
Pequenos incêndios em terras onde tentaram nos arrancar tudo, 2026. Óleo sobre tela. 80 X 100 cm. Fotos: Cortesia Casa Triângulo, São Paulo.
A Casa Triângulo apresenta a primeira exposição individual de Thix na galeria: “Quarto de dormir, sala de não estar”, reunindo um conjunto inédito de 40 pinturas, objetos e desdobramentos instalativos. O texto crítico é de Maykson Cardoso.
A mostra é também a primeira em que a artista lança mão da instalação, do ready-made e do escultórico como meios de expressão para além da pintura. Na “sala de não estar” da galeria – não lugar que toda galeria é, pois que nelas ninguém habita, mas está sempre de passagem – Thix rearranja carcaças de móveis: cada uma delas é um fragmento com o qual recompõe uma nova totalidade, criando “teatralmente a atmosfera onírica e perturbadora de um ‘quarto de não dormir’”.
Esse cenário é o centro nevrálgico da exposição, a partir do qual o público é conduzido à recepção das demais obras – todas elas informada pela inquietante biografia da artista: esse quarto é também aquele onde um menino “encarcerado” sonhava ser essa mulher que hoje se tornou. O vestido rosa, que tanto desejava na infância e lhe era vetado, multiplica-se não só nas pinturas, como nos cabides dependurados.
Tudo nessa exposição é, por isso, uma espécie de autorretrato; não só pelas conhecidas cenas de teor narrativo em que a artista se auto representa, mas também naqueles pequenos quadros camp em que figuram bibelôs inventados como “alegorias de si”. É um mergulho no imaginário da artista, atravessado por processos de transformação, luto e fabulação e articulando referências da pintura acadêmica, do artifício performático e de imaginários queer em composições levadas a explorar a fronteira entre o humano, o monstruoso e o alegórico, abarcando o desconforto de existir. Produzir presença no limiar do desaparecimento.
A exposição também inaugura o interesse da artista pela pintura como território expandido, não apenas enquanto técnica, mas como linguagem capaz de contaminar objetos. Trazendo referências da cultura queer, do barroco, da moda e da iconografia religiosa, Thix articula sedução e estranhamento, elaborando uma mitologia própria construída através da artificialidade assumida e da autoficção.
Em suas esculturas, vê-se algo semelhante: sua história estilhaçada e remontada. Remontada não porque restitui o estilhaçado à forma “original”, mas porque lhe confere uma nova, uma outra configuração. A cartela de unhas postiças agiganta-se e torna-se um móbile semelhante à “cadeia de DNA”; a crinolina de ferro lembra mais uma gaiola do que a peça estruturante da indumentária. Mas nada disso é capaz de deter a mulher livre que recusa fixar sua identidade à biologia e interroga, como em um belo verso de Raquel Alves: “como desligar a cópia do modelo | se o bicho copula | com a jaula?”.
Desde o processo de começar a pintar um retrato a partir da grisalha – isto é, a partir da “camada morta” e a posterior “velatura” que confere à sua pintura o contraste do chiaroscuro –, tomando como referência uma pintora de envergadura como Artemisia Gentileschi (1593–1654) ou até mesmo através do mobiliário pesado com que reconstrói seu quarto, Thix atualiza algo da estética barroca.
Marca incontestável do Barroco foi a “transitoriedade expressa no lema ‘memento mori’ – ‘lembra-te de que morrerás’ – que se encontrava sua imagem na vanitas”. No trabalho de Thix, a “transitoriedade”, porém, ganha outro sentido. Se a artista nos lembra da morte – como no quadro em que segura sua cabeça outrora barbada –, é para nos lembrar que pode haver muitas mortes necessárias em uma vida e muitas vidas possíveis após uma morte. Isto é, diferente dos artistas barrocos, que aceitavam melancolicamente a finitude inelutável, Thix aqui nos afirma que é preciso lutar, com unhas e dentes e de peito aberto, pela vida.
SOBRE A ARTISTA
Thix (Porto Alegre, 1982) vive e trabalha no Rio de Janeiro. Sua produção transita entre questões de identidade, memória, corpo e fabulação, articulando diferentes linguagens visuais em exposições individuais e coletivas no circuito contemporâneo brasileiro.
Entre suas individuais recentes destacam-se Retificação (2025), no Paço das Artes, em São Paulo, com texto crítico de Bru Novaes, e Réquiem para um nome (2024), na Galeria Silvia Cintra + Box 4, no Rio de Janeiro, com curadoria da Comadre — Gabriela Davies e Maíra Marques — e texto crítico de Thiago Honório.
Participou de exposições coletivas, como Memento Mori; Que Seja Casa, O Amor. Ainda Que Amar Desabrigue (2026), no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba; A Coisa Drag (2025/2026), apresentada no Centro Cultural da UFMG e no Museu de Arte Contemporânea de Niterói; Apocalipse, na Casa França-Brasil; além de Pequenos Formatos e O que te faz olhar pro céu?. Foi indicada ao Prêmio Pipa 2025.
SERVIÇO:
Exposição Quarto de dormir, sala de não estar – Thix
Texto crítico: Maykson Cardoso
Abertura: 23 de maio – 14h às 18h
Período da exposição: 23 de maio a 04 de julho de 2026
Horário de funcionamento: de terça a sexta das 10h às 19h e sábado das 10h às 17h
Local: Casa Triângulo
Endereço: Rua Estados Unidos 1324, Jardins – São Paulo
Telefone: (11) 3167-5621 | www.casatriangulo.com info@casatriangulo.com
Entrada gratuita.
(Com Bernadete Druzian/A4&Holofote Comunicação)

