoria de Exposições. Já realizou exposições nacionais e internacionais, físicas e virtuais em museus como CCBB-SP, CCBB-RJ, CCBB-BSB, Museu Oscar Niemeyer-CWB, IAC-SP, SESC-Belenzinho, SESC-Itaquera, SESC-Taubaté e Museu Nacional da República, sendo suas exposições mais recentes: “Botannica Tirannica”, de Giselle Beiguelman” no SESC-SP; “Signos de Resistência/Bordas da Memória”, no Museu Nacional da República; “Brasilidade Pós-Modernismo” em todas as praças do CCBB, “Ideias: O Legado de Giorgio Morandi”, no CCBB-RJ e CCBB-SP;  “Da Vinci Experience”, no MON de Curitiba; “Biblioteca Floresta”, no SESC-Belenzinho; “vigas-mestras:outras narrativas concretas”, no IAC-SP; “Segue em Anexo” e “Arquivo Indisponível”, no Museu Nacional da República – Brasília. Em 2022, participou como curadora, realizando consultoria para a Pinacoteca de São Paulo no projeto de Revisão e Atualização do Plano Museológico da Pinacoteca de São Paulo, que vigorará de 2023 a 2028. Também ministra cursos de formação em Curadoria em Artes Visuais para a Secretaria de Cultura do Ceará (Secult) e para a Rede Sesc – SP.

Sobre o Museu Nacional da República | O Museu Nacional da República, localizado em Brasília, foi inaugurado no ano de 2006 e é administrado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal. O Museu tem como missão promover as artes visuais para todos os públicos, de forma dialógica, e ser um espaço de incentivo à curiosidade, sensibilização do olhar e produção de conhecimento, por meio de ações de formação do acervo, salvaguarda, pesquisa, comunicação e educação.

Serviço:

Signos de resistência, bordas da memória, exposição do Coletivo Coletores

Curadoria: Aline Ambrósio

Local: Museu Nacional da República | Setor Cultural Sul, Lote 2, próximo à Rodovia do Plano Piloto – Brasília/DF

Abertura: 13 de julho, às 19h

Período expositivo: 14 de julho a 10 de setembro de 2023

Horário de funcionamento: de terça-feira a domingo de 9h00 às 18h30. Fechado às segundas.

Entrada gratuita

Livre.

(Fonte: Patrícia Marrese Assessoria)