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Capulanas Cia de Arte Negra inicia celebrações de seus 20 anos com “No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração”

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Cena de No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração. Fotos: Noelia Nájera.

Inspirado na cosmologia iorubá-nagô e nas experiências de mulheres negras, o espetáculo “No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração” transforma o ventre feminino em território de memória, ancestralidade e criação. A nova montagem da Capulanas Cia de Arte Negra realiza temporada gratuita entre os dias 03 de julho e 9 de agosto de 2026, passando pela Goma Capulanas, no Jardim São João; pelo Terreiro Ilê Axé Dará Omo Ofá Bebê, no Balneário Dom Carlos; e pelo Teatro de Arena Eugênio Kusnet, na Vila Buarque. A circulação integra o projeto A Casa, o Terreiro e o Teatro, contemplado pela 44ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo e concebido para dialogar com diferentes territórios de encontro, criação e ancestralidade.

Com direção de Olaegbé, que assina a dramaturgia ao lado das demais integrantes do grupo, a peça acompanha a trajetória de Capulanas, uma mulher negra que gesta um espetáculo dentro do próprio ventre. Orientada por Milagros, uma sensível médica afro-cubana, ela inicia uma busca pelos fragmentos de uma história coletiva de mulheres extraordinárias que ensaiaram, dia após dia, o nascimento de uma nova festa. Entre consultas médicas, memórias familiares e encontros com ancestrais, a obra costura temas como maternidade, violência obstétrica, apagamento histórico e resistência cultural.

A jornada é atravessada por personagens, entidades e figuras ancestrais que colaboram para esse nascimento coletivo, entre elas Tia Ma Monserrat, Maria Júlia Figueiredo, Maria Júlia da Conceição, Eleiê, Exu, Oshum, Oyá e Osá.

Concebida a partir da relação entre casa, terreiro e teatro, a circulação dialoga diretamente com as características de cada espaço. Na Goma Capulanas, sede da companhia, a encenação assume a atmosfera de uma casa antiga de mulheres negras. No Ilê Axê Dará Omo Ofá Bebê, a obra encontra o terreiro como território de ancestralidade, acolhimento e fortalecimento comunitário. Já no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, a arquitetura circular aproxima atrizes e espectadores, destacando a dimensão cênica e coletiva do encontro.

Um dos elementos centrais da encenação nasce do encontro entre a Capulanas Cia de Arte Negra e o artista beninense Barthélémy Hountchonou, reconhecido por seu trabalho na escultura de máscaras. Para a montagem, ele criou ventres de madeira vestidos pelas atrizes Adriana Paixão, Flávia Rosa, Débora Marçal, Sol Tereza e Beatriz Oliveira, transformando o corpo gestante em imagem cênica que conecta ancestralidade, criação e potência feminina.

Em atuação desde 2007, a Capulanas Cia de Arte Negra desenvolve uma pesquisa que coloca as experiências de mulheres negras periféricas no centro da criação artística. Em No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração, a companhia aprofunda investigações presentes em sua trajetória, aproximando espiritualidade, memória, saúde e ancestralidade afrodiaspórica. “Escolhemos bailar para o odu Osá Meji para lembrar às mulheres negras da importância do cuidado com a própria saúde, especialmente em relação às doenças ligadas ao ventre, ao útero, às pernas e às partes sanguíneas do corpo. Durante a pesquisa, percebemos a necessidade de incentivar essa comunidade a realizar exames e, ao mesmo tempo, fortalecer sua conexão com a ancestralidade”, comenta a diretora Olaegbé.

A figura de Milagros simboliza justamente a aproximação entre esses universos. “Ela é uma doutora do SUS e, ao mesmo tempo, um grande pássaro destinado a cuidar daquela barriga. Ao realizar esse parto, Capulanas entra em contato com mulheres que enfrentaram situações como a violência obstétrica ou o diagnóstico precoce da retirada do útero”, acrescenta.

A montagem também dialoga com o Gẹ̀lẹ̀dẹ̀, dança ritual do povo iorubá presente na Nigéria, no Benin e no Togo, dedicada à celebração das mães ancestrais. Nessa tradição, dançar como as ancestrais dançam é também um gesto de cura, permanência e celebração da vida.

Essa dimensão ancestral atravessa ainda o figurino, concebido por Débora Marçal, que utiliza as roupas como dispositivos dramatúrgicos. As atrizes vestem sucessivas camadas de saiotes confeccionados com capulanas — tecido estampado amplamente utilizado em países africanos — evocando as grandes mães e estabelecendo conexões simbólicas com diferentes linhagens femininas.

Na trilha sonora, executada por Mauricio Badé, Renato Ihu, Rubi Assunção e Maicou Yuri, referências do Candomblé e da Santeria dialogam com guitarras, samplers e sonoridades contemporâneas, ampliando o encontro entre tradição e presente que atravessa toda a encenação.

Sobre o Grupo Capulanas Cia de Arte Negra

A Capulanas Cia de Arte Negra é um coletivo de teatro negro feminino fundado em 2007, na zona sul de São Paulo, por Adriana Paixão, Debora Marçal, Flavia Rosa e Priscila Obaci. Sua trajetória teve início com o espetáculo Solano Trindade e suas Negras Poesias (2007–2009), obra que estabeleceu as bases de sua pesquisa artística a partir da potência da poesia negra brasileira.

O trabalho do grupo nasce da relação entre corpo, memória e território. Suas criações são construídas a partir das heranças ancestrais, das experiências vividas nas periferias urbanas e das múltiplas formas de resistência presentes no cotidiano. Em 2010, com Pé no Quintal, a companhia aprofundou a investigação sobre os territórios periféricos e suas dinâmicas culturais. Dois anos depois, ampliou essa pesquisa por meio do intercâmbio internacional Pé no Quintal de Moçambique, realizado em parceria com artistas africanos, e da criação de Sangoma – saúde às mulheres negras, espetáculo que se tornou referência ao abordar a saúde da mulher negra em diálogo com saberes ancestrais e contemporâneos.

Ao longo de sua trajetória, a Capulanas consolidou uma prática artística que compreende o teatro como produção de conhecimento. Suas obras funcionam como espaços de reflexão crítica sobre as estruturas raciais, de gênero e de classe que atravessam a sociedade brasileira.

A pesquisa desenvolvida pelo coletivo tem como eixo as espiritualidades afrodiaspóricas, os processos de cura, o prazer e os imaginários afrofuturistas, entendidos como dimensões interligadas de uma mesma investigação sobre o corpo negro feminino. Nesse percurso, o corpo é concebido como arquivo vivo, território de disputa e espaço de elaboração de futuros possíveis. Em 2014, com Sã da Cura ao Gozo, a companhia aprofundou as reflexões sobre cura e espiritualidade. Em 2016, com Ialodês – Trilogia da Mulher Negra: uma ficção afrofuturista, reafirmou a centralidade das mulheres negras como protagonistas da cena e do porvir.

Em 2012, a criação do Goma Capulanas marcou uma nova etapa da trajetória do grupo. Instalado no Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, o espaço consolidou-se como um polo de criação, formação e difusão cultural, ampliando a atuação da companhia para além da produção de espetáculos e fortalecendo sua presença no território.

Sinopse | Inspirada na cosmologia iorubá-nagô, a obra acompanha a trajetória de Capulanas, uma mulher negra que está gestando um espetáculo dentro do próprio ventre. Orientada por Milagros — uma sensível médica afro-cubana — Capulanas inicia uma travessia em busca de fragmentos de uma história coletiva de mulheres absolutamente fantásticas, que ensaiaram, dia após dia, o nascimento de uma nova festa. Entre consultas médicas, memórias familiares e encontros com ancestrais, o espetáculo costura temas como maternidade, violência obstétrica, apagamento histórico e resistência cultural.

FICHA TÉCNICA

Realização: Capulanas Cia de Arte Negra

Direção: Olaegbé

Dramaturgia: Olaegbé e Capulanas cia de Arte Negra

Elenco: Adriana Paixão, Débora Marçal, Flávia Rosa, Sol Tereza e Beatriz Oliveira

Direção de Arte: Débora Marçal

Cenografia: Studio Trânsito Ara – Débora Marçal e Olaegbé

Figurino: Studio Trânsito Ara – Débora Marçal

Criação de Máscaras: Barthélémy Hountchonou

Design de Luz: Dede Ferreira

Direção Musical: Mauricio Badé

Visagismo: Capulanas Cia de Arte Negra

Produção Administrativa: Fernanda Conceição

Produção Artística: Nicoly Soares – É tudo nosso Prod. e Olaegbé

Assistente de Produção: Larissa Góis e Kátia Patriota

Preparação Corporal: Carol Rocha Ewaci

Direção de Movimento: Verônica Santos

Preparação e Pesquisa Corporal: Deuses que dançam e Wellington Ngunga

Corpo-Voz Estudo de texto: William Simplício

Preparação de canto: Adriana Moreira

Execução e criação musical conjunta: Mauricio Badé, Renato Ihu, Rubi Assunção e Maicou Yuri

Operação de Luz: Dede Ferreira

Assistente de produção de figurino: Katia Patriota

Visagista: Claudia Andrade

Costureiras: Katia Patriota e Claudia Andrade

Cenotécnica: Kátia Patriota

Designer gráfico: Filipe Celestino

Assessoria de Imprensa: Canal Aberto Comunicação

Tradução e Interpretação em Libras: Mirian Caxilé – Assessoria em Acessibilidade.

SERVIÇO:

No Baile de Osá Meji Faço das Tripas o Meu Coração

Duração: 80 minutos | Classificação indicativa: 12 anos

Gratuito | Ingressos: Plataforma Sympla

Dias 03, 04, 05, 11 e 12 de julho — Goma Capulanas

Rua José Barros Magaldi, 1121 — Jardim São Luiz, São Paulo/SP — CEP 05815-010

Horário: Sextas e sábados, às 20h e domingos, às 19h

Dias 17, 18, 19, 25 e 26 de julho — Terreiro Ilê Axê Dará Omo Ofá Bebê

Estrada Bem-Te-Vi, 3610 — Balneário Dom Carlos, São Paulo/SP — CEP 04947-000

Horário: Sexta a domingo, às 18h

Dias 05, 06, 07, 08, 09 de agosto — Teatro de Arena Eugênio Kusnet

Rua Dr. Teodoro Baima, 94 — Vila Buarque, São Paulo/SP — CEP 01220-040

Horário: De quarta a sábado, às 20h e domingo, às 19h.

(Com Daniele Valério/Canal Aberto Assessoria de Imprensa)