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Exposição combina jardins e Inteligência Artificial para discutir preconceito e colonialismo

São Paulo, por Kleber Patricio

Obra da série Flora mutandis. Créditos: Giselle Beiguelman | Museu Judaico de São Paulo.

De 28 de maio a 18 de setembro, o Museu Judaico de São Paulo apresenta sua primeira grande exposição de 2022. Em “Botannica Tirannica”, mostra inédita concebida especialmente para o Museu, a artista e pesquisadora Giselle Beiguelman investiga a genealogia e a estética do preconceito embutidos em nomes populares e científicos dados a plantas como Judeu errante, Orelha-de-judeu, Maria-sem-vergonha, Bunda-de-mulata, Peito-de-moça, Malícia-de-mulher, Catinga-de-mulata, Ciganinha e Chá-de-bugre, entre muitos outros.

A mesma lógica se observa em nomes científicos, entre os quais são comuns palavras como virginica, virginicum e virgianiana para designar flores brancas, e Kaffir, uma palavra que é altamente ofensiva aos negros e considerada na África subsaariana um equivalente da palavra “nigger” que se convencionou chamar ‘N-word’ pelo grau de violência social que carrega.

Um dos ícones da exposição é a planta popular Judeu errante (Tradescantia zebrina), título de uma narrativa medieval que foi um dos baluartes da propaganda nazista e que tem o mesmo nome em várias línguas, como alemão, francês e inglês, sendo uma das muitas expressões depreciativas usadas contra os judeus.

Obra da série Flora mutandis.

Reunindo imagens impressas, vídeos, aquarelas e um ensaio audiovisual, a artista Giselle Beiguelman propõe uma investigação estética e conceitual a respeito do imaginário colonialista presente no processo de nomeação da natureza, cujas espécies, caso das plantas ditas “daninhas”, recebem nomes ofensivos, preconceituosos e misóginos.

Em conjunto com seu Jardim da resiliência, que ocupa as áreas externa e interna do Museu e onde são cultivadas espécies dotadas de nomes ofensivos e preconceituosos, na série “Flora mutandis”, a artista cria com a Inteligência Artificial seres híbridos, plantas reais e inventadas, em um jardim pós-natural. “O patriarcalismo está entranhado no discurso científico. Na divisão binária das plantas criada por Lineu, há as ‘masculinas’, que têm órgão reprodutor masculino androeceu (do grego andros, homem) e são superiores às ‘femininas’,  que têm gineceu (do grego gyne, mulher)”, analisa Giselle.

Para a artista, “a botânica clássica antropomorfiza o mundo vegetal e faz das plantas um espelho do homem. O modo como se nomeia o mundo é o modo como se criam as divisões, os preconceitos, e se consolida o pensamento binário”. Por isso, afirma a artista, “a nomenclatura é um ritual de apagamento”.

Obra da série Flora mutandis.

A extensa pesquisa realizada durante um ano e meio permitiu reunir nomes de centenas de plantas que Giselle Beiguelman organizou em cinco grupos: antissemitas, machistas, racistas, e discriminatórios com relação a indígenas e ciganos (uma palavra contestada por associar grupos como roma e sinti a trapaça e roubo). Muitas dessas plantas têm sido categorizadas tradicionalmente como “ervas daninhas”, sempre combatidas, nunca erradicadas, característica que acabou sendo adotada pela artista como um manifesto de resiliência e de resistência, propondo um contra discurso.

A artista destaca que as ervas daninhas, uma invenção colonialista para designar plantas “parasitas” e sem utilidade econômica, foram uma metáfora do discurso eugenista, “uma forma de racismo científico que defende a ideia de que o mundo é um jardim e que as chamadas ervas daninhas devem ser eliminadas para que a humanidade possa florescer”, diz.

A eugenia foi um movimento idealizado no final do século 19 pelo britânico Francis Galton, inspirado em seu primo Charles Darwin, que propôs o uso de práticas científicas dedicadas a melhorar características genéticas de gerações futuras a partir de seres humanos selecionados, descartando os demais.

Botannica Tirannica | Giselle Beiguelman. Foto: Denise Andrade.

O uso da Inteligência Artificial, ao mesmo tempo ferramenta e objeto de crítica, foi feito por meio de redes neurais generativas (StyleGAN): “Para tanto, estimulamos um curto circuito nos parâmetros da IA, de modo a rever os sistemas de padrões do mundo ocidental, que classifica tudo em categorias, centrais no pensamento taxonômico e nos pressupostos das metodologias de trabalho com IAs. Assim, ao mesmo tempo em que analisamos como parâmetros estéticos são criados a partir de preconceitos, usamos engenharias reversas para indicar caminhos para uma próxima natureza, sem categorias superiores dominando categorias inferiores”, afirma a artista.

Também produzidos com IA, cinco vídeos, um para cada grupo de pesquisa, compõem a série “Flora rebelis”. Um ensaio audiovisual de 15 minutos passeia pelos fundamentos e processos do trabalho de investigação e criação da artista, desde o nascimento da botânica até o uso de IA.

Também compõe a mostra o Jardim da resiliência, jardim circular montado no recinto expositivo e intervenções em áreas externas. Arrematando esta exposição de múltiplas mídias e linguagens, estão presentes três luminosos com as frases “Toda erva daninha é um ser rebelde”, “A nomenclatura é um ritual de apagamento” e “Mais clorofila, menos cloroquina”.

A mostra também conta com obras do artista convidado Ricardo Van Steen, que produziu sete aquarelas inéditas, de estética naturalista e científica, em que retrata jardins imaginários a partir de cada um dos grupos de pesquisa.

Para Felipe Arruda, diretor executivo do Museu Judaico de São Paulo, “a mostra ‘Botannica Tirannica’ está totalmente alinhada a uma das vocações do Museu de mapear, trazer à tona e desconstruir preconceitos, contribuindo para uma sociedade mais informada, consciente e que respeita a diversidade”.

A curadora da mostra, a crítica e pesquisadora Ilana Feldman, afirma que “Giselle Beiguelman é uma criadora de imagens dedicada a pensar a natureza das próprias imagens na contemporaneidade, mobilizando de maneira crítica, imprevista e inventiva a relação entre estética e política, arte e tecnologia”.

Sobre a artista

Giselle Beiguelman é artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Pesquisa arte e ativismo na cidade em rede e as estéticas da memória na contemporaneidade. É autora de “Políticas da imagem: Vigilância e resistência na dadosfera” (UBU Editora, 2021) e “Memória da amnésia: políticas do esquecimento” (Edições SESC, 2019), entre outros. Suas obras artísticas integram acervos de museus no Brasil e no exterior, como ZKM (Alemanha), Jewish Museum Berlin, MAC-USP e Pinacoteca de São Paulo. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio ABCA 2016, da Associação Brasileira dos Críticos de Arte e The Intelligent.Museum, com Bruno Moreschi e Bernardo Fontes, promovido pelo ZKM e Deutsches Museum (2021).

Sobre o museu | O Museu Judaico de São Paulo (MUJ), espaço que foi inaugurado após vinte anos de planejamento, é fruto de uma mobilização da sociedade civil. Além de quatro andares expositivos, os visitantes também têm acesso a uma biblioteca com mais de mil livros para consulta e a um café que serve comidas judaicas. O MUJ conta com patrocínio da Fundação Arymax, Antonietta e Leon Feffer, Sergio Zimerman, Banco Itaú, Banco Safra, Instituto Cultural Vale, Lilian e Luis Stuhlberger | Verde Asset Management, Hapvida, entre outros apoiadores essenciais para a realização.

Serviço:

“Botannica Tirannica”, de Giselle Beiguelman

Museu Judaico de São Paulo (MUJ)

Curadoria: Ilana Feldman

Período expositivo: de 28 de maio a 18 de setembro

Local: Rua Martinho Prado, 128 – São Paulo, SP

Funcionamento: terça a domingo, das 10 horas às 18 horas

Ingresso: R$20

Classificação indicativa: Livre

Acesso para pessoas com mobilidade reduzida.

(Fonte: a4&holofote comunicação)

Teatro Castro Mendes recebe peça “O Santo Inquérito”

Campinas, por Kleber Patricio

Foto: divulgação.

A Cia. Espelho D’Arte apresenta nesta sexta-feira, 27 de maio, às 20h, a peça “O Santo Inquérito”, no Teatro Municipal Castro Mendes. O ingresso antecipado custa R$20,00 e R$30,00, à venda na plataforma Sympla.

A peça conta a história de Branca Dias, cristã nova e ingênua, filha de Simão Dias e noiva de Augusto Coutinho, que foi vítima de perseguição após cometer um ato que, a seus olhos, julgava ser de extrema bondade: salvar de um afogamento o padre da cidade.

Serviço:

“O Santo Inquérito”

Data: sexta-feira, 27 de maio

Horário: 20h

Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/73448/d/139458/s/897066

Local: Teatro Municipal Castro Mendes – Rua Conselheiro Gomide, 62, Campinas (SP)

Realização: Cia Espelho D’Arte.

(Fonte: Prefeitura de Campinas)

Prefeitura de Indaiatuba e EPTV realizam drive thru de arrecadação de agasalhos no dia 28/5

Indaiatuba, por Kleber Patricio

Foto: Kelly Sikkema/Unsplash.

O Funssol (Fundo Social de Solidariedade) de Indaiatuba, em parceria com a EPTV, realiza o Drive Thru de Arrecadação de Agasalhos no dia 28 de maio, em frente à Prefeitura das 8h às 17h, no Paço Municipal. Serão arrecadadas roupas de frio, de crianças e masculinas, agasalhos e cobertores.

Além do Drive Thru, a Campanha de Agasalho continua acontecendo até o mês de junho recebendo as doações no Ponto Cidadão e Prefeitura de Indaiatuba. De acordo com a presidente do Funssol, Maria das Graças Araújo Mássimo, os empresários que demonstrarem interesse em realizar a arrecadação devem comunicar o interesse. “Vamos fazer o drive para arrecadar, mas temos a campanha nos dois pontos que estamos recebendo peças que estejam em bom estado para repassarmos as pessoas que estão em vulnerabilidade social. Mas, é importante ressaltar que se alguma empresa ou comércio que quiser disponibilizar um ponto de coleta deve procurar o Fundo Social ou entrar em contato por telefone”, explica.

Serviço:

Drive thru – 28 de maio

Horário: das 8h às 17h

Local: Prefeitura de Indaiatuba – Av. Eng. Fábio Roberto Barnabé, 2800 – Jardim Esplanada

Arrecadação: roupas de frio para crianças e masculinas, agasalhos e cobertores

Telefone: (19) 3834-9235

(Fonte: Prefeitura de Indaiatuba)

‘Um Dia No Parque’ 2022 é oportunidade para estimular contato de crianças com a natureza

Curitiba, por Kleber Patricio

Foto: Instituto Alana.

As crianças moradoras de centros urbanos estão cada vez mais distantes do nosso primeiro lar, a natureza. Essa é uma conclusão do Instituto Alana, apoiador da ação Um Dia No Parque (UDNP) 2022 e que há quase 10 anos desenvolve pesquisas sobre os benefícios da vivência em ambientes naturais na primeira fase da vida.

“Incentivamos que crianças desde muito pequenas tenham contato diário com estes espaços”, afirma Maria Isabel Amando de Barros, pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto. Bebel, como é conhecida, explica que é muito comum que as crianças urbanas cresçam “confinadas”. “Elas estão o tempo todo sendo monitoradas em casa, na escola, são sempre conduzidas por adultos em ambientes fechados. Já na natureza, elas se sentem livres”, aponta.

De cada 10 horas de vida de uma criança, nove elas passam em ambientes entre paredes, concreto e cimento, segundo pesquisa do Instituto Alana de 2021. O contato com a terra, o ar livre e outros elementos comuns às crianças moradoras de áreas rurais é escasso para aquelas que vivem nos centros urbanos, o que traz prejuízos físicos e cognitivos para a faixa etária de 0 a 12 anos que não convive com estes espaços.

Foto: Trilhas de Criança.

O contato com esses elementos é tão importante que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ministério da Educação tem como diretriz o “campo das experiências”, regulação que incentiva experiências fora do espaço da escola para apresentar aos pequenos as transformações da natureza e outros sons, cores e formas.

Segundo Bebel, na natureza as crianças têm outra noção de espaço e tempo, sendo este um lugar para explorar e criar suas próprias brincadeiras. “São nessas oportunidades que a gente se conhece, entende do que gosta e do que tem medo; são experiências muito ricas que influenciam o resto da vida como pessoas”, assegura.

Depois do período crítico da pandemia da Covid-19, o Um Dia No Parque volta em 2022 com atividades presenciais e com várias oportunidades de interação com a natureza brasileira. A ação convida as pessoas para visitarem Unidades de Conservação em todo o país em sua 5ª edição que, por dois anos, ocorreu com atividades híbridas.

Foto: Instituto Alana.

Organizado pela Coalizão Pró-UCs (Coalizão Pró Unidades de Conservação da Natureza), o UDNP 2022 ocorre dia 24 de julho e é uma oportunidade para crianças e pais descobrirem juntos UCs, parques, além das praças urbanas, perto de casa. “Nosso objetivo é levar cada vez mais as pessoas para as áreas protegidas e as crianças e famílias são um público especial para nós, já que este programa acaba se tornando algo constante nos planos para férias e lazer”, comenta Angela Kuczack, diretora-executiva da Rede Pró UC e coordenadora do UDNP.

Na trilha que leva ao Parque

O Brasil tem mais de 2.500 Unidades de Conservação, divididas entre as de Uso Sustentável, como as Reservas Extrativas, e as de Proteção Integral, como Parques. Todos os estados do país têm UCs, tanto federais, como estaduais e municipais, além das Reservas Particulares do Patrimônio Natural, RPPNs, que são criadas por pessoas físicas ou jurídicas e são a única categoria particular do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, o SNUC, lei que rege as áreas protegidas. O objetivo do UDNP é que as pessoas frequentem todas as categorias que permitem a visitação.

É o que faz a pedagoga Lesly Monrat. Sempre que pode, ela leva os filhos para as áreas naturais de Florianópolis (SC), onde mora, “desde que eles estavam na minha barriga”, conta. Segundo Monrat, “o Tales (10) é fascinado pela água, ele pode ficar horas brincando, observando o redemoinho dos rios. E a Agnes (6) é apaixonada pelas flores que encontra no caminho”.

Foto: Instituto Alana.

A família não só aproveita as áreas conservadas da região, como incentiva outros pais a fazerem o mesmo. Monrat criou o projeto Trilhas de Criança, em que grupos de pais e filhos se deliciam nas brincadeiras ao ar livre, de forma também livre. “Achamos que as crianças têm que ser protagonistas dessa interação. Elas criam as próprias brincadeiras e nós, pais, observamos e descobrimos coisas que jamais imaginamos sobre nossos filhos, como seu potencial de criatividade”.

Esta interação frequente e prazerosa é a proposta do Um Dia No Parque, que tem o slogan “De volta ao lar”. O evento estimula a ideia de pertencimento humano com a natureza. “Todo brasileiro vive perto de uma UC, mesmo sem saber, e é beneficiado por ela. O UDNP quer levar as pessoas para estas áreas e mostrar a mães e pais que elas podem ser espaços inclusivos, interessantes e convidativos para as crianças. Além disso, o mantra ‘conhecer para preservar’ é perfeito para o UDNP e os pequenos. Afinal, quanto mais a pessoa visita uma UC, mais ela gosta da área, compreende sua razão de existir, e passa a colaborar para seu fortalecimento”, aponta Joice Tolentino, gerente de relações institucionais do Instituto Semeia, organização que integra a Coalizão Pró-UCs e participa do evento desde 2018, primeiro ano da ação.

A cada ano de UDNP, o número de Unidades de Conservação (UCs) inscritas para receber o público só aumenta. Se em 2018, 65 UCs fizeram parte da ação, em 2021 mais de 350 áreas receberam visitantes para celebrar as UCs. A expectativa é que em 2022 ocorra o recorde de UCs inscritas.

Foto: Trilhas de Criança.

As crianças não vão sozinhas a estes locais, é preciso acompanhá-las. “Recomendamos uma rotina de um piquenique na praça ou parque perto de casa uma vez por semana, um parque na cidade de vez em quando, e uma ou duas vezes por ano optar por fazer uma viagem para um Parque Estadual ou Nacional. O benefício é da criança e da família inteira”, conclui Bebel, do Instituto Alana.

Como participar | Pela página do evento na internet, é possível descobrir qual é a Unidade de Conservação mais próxima da sua casa em todo o país, por meio de um mapa interativo e filtros. Também dá para ficar por dentro da programação de atividades nas redes sociais do Um Dia No Parque. Neste momento, Unidades de Conservação podem se inscrever para participar e propor atividade na maior mobilização pelas áreas protegidas do país pelo formulário neste link.

Sobre a Coalizão Pró-UCs | A Coalizão Pró-Unidades de Conservação é um grupo de instituições que se propõem a congregar empresas e organizações da sociedade civil comprometidas com a valorização e a defesa das Unidades de Conservação da Natureza. Integram a Coalizão: Rede Pró UC – Rede Nacional Pró Unidades de Conservação, Fundação SOS Mata Atlântica, Conservação Internacional – CI Brasil, Fundação Grupo Boticário para a Conservação da Natureza, Imaflora – Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola, FUNBIO – Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, Instituto Semeia, WWF-Brasil, The Nature Conservancy – TNC Brasil, Imazon – Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas e a UICN-Brasil – União Internacional para a Conservação da Natureza.

(Fonte: DePropósito Comunicação de Causas)

Osesp lança novo álbum da série “A Música do Brasil – Choros nº 2”, de Camargo Guarnieri

São Paulo, por Kleber Patricio

Fotos: Mariana Garcia.

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp acaba de lançar mais um álbum da série “A Música do Brasil”, que faz parte do projeto “Brasil em Concerto”, uma realização do selo Naxos Brasil com o Departamento de Difusão Cultural do Ministério das Relações Exteriores.

O álbum “Choros nº 2/Flor de Tremembé” é o segundo volume da primeira gravação integral dos Choros do compositor paulista Mozart Camargo Guarnieri e reúne as peças da série escritas para clarinete, viola, violoncelo e piano. Como bônus, o álbum inclui “Flor de Tremembé”, composta nos anos 1940 para 15 solistas e percussão. Gravado na Sala São Paulo em 2019, o trabalho apresenta a Osesp regida por Roberto Tibiriçá e com participação dos solistas Ovanir Buosi (clarinete), Horácio Schaefer (viola) e Olga Kopylova (piano), integrantes da Orquestra, e de Matias de Oliveira Pinto (violoncelo), especialmente convidado para o projeto.

A seleção de obras oferece um rico panorama da criação de Camargo Guarnieri, que nasceu em Tietê, no interior de São Paulo, em 1907, e morreu na capital paulista em 1993, marcando seu nome como um dos mais influentes músicos brasileiros do século XX. O álbum “Choros nº 2/Flor de Tremembé pode ser encontrado em edição física na Loja Clássicos, que está localizada dentro da Sala São Paulo, e em edição digital disponível nas mais diversas plataformas de streaming.

Sobre a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp | Criada em 1954, é uma das mais importantes orquestras da América Latina e desde 1999 tem a Sala São Paulo como sede. O suíço Thierry Fischer é seu diretor musical e regente titular desde 2020, tendo sido precedido, de 2012 a 2019, pela norte-americana Marin Alsop, que agora é regente de honra. Em 2016, a Osesp esteve nos principais festivais da Europa e, em 2019, realizou turnê pela China. No mesmo ano, estreou projeto em parceria com o Carnegie Hall, com a Nona Sinfonia de Beethoven cantada ineditamente em português. Em 2018, a gravação das Sinfonias de Villa-Lobos, regidas por Isaac Karabtchevsky, recebeu o Grande Prêmio da Revista Concerto e o Prêmio da Música Brasileira.

Sobre a série A Música do Brasil | A série “A Música do Brasil” faz parte do projeto “Brasil em Concerto”, desenvolvido pelo Ministério das Relações Exteriores com o intuito de promover a música de compositores brasileiros criada a partir do século XVIII. Cerca de 100 trabalhos orquestrais dos séculos XIX e XX serão gravados pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp e as Filarmônicas de Minas Gerais e de Goiás. Álbuns de música coral e de câmara serão gradualmente adicionados à coleção. Os trabalhos foram selecionados de acordo com sua importância histórica para a música brasileira e a pré-existência de gravações. A maior parte das obras registradas para a série nunca esteve disponível em fonogramas fora do Brasil; muitas outras terão sua estreia mundial em álbuns. Uma parte importante do projeto é a preparação de novas ou primeiras edições dos trabalhos que serão gravados, muitos dos quais, apesar de sua relevância, só estavam disponíveis no manuscrito do compositor. Este trabalho é feito pela Academia Brasileira de Música e por musicólogos trabalhando em parceria com as orquestras.

[Texto de Paulo de Tarso Salles presente no encarte do álbum]

Camargo Guarnieri (1907-1993)

Choros • 2

Este é o segundo volume da primeira gravação integral dos Choros de Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993), com o “Choro para Clarinete e Orquestra” (1956), o “Choro para Viola e Orquestra” (1975), o “Choro para Violoncelo e Orquestra” (1961) e o “Choro para Piano e Orquestra” (1956).

Como o compositor explicou diversas vezes, o termo “choro” não evoca diretamente o gênero de música instrumental popular, surgido no Brasil e consolidado no final do século XIX. Guarnieri pretendeu que esse termo fosse uma espécie de expressão brasileira do gênero “concerto”, provavelmente referindo-se ao diálogo entre solista e orquestra em uma ambientação musical que, muitas vezes, sugere a paisagem sonora dos sertões, dos cerrados, das festas e folguedos que caracterizam o sentimento de “brasilidade”.

Os quatro Choros têm características formais em comum: todos são divididos em três movimentos – ou em três partes, como o “Choro para Clarinete”, estruturado em um único movimento tripartido. Grosso modo, os primeiros movimentos são mais “racionais”, com grande densidade cromática e ênfase no desenvolvimento motívico, onde as melodias germinam a partir de uma pequena célula musical, burilada em diversas cores e combinações instrumentais – essa, aliás, é uma das características de Guarnieri mais apreciadas por Mário de Andrade, seu mentor desde 1928, amizade e orientações iniciadas alguns anos depois que o então jovem músico veio morar em São Paulo (em 1923), deixando para trás sua cidade natal, Tietê.

Os segundos movimentos são introspectivos e sentimentais, batizados com expressões características como “calmo e triste” ou simplesmente “calmo” ou “lento e nostálgico” ou, ainda, “nostálgico”. Como os títulos deixam entrever, a delicadeza e nostalgia que emanam dessas peças lentas evocam estados de espírito que se manifestam especialmente quando ficamos algum tempo longe de casa, de nosso lugar no mundo. Talvez por isso, a estrutura psicológica dos choros de Guarnieri reserva uma grande “festa” para o movimento final, como se representasse um reencontro imaginário entre o artista e os sentimentos mais profundos de sua nacionalidade; os finales de Guarnieri invariavelmente evocam a gestualidade da dança, do baião, do maracatu, da embolada, pontuada pela marcação calorosa da percussão e mudanças métricas que dão aos intérpretes espaço para mostrar uma alegria que transcende as imensas dificuldades técnicas presentes nessas partituras.

Quanto ao estilo de cada um desses choros, pode-se dizer que as peças em que solam o clarinete, o piano e o violoncelo guardam alguns elementos em comum, notadamente com relação a sua estrutura harmônica e formal. São obras que a célebre pianista e uma das principais intérpretes guarnierianas, Laís de Souza Brasil (em um estudo sobre as obras para piano e orquestra organizado pelo musicólogo Flavio Silva no opulento volume “Camargo Guarnieri: o Tempo e a Música”, 2001), classificou como pertencentes ao “segundo estágio” criativo de Guarnieri, um período de maturidade iniciado em 1946, em que o compositor visitou todos os gêneros musicais, dominou a orquestra, expandiu sua técnica e firmou sua personalidade. Nessas obras vemos o convívio entre harmonias quartais e triádicas, que se esparramam em uma escrita contrapontística sempre elegante e inventiva. Em contraposição, o “Choro para Viola e Orquestra” se insere no universo entrevisto no “terceiro estágio” criativo iniciado pela “Seresta para Piano e Orquestra” (1965) e no “Choro para Flauta e Orquestra de Câmara” (1972), ambos registrados no primeiro volume desta coleção; nessa época, o compositor atinge uma expressão mais sublimada, deixando o fluxo de suas ideias ir além das convenções tonais – às vezes até com alusão ao método dodecafônico.

A outra pérola desse álbum, a saborosa “Flor de Tremembé” (1937), foi uma peça dedicada à segunda esposa de Guarnieri, Anita Queiroz de Almeida e Silva, nascida em Tremembé, na região do Vale do Paraíba, interior do estado de São Paulo. Essa obra tem muitas características encontradas no choro popular tradicional; seu tema inicial em Mi menor, tocado pelo fagote com apoio de reco-reco e chocalho, evoca a um só tempo duas obras icônicas do grande Villa-Lobos: a harmonia inicial do singelo “Choros nº 1 para violão e o solo de contrafagote com marcação rítmica de caracaxá”, que abre o grandioso “Choros nº 8”. A partitura de “Flor de Tremembé” consiste em um conjunto inusitado de 15 instrumentos solistas: flauta, clarinete, fagote, sax barítono, trompa, trompete, trombone, cavaquinho, harpa, piano, violino I, violino II, viola, violoncelo e piano; a percussão inclui quatro instrumentos: chocalho, reco-reco, agogô e cuíca. Essa peça pertence ao “primeiro estágio” criativo de Guarnieri, e foi escrita um pouco antes de sua primeira viagem a Paris em 1938.

Paulo de Tarso Salles

Professor de Teoria Musical na USP, Coordenador do Simpósio Villa-Lobos (USP) e editor da Revista Música (USP). Autor de “Aberturas e Impasses: o Pós-Moderno na Música e seus Reflexos no Brasil – 1970-1980” (ed. Unesp, 2005), “Villa-Lobos: Processos Composicionais” (ed. Unicamp, 2009) e “Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos: Forma e Função” (Edusp, 2018).

A Osesp e a Sala São Paulo são equipamentos do Governo do Estado de São Paulo, por intermédio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, gerenciadas pela Fundação Osesp, Organização Social da Cultura.

(Fonte: Fundação Osesp)