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Projeto Clarice, dirigido por Cesar Ribeiro, reestreia no Teatro Paulo Eiró

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Intérpretes, todas 60+, abordam diferentes formas de construção da identidade feminina, suas relações com o outro e com o espaço familiar. Fotos: João Caldas.

A montagem de “Projeto Clarice”, com adaptação e direção de Cesar Ribeiro, reúne em cena quatro atrizes com mais de 60 anos em cinco contos de Clarice Lispector: Via Crucis, Menino a Bico de Pena, A Legião Estrangeira, Amor e O Ovo e a Galinha. As histórias se articulam em torno de questões como subjetividade, identidade, alteridade, família e afetos, temas recorrentes na obra da autora. O espetáculo ganha novas apresentações de 15 de outubro a 8 de novembro, de quinta a domingo, no Teatro Paulo Eiró.

Ao longo da temporada, a produção promove três mesas de debate na SP Escola de Teatro, com o tema “A Perspectiva do Feminino na Sociedade Brasileira Atual”. Os encontros, mediados por Maria Fernanda Vomero, abordam diferentes experiências do feminino: 22/10, com Verônica Valentino, sobre a mulher trans; 29/10, com Aysha Nascimento, sobre a mulher negra; e 05/11, com Araju Ara Poty, sobre a mulher indígena.

Os cinco textos colocados em cena investigam diferentes formas de construção da identidade feminina, suas relações com o outro e com o espaço familiar. As atrizes Clara Carvalho, Magali Biff, Mariana Muniz e Vera Zimmermann apresentam retratos particulares da vida de uma mulher a partir de situações aparentemente corriqueiras: Via Crucis é uma parábola sobre o nascimento de Cristo; Menino a Bico de Pena foca na relação entre mãe e filho a partir da alteridade; A Legião Estrangeira trata da formação da identidade tendo como base a relação entre uma mulher e uma menina; Amor destaca a identidade de uma mulher em meio ao seu núcleo familiar; e O Ovo e a Galinha, metafísica de todas essas situações.

“Essas histórias falam de questões cotidianas a partir da epifania, do monólogo interior e da relação feminino-masculino”, diz o diretor. Segundo ele, o processo partiu de uma adaptação pensada para as características de cada intérprete.

“O grande mérito de Projeto Clarice, espetáculo de Cesar Ribeiro, é soterrar qualquer expectativa a respeito dele. Expectativas em relação ao universo da escritora Clarice Lispector (1920-1977) e às constantes adaptações de sua produção literária são revertidas de forma quase chocante. Expectativas sobre as quatro protagonistas, as atrizes Clara Carvalho, Magali Biff, Mariana Muniz e Vera Zimmermann, se desconstroem por mostrá-las à vontade em uma linguagem nem tão comum aos seus currículos. Por fim, expectativas quanto ao conjunto da obra recente de Ribeiro, que, de tão profícua, já firmou um estilo, surge sob uma inesperado olhar feminino” – Dirceu Alves.

A construção das personagens parte, em boa medida, das experiências das próprias atrizes e de suas diferentes formas de relação com o corpo, elemento fundamental para a composição das diferentes personagens. “A construção das transformações ou indagações de cada personagem procura traduzir para o corpo aquilo que Clarice expressa por meio das palavras”, coloca o diretor.

Os textos revelam a capacidade da mulher de ser afetada por acontecimentos aparentemente cotidianos e de se transformar a partir deles. As situações presentes nos contos, embora possam fazer parte da rotina, permitem que as personagens sejam atravessadas por experiências capazes de ampliar sua percepção e sua possibilidade de viver a própria humanidade.

Projeto Clarice dá continuidade à pesquisa desenvolvida por Cesar Ribeiro sobre sistemas de violência e formas de representação associadas às distopias. Para o diretor, a realidade brasileira apresenta elementos de uma sociedade distópica. “A realidade em que vivemos, com todas as violências no Brasil desde seus marcos fundantes, é em si uma distopia. Desde Trilogia Kafka, estamos atentos e continuamos falando sobre essas violências, mas com aspectos mais lúdicos e poéticos”, diz Ribeiro.

A encenação mescla realismo, simbolismo e extra realismo, explorando diferentes relações entre os corpos e as convenções sociais. “Isso acontece porque há momentos em que os corpos estão dentro de uma convenção social e momentos em que os corpos estão à margem dessa convenção”, afirma.

Embora o protagonismo seja feminino, figuras masculinas também estão presentes. Atores aparecem vestidos de smoking preto e máscaras de peixe para criar uma representação de uma masculinidade sem rosto. A imagem faz referência a outro livro de Clarice Lispector, A Mulher que Matou os Peixes.

A cenografia, assinada por J. C. Serroni, cria um território simbólico sem situar em nenhum local ou tempo específico. A trilha sonora também contribui para a construção desse universo. A montagem representa uma sociedade marcada pela sensação de aceleração do tempo, associada aos avanços tecnológicos, à profusão de informações e ao ritmo urbano. A encenação apresenta a vida como um grande jogo e reúne canções tiradas de jogos eletrônicos, budots (música eletrônica das Filipinas e espécie de techno de rua), punk, Mercedes Sosa e diversos efeitos sonoros.

Sinopse | A partir da adaptação de cinco contos de Clarice Lispector, composta pelos textos Via Crucis, Menino a Bico de Pena, A Legião Estrangeira, Amor e O Ovo e a Galinha, o espetáculo aborda conceitos de família, relações afetivas e alteridade sob o olhar de Clarice. A adaptação e direção é de Cesar Ribeiro, com as atrizes Clara Carvalho, Magali Biff, Mariana Muniz e Vera Zimmermann.

Ficha Técnica

Textos: Clarice Lispector

Adaptação, trilha sonora e direção: Cesar Ribeiro

Atuação: Clara Carvalho, Magali Biff, Mariana Muniz e Vera Zimmermann

Ator-contrarregra: Pedro Conrado

Cenografia: J. C. Serroni

Figurinos: Telumi Hellen

Iluminação: Rodrigo Palmieri

Visagismo: Louise Helène

Operação de luz: Lê Carmona

Operação de som: Rafu Ferraz

Técnico de palco: Jefferson Oliveira e Joobs

Designer gráfico: Fabricio Sindice

Fotos: João Caldas Filho

Filmagem: Halei Rembrandt

Mídias sociais: Jessica Fioramonte

Assessoria de imprensa: Canal Aberto Comunicação

Assistente de produção: Alexandre Silva

Produção executiva: Jarbas Galhardo

Direção de produção: Marisa Medeiros

Coordenação de projeto: Cris Zonzini

Assist. de cenografia: Débora Ferreira

Cenotécnico: Wagner Almeida

Assist. de cenotécnico: Douglas Vendramini e Theo Piazzi

Adereços: Camila Myczkowski, Flávia Marques, Carol Moraes, Andrea Amorim, Niki Cavalcanti, Mariana Guilen e César Couto

Pintura de arte e texturização: Beatriz Leandro, Mel Cruz e Yasmin Silva

Costureira: Lia Couros

Realização: Garagem 21, Brancalyone Produções, Governo do Estado de São Paulo, Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, Governo Federal, Ministério da Cultura e Lei Aldir Blanc.

SERVIÇO:

“Projeto Clarice”

Teatro Paulo Eiró  – Avenida Adolfo Pinheiro, 765 – Santo Amaro, São Paulo, SP

De 15 de outubro a 08 de novembro de 2026

Horários: quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h.

Atenção: Dia 25/10 (domingo) não haverá espetáculo (2° turno das eleições).

Sessão extra: dia 04/11 (quarta), às 20h.

Valor do ingresso: R$ 20,00 inteira e R$ 10,00 meia

Duração: 120 minutos | Classificação: 12 anos

Mesas de Debates “A Perspectiva do Feminino na Sociedade Brasileira Atual”

Local: SP Escola Superior de Teatro – Praça Roosevelt, 210 – Centro, São Paulo, SP

Horário: 20h às 22h, entrada gratuita

22/10 (quinta-feira)

Convidada: Verônica Valentino , atriz, cantora e compositora.

29/10 (quinta-feira)

Convidada: Aysha Nascimento, atriz, dançarina, diretora de teatro e curadora.

05/11(quinta-feira)

Convidada: Araju Ara Poty, liderança indígena e cacica da Tekoa Ytu.

Mediadora: Maria Fernanda Vomero, jornalista, performer e doutora em Artes

Cênicas (Pedagogia do Teatro) pela Universidade de São Paulo (USP).

(Com Daniele Valério/Canal Aberto Comunicação)