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Artigo: “Retrato das Crianças Leitoras”

Brasil, por Kleber Patricio

Imagem de press 👍 and ⭐ por Pixabay.

Descobrir que as crianças estão lendo mais e que 88% delas disseram que gostam de ler (muito – 46% ou um pouco – 42%) foi a melhor surpresa revelada pela 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Sem dúvida, uma ótima e instigante descoberta. Vemos tantas crianças em seus tablets e celulares acessando games e vídeos, que esperávamos uma redução no interesse pelos livros entre 5 e 10 anos. Mas essa garotada nos surpreendeu em muitas das respostas. Na internet, preferem os vídeos e os filmes (75%) – mas 44% das crianças também gostam de ler livros e 43% leem livros de literatura pelo menos uma vez por semana. Um pouco menos do que gibis (54%).

Outra boa transgressão às nossas crenças foi descobrir que, em cada dez crianças, cinco preferem os livros em papel, três dizem que tanto faz (papel ou digital) e menos de duas preferem o livro digital. Essas revelações mostram que, em razão das nossas crenças ou de representações equivocadas sobre o interesse da garotada, podemos estar afastando as crianças dos livros.

Muitos pais presenteiam seus filhos com games e celulares; em especial, quando têm poder aquisitivo que possibilite essas opções. Sem dúvida as crianças ficam fascinadas por esses aparelhos. Um game ou um vídeo distraem, principalmente, em ambientes ou em momentos em que esperamos que as crianças fiquem “quietas” e comportadas. Mas o que esses jogos despertam ou promovem como habilidades ou quais emoções despertam? Um especialista pode nos ajudar a analisar melhor que habilidades eles desenvolvem, mas arrisco dizer que quaisquer jogos, mesmo os digitais, despertam a vontade de ganhar, vencer, ser melhor…  Muita adrenalina e estímulos visuais e sonoros. Talvez expliquem, em muitos casos, ansiedades. Já uma história infantil desperta fantasias, imaginação, encantamento, empatia.

Difícil escolha? Pensem em qual semente querem plantar. Uma dica: 38% das crianças disseram que escolhem o livro pela capa. Mas, certamente, irão amar e guardar o livro que você escolheu. Ninguém esquece quem despertou seu encantamento pelos livros.

*Zoara Failla é coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura, do Instituto Pró-Livro.

Retorno de público a eventos será na mesma velocidade que o de bares e restaurantes, aponta estudo

Brasil, por Kleber Patricio

Imagem de Justin Kilian por Pixabay.

O retorno de público aos eventos de cultura e entretenimento, paralisados pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19), será semelhante e no mesmo ritmo que o apresentado por bares e restaurantes, que já retomaram as atividades em quase todo o País. Isso é o que aponta novo estudo da Abrape – Associação Brasileira dos Promotores de Eventos, financiado pela Ambev e realizado em parceria com a consultoria Provokers para avaliar qual é a expectativa da população sobre a volta aos eventos promovidos pela indústria de cultura e entretenimento.

De acordo com a pesquisa, realizada entre os dias 15 e 23 de setembro em todo país, o número de pessoas que já frequentaram bares e restaurantes no período atingiu a marca de 41%, um crescimento de seis pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, feito entre os dias 4 e 10 do mesmo mês. “O estudo revela que 46% dos entrevistados têm intenção de frequentar eventos conforme forem sendo liberados. Cruzamos os dados e verificamos que o fluxo para atividades de cultura e entretenimento será no mesmo ritmo”, explica o empresário e presidente da Abrape, Doreni Caramori Júnior.

Já quando questionados sobre os tipos de eventos que os entrevistados voltariam a frequentar, feiras e exposições ficam em primeiro lugar (61%). Os índices apresentados por outros setores foi o seguinte: eventos esportivos (46%), shows e festivais de música (40%) e festas e eventos em casas noturnas (28%). “As promotoras e produtoras estão preparadas para retomar as atividades seguindo todos os protocolos de saúde e há um público disposto a frequentá-los. É hora de voltar com segurança e evitar o desemprego que assola o nosso setor, o mais impactado pela pandemia”, reforça Doreni.

“Estamos acompanhando as expectativas e os sentimentos dos consumidores para nos planejarmos e garantirmos que, quando o retorno gradativo dos eventos começar a acontecer, tudo seja feito com a segurança e os protocolos necessários. Mais do que pensar no retorno, nesse momento o mais importante é ouvir as autoridades de saúde e os maiores interessados nisso tudo, que são os nossos consumidores”, afirma Felipe Bratfisch, head de Marketing de Experiências e Patrocínios da Ambev.

Segurança | Esta nova pesquisa apresentou uma mudança de percepção do público em relação às medidas de segurança que devem ser tomadas pelas promotoras de eventos, em comparação com os resultados anteriores. O uso de máscara, com 68%, ainda é a mais citada pelos entrevistados. No entanto, aparecem na sequência a redução de capacidade máxima, apontada por 42% (aumento de 10 pontos), e bilheteria online, por 24% (aumento de sete pontos), superando assim a distribuição de álcool gel (24%) e medição de temperatura (17%).

O levantamento apurou que 86% dos entrevistados sentem falta de eventos; no entanto, 85% ainda acham muito arriscado ir a eventos. Então, para tornar a experiência segura, 64% das pessoas afirmam preferir eventos realizados apenas a céu aberto, sendo que 71% escolheriam eventos com até 500 pessoas.

A Abrape, em parceria com a Ambev, vai continuar promovendo a pesquisa quinzenalmente pelos próximos meses. Desde julho já foram desenvolvidos seis levantamentos. O setor de cultura e entretenimento é responsável por 4,32% do PIB nacional e reúne um universo de aproximadamente 60 mil empresas. Caso permaneçam paralisadas, o desemprego no segmento, entre formais e informais, pode atingir 3 milhões de pessoas neste mês de outubro.

Da floresta à mesa: como a agrofloresta pode criar uma produção biodiversa voltada para a alta gastronomia

Avaré, por Kleber Patricio

Os engenheiros florestais Paula Costa e Valter Ziantoni, fundadores da Pretaterra. Fotos: divulgação/Pretaterra.

Sediada em Avaré (SP) está a “fazenda gastronômica” La Ferme Moderne, especializada em produtos artesanais saudáveis, de alto valor agregado e com baixíssimo processamento industrial. Trata-se de uma visão que converge com as possibilidades da agrofloresta, já que pode ir além dos produtos básicos da agricultura e oferecer insumos para a alta gastronomia. Foi com esse foco que a Pretaterra, iniciativa que se dedica à disseminação de sistemas agroflorestais regenerativos, aportou na propriedade.

Antes dedicada à produção de cerâmica, a fazenda é hoje reconhecida por sua produção de frutíferas raras e de alto valor no mercado. Com essa base já estabelecida, a La Ferme Moderne convidou os engenheiros florestais Paula Costa e Valter Ziantoni, fundadores da Pretaterra, para colocar em prática sua expertise agroflorestal ao modelo de negócios. “Idealizamos um design biodiverso e produtivo que conservasse a essência da La Ferme Moderne e agregasse todos os benefícios socioambientais e econômicos de uma agrofloresta. Combinamos a vocação empreendedora à realidade ecológica, biológica e edafoclimática (relativa ao clima e ao solo) do Oeste Paulista para chegar a um projeto de abordagem holística que contemplasse os principais ativos do ponto de vista ecológico, social e econômico”, explica Paula. Segundo o co-fundador da La Ferme Moderne, Mauricio Sales, “a Pretaterra conseguiu entender o que gostaríamos de criar e, a partir disso, fomos formando listas e mais listas de espécies que se encaixassem no nosso projeto e que tivessem o perfil da nossa empresa”. O sistema foi pensado para a elaboração de um mosaico produtivo, com a maior diversidade possível dentro de uma lógica viável e economicamente sustentável.

Foco foi direcionado a produtos finos, como cesta de orgânicos e brindes, itens como geleias, licores, infusões de frutas nativas, especiarias, antepastos e mel.

“O foco foi direcionado a produtos finos, tais como cesta de orgânicos e brindes, itens como geleias, licores, infusões de frutas nativas, especiarias, antepastos e mel. Primou-se igualmente por madeiras de alto valor, castanhas (espécies de fluxo, as que produzem ao longo de todo o tempo de vida do sistema), café, frutíferas nativas, com alto valor nutricional e potencial uso gastronômico, ou seja raras e de possível demanda iminente”, detalha Ziantoni.

Dentre os destaques na elaboração do design, estão o processo de análise e seleção de espécies mais adaptadas, com priorização de plantas da Mata Atlântica e do Cerrado. A partir daí foi realizado um estudo com rigoroso crivo técnico para definir espécies como pitanga, araçá, limão cravo e uvaia e, em seguida, segmentados em nichos funcionais. “Espécies como castanha de cotia, ariá e alfarroba, que listamos no inicio, foram retiradas da lista geral por não existir muito conhecimento sobre seu manejo e poder comprometer a viabilidade do negócio, fato que demonstra a dedicação da Pretaterra em modelar uma produção comercialmente viável”, salienta Mauricio. Esse design agroflorestal de base foi desenvolvido para ser reproduzido e expandido em outras áreas da fazenda e, como é elástico, cada implantação pode ter uma composição de espécies e/ou um carro-chefe diferente, de acordo com a prioridade e o contexto. Também foi idealizada uma variação do sistema, um segundo design, com a inclusão de espaço ideal para as culturas agrícolas voltadas para a produção de antepastos e conservas, além de especiarias, aromáticas e condimentos.

O projeto Pretaterra junto a La Ferme Moderne contém uma robusta modelagem financeira, feita com base em um prognóstico de produção. Ela integra as inserções de dados técnicos agrícolas e agroflorestais, associados à expectativa de produtividade dentro de premissas previamente discutidas, assim como dados micro e macroeconômicos. “O ponto mais marcante do projeto era a preocupação com a sua viabilidade econômica, mas também a questão da biodiversidade. Por isso, focamos em criar um sistema bastante complexo, com variedade de espécies para que tivéssemos um fluxo de caixa interessante”, conta Mauricio Sales.

Sobre a Pretaterra | Iniciativa que se dedica à disseminação de sistemas agroflorestais regenerativos, desenvolvendo designs replicáveis e elásticos, combinando dados científicos, informações empíricas e conhecimentos tradicionais com inovações tecnológicas, construindo um novo paradigma produtivo que seja sustentável, resiliente e duradouro.

Na vanguarda da Agrofloresta, a Pretaterra projetou, implementou e modelou economicamente o design agroflorestal que ganhou, em 2019, o primeiro lugar em Sustentabilidade do Prêmio Novo Agro, do Banco Santander e da Esalq, com o case Café dos Contos, em Monte Sião (MG). Em 2018, a Pretaterra ganhou o primeiro lugar em negócios inovadores no concurso de startups no Hackatown e, em 2020, está entre os finalistas do Prêmio Latinoamerica Verde de startups e projetos inovadores em sustentabilidade da América Latina.

Para mais informações, acesse www.pretaterra.com e acompanhe as redes sociais: LinkedIn, Instagram, Facebook, Twitter e Youtube.

Orquestra Brasileira de Música Jamaicana faz live de lançamento do projeto “OBMJazz na Casa de Francisca”

São Paulo, por Kleber Patricio

Crédito da foto: Fabio Ponce.

A OBMJ – Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, uma das mais importantes e influentes bandas instrumentais do Brasil, apresenta seu novo trabalho, OBMJazz ao vivo na Casa de Francisca, show gravado numa noite mágica em fevereiro de 2020 na célebre Casa de Francisca, localizada no coração do centro de São Paulo. O espetáculo, uma homenagem ao jazz e à música jamaicana, passeia pelos famosos standards de jazz americanos, vai até a Jamaica dos anos 1960 e flerta com bandas atuais de ska do cenário mundial.

No repertório do show, versões de ska, reggae e rocksteady das obras de nomes como Quincy Jones, Herbie Hancock, Paul Desmond, Don Drummond, The Skatalites, Melbourne SKA Orchestra e Western Standard Time, entre outros.

Para o lançamento oficial do show, a OBMJ realizará uma live no próximo dia 16 de outubro, sexta-feira, às 21h, com transmissão pelos canais de Facebook, Twitch e YouTube.

Antes da estreia oficial do show completo, a OBMJ lançou dois clipes: Rain or Shine (assista aqui), composição do trombonista jamaicano Don Drummond e gravada pelos lendários Skatalites na década de 1960, e Soul Bossa Nova (assista aqui), clássico absoluto de Quincy Jones, em uma roupagem rocksteady. “Podemos dizer que é um show dedicado ao Skajazz, num formato mais intimista, diferente dos grandes bailes que a OBMJ é conhecida por apresentar”, explica Sérgio Soffiatti, guitarrista e produtor musical da OBMJ.

Os detalhes chamam a atenção: a iluminação monocromática do show segue a estética em referência às capas de disco clássicas da Blue Note, dialogando diretamente com a comunicação visual do projeto, concebida por Laercio Lopo. A soma é feita elegantemente com a formação da banda no palco, que traz as tradicionais estantes de big bands. “É um formato único de show de skajazz no Brasil”, finaliza Felippe Pipeta, trompetista e um dos criadores da OBMJ.

Sobre a OBMJ

200A Orquestra Brasileira de Música Jamaicana como o nome sugere, reproduz de maneira inteligente e divertida, versões de grandes clássicos da música brasileira em ritmos jamaicanos criados nas décadas de 50 e 60. Ska, rocksteady e o early reggae são alguns dos dançantes ritmos que permeiam na Orquestra. Criada originalmente pelo músico e produtor Sergio Soffiatti e pelo trompetista Felippe Pipeta, a OBMJ tem como objetivo principal fazer o público dançar.

É difícil traduzir em palavras o entusiasmo do público ao dançar O Guarani, clássico da música erudita brasileira transformado em ska, ou Águas de Março, uma bossa nova do mestre Tom Jobim, tocada em early reggae. Mas a OBMJ não toca só versões, desde o seu primeiro disco músicas autorais fazem parte do repertório da banda, como Ska Around the Nation, a música mais conhecida da banda.

Os integrantes da Orquestra Brasileira de Música Jamaicana são Sergio Soffiatti (guitarra e vocais), Felippe Pipeta (trompete e flugelhorn), Ruben Marley (trombone e backing vocals), Igor Thomaz (sax barítono e sax alto), Fernando Bastos (sax tenor e flauta), Otavio Nestares (Trompete e flugelhorn), Fabio Luchs (bateria e backing vocals), Lincoln Bretha (baixo) e Pedro Cunha (piano e órgão). Acesse o site da banda e saiba mais: http://www.obmj.com.br/.

Médicos-veterinários foram à linha de frente para salvar animais vítimas do fogo

Pantanal, por Kleber Patricio

Médicos-veterinários em operação de resgate animal. Fotos: divulgação.

Neste ano, os incêndios na Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e, principalmente, no Pantanal, aumentaram de forma significativa, colocando em alto risco a biodiversidade. Na luta pela conservação, médicos-veterinários voluntários se dedicaram a resgatar animais, mesmo em situações caóticas. Para estes profissionais, cada vida importa. “Salvar alguns em meio a um grande desastre pode fazer toda a diferença para que populações de espécies possam se restabelecer”, frisa a médica-veterinária Luciana Guimarães Santana, integrante do Grupo de Resgate de Animais em Desastres (Grad), que participou de ações no Pantanal. “É desesperador ver o fogo avançando e os animais encurralados.”

Luciana comenta sobre ocasiões em que os animais simplesmente se entregaram quando encontrados, a exemplo de um filhote de macaco prego. “Ele mal resistiu à captura e, no carro, dormiu facilmente no meu colo, enquanto recebia a medicação”, conta a profissional, emocionada. O animal teve a pata necrosada devido à gravidade das queimaduras e ao tempo que permaneceu sem assistência até ser encontrado. A amputação foi inevitável.

Resgatados seguem em tratamento

Assim como o Grad, equipes de outras organizações atuaram em resgates no Pantanal, como a Ampara Silvestre e o Reproduction 4 Conservation (Reprocon), que, além dos resgates, monitorou e documentou 30 onças pintadas que não precisaram de intervenções.

A médica-veterinária Luciana Santana.

Dentre os casos mais dramáticos, dois chegaram ao Instituto No Extinction (NEX), em Goiás. Um deles foi o da onça batizada de Amanaci, que foi notícia internacionalmente, pela gravidade das queimaduras nas patas. “Eram feridas chocantes, provocadas por queimaduras de terceiro grau, com exposição óssea e de tendões. O animal chegou em um estado inacreditável”, disse o médico-veterinário Thiago Luczinski, responsável técnico pelo NEX.

Amanaci está em tratamento com células tronco e apresenta melhora considerável. “A reconstrução dos tecidos tem sido célere. Embora ainda sejam graves, as feridas já apresentam aspecto bem melhor”, conta Luczinski, sobre a onça que, após a recuperação, terá seu local de destino decidido por órgãos oficiais.

Cenário desafiador

Os voluntários atuam, também, nos bastidores dos resgates, com documentações e contatos para viabilizar doações e parcerias. Outra vertente do trabalho é a instalação de cochos com água e alimentos em pontos estratégicos para animais sobreviventes. Entre os entraves enfrentados, o médico-veterinário Pedro Nacib Jorge-Neto, que faz parte o Reprocon e também esteve no Pantanal, menciona dificuldade de acesso e de comunicação, além do desgaste físico dos profissionais, pelas altas temperaturas, fumaça e ar seco.

Outro ponto desafiador apontado por Jorge-Neto foi a burocracia para a locomoção de animais e para ações mais efetivas. “Para a dimensão do problema, eram irrisórios os recursos de força pública que vimos serem empenhados. O sentimento é de frustração.”

Luciana compartilha da visão de Jorge-Neto. “Ao contrário das situações de Mariana e Brumadinho, em que empresas eram responsáveis por providenciar recursos e estruturas, no Pantanal não havia este apoio”, diz a profissional, fazendo um comparativo com sua experiência quando houve o rompimento das barragens em Minas Gerais.

Perdas sem precedentes

Sobre a perda de habitat, Caio Filipe da Motta Lima, membro da Comissão Técnica de Médicos-veterinários de Animais Selvagens do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), enfatiza que, se parte da vegetação apresentará resiliência em alguns meses, outra parcela não voltará à mesma diversidade. “O impacto é a ausência de alimentos e abrigo às espécies, além de conflitos por competição pelos territórios escassos, fatores que aumentam as chances de mortalidade”, comenta Lima. Segundo o profissional, estas interferências serão observadas nos próximos anos em áreas atingidas por incêndios.

Presidente da Comissão Técnica de Saúde Ambiental do CRMV-SP, Elma Pereira dos Santos Polegato diz que “a perda é imensurável, com comprometimento genético de espécies que podem ser dizimadas”. Isso porque o fogo avança e afeta, inclusive, corredores ecológicos que ligam os biomas Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica. “Os animais ficam sem saída”, enfatiza Elma, sobre o que Lima comenta como “efeito cascata” de perda da biodiversidade. “Os danos não se limitam às áreas queimadas. Até os peixes de bacias hidrográficas a quilômetros de distância serão afetados pelos desequilíbrios na cadeia alimentar”, diz o médico-veterinário, sobre a extensão do problema.

Nesta conta de tantas subtrações, as populações ribeirinhas e indígenas estão entre as vítimas, uma vez que ficam sem recursos naturais, além de terem suas culturas afetadas.

Estruturação de ações é urgente

Elma e Lima ressaltam a necessidade de ações preventivas e de recuperação mais enfáticas. “É preciso quebrar a barreira de impasses políticos e investir, efetivamente, em medidas de preservação, com valorização da ciência e equilíbrio de valores e culturas humanas em relação à conservação”, frisa Lima.

Segundo Elma, a degradação de ecossistemas reduzem a oferta de serviços de apoio à vida, o que, em muitos casos, leva a consequências negativas sobre a saúde e o bem-estar de humanos e animais. “Até o risco de doenças infecciosas é um reflexo deste cenário”. A médica-veterinária lembra que ecossistemas, bem como as atividades de produção de alimentos, dependem de uma série de organismos: produtores primários, herbívoros, carnívoros, decompositores, polinizadores, patógenos, inimigos naturais das pragas.

Redução de habitat em números

Elma ressalta que o Brasil liderou a agenda ambiental global de 2004 a 2012, reduzindo em 80% o desmatamento neste período. Isso ocorreu com demarcação de territórios, melhoria na capacidade de implementação da legislação, fortalecimento dos órgãos ambientais e, sobretudo, uma mensagem de combate ao desmatamento. “Entretanto, observa-se a perda destas conquistas.”

Para se ter uma ideia, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), de janeiro até 3 de outubro, o equivalente a 26% do Pantanal foram destruídos pelo fogo.

A Amazônia teve 7,6 mil focos apenas em agosto, o maior registro para a época desde 1998, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Em áreas verdes de São Paulo remanescentes da Mata Atlântica, as ocorrências de fogo foram de 2 mil, de janeiro a setembro do ano passado, para 4,2 mil, no mesmo período deste ano, segundo o Inpe. Os números representam alta de mais de 100% na incidência de incêndios florestais.

No Cerrado, também segundo o Inpe, houve redução na incidência de queimadas em relação aos anos anteriores. Ainda assim, apenas neste ano, foram 21,4 mil ocorrências registradas pelo órgão.