
Experiências mostram como brincadeiras, convivência familiar e valorização da cultura popular contribuem para o desenvolvimento infantil e a prevenção à violência. Imagem de TungArt7 por Pixabay.
Embora reconhecido pela legislação brasileira, garantir o direito ao brincar na prática continua sendo um desafio, especialmente em comunidades socialmente vulneráveis. Desigualdade social, a falta de espaços seguros e a presença cada vez mais precoce das telas ainda limitam as oportunidades de vivenciar plenamente a infância. Em setembro de 2026, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou o Projeto de Lei nº 186/2025, que propõe ampliar ações educativas voltadas à parentalidade positiva, incluindo cursos, campanhas e atividades de orientação às famílias. “O reconhecimento do brincar como um direito é um avanço importante, mas precisamos garantir que ele faça parte da realidade das crianças. Em muitos territórios, a ausência de espaços seguros e de oportunidades de convivência ainda representa uma barreira. O desafio é transformar o que está previsto na legislação em ações concretas, principalmente para quem vive em situações de maior vulnerabilidade”, afirma Maurício Cunha, do ChildFund Brasil.
Em Minas Gerais, a experiência de Flaviana Aparecida de Paula mostra como as brincadeiras podem transformar também a relação entre adultos e crianças. Ao participar das atividades da Casinha de Cultura, iniciativa apoiada pelo ChildFund Brasil, ela encontrou uma oportunidade de revisitar a própria infância e mudar a maneira como educa a filha. “Nos primeiros anos da vida da minha filha, tentei passar para ela aquilo que eu havia recebido, mesmo de uma forma que hoje reconheço como errada. Na Casinha de Cultura, encontrei um espaço para me libertar e resgatar o que eu mesma quis ser um dia. Hoje, tenho a oportunidade de brincar com a minha filha e construir brinquedos com ela. Aprendi a tratá-la de outra forma e sou muito grata por isso”, relata Flaviana.
Criada em 1997, no Vale do Jequitinhonha (MG), a Casinha de Cultura utiliza brincadeiras tradicionais, saberes populares e participação comunitária para promover o desenvolvimento infantil. Certificada como tecnologia social pela Fundação Banco do Brasil, a metodologia do ChildFund Brasil está presente em diferentes regiões do país. Somente em 2025, mais de 40 Casinhas, entre fixas e itinerantes, alcançaram cerca de 9,5 mil crianças, adolescentes e familiares em mais de 200 comunidades brasileiras.
As atividades contam com a participação dos chamados brincantes, moradores que ajudam a organizar as experiências e preservar manifestações culturais locais. Para as crianças, esses encontros representam oportunidades de diversão e convivência que nem sempre estão disponíveis em outros espaços. “Se não tivesse a Casinha de Cultura aqui, não teríamos essas brincadeiras. A gente brinca de queimada, pula corda, joga bola e pião. A brincadeira de que eu mais gosto é queimada”, conta Lara, participante da iniciativa em Minas Gerais.
Cauan, também participante do projeto, destaca a importância do espaço para as crianças da comunidade. “A Casinha de Cultura é importante porque guarda tudo o que a gente faz aqui. Sem ela, muitas crianças poderiam ficar na rua, sem ter onde brincar”, afirma.
Além das atividades com as crianças, a iniciativa busca recuperar tradições transmitidas entre gerações, envolvendo pais e moradores na construção artesanal de brinquedos e na valorização dos costumes locais. “A gente constrói as brincadeiras junto com as crianças e procura resgatar costumes da nossa cultura que foram ficando no passado. Também convidamos pais e outras pessoas da comunidade para construir brinquedos com elas. Assim, mantemos essas tradições vivas”, explica Paulo Sidney Silva, de Minas Gerais.
A atuação do ChildFund no estado reúne diferentes organizações comunitárias. Em 2025, o Projeto Caminhando Junto (PROCAJ) desenvolveu atividades em 11 Casinhas de Cultura, distribuídas por nove municípios do Vale do Jequitinhonha, alcançando cerca de 4 mil pessoas. Já em Itaobim, a Associação da Criança e do Adolescente de Itaobim (ASCAI) chegou a 74 comunidades e beneficiou mais de 1.100 pessoas. A metodologia também está presente em municípios do Ceará, como Fortaleza, Ocara, Itapiúna, Ibaretama e Limoeiro do Norte.
Brincar também é uma forma de proteção
A importância dessas experiências vai além do lazer. Uma pesquisa realizada pelo ChildFund Brasil, divulgada em 2023, identificou que cerca de 70% dos familiares entrevistados concordavam, em alguma medida, que crianças que fazem algo errado devem ser castigadas. O levantamento também revelou que apenas 57,1% reconheciam a palmada como uma forma de violência. Os resultados chamam a atenção para a necessidade de apoiar as famílias na adoção de práticas educativas baseadas no diálogo e no respeito. “O brincar cria oportunidades para que crianças e adultos construam relações de confiança e aprendam a lidar com sentimentos e conflitos. Quando as famílias participam dessas experiências, também encontram novas formas de educar, sem recorrer à violência. Por isso, garantir esse direito é parte fundamental de uma estratégia mais ampla de proteção da infância”, explica Maurício Cunha.
O avanço das telas representa outro desafio. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, 28% das crianças e adolescentes começaram a navegar na internet antes dos seis anos, ante 10% em 2016. Nesse cenário, atividades presenciais, jogos coletivos e experiências ao ar livre ganham importância para diversificar as vivências infantis e estimular a interação social.
O ChildFund Brasil, que participou da articulação da Lei do Brincar, defende que o brincar vem junto à parentalidade positiva para prevenir violência doméstica contra crianças. A percepção vem da experiência em campo com a iniciativa Brinca e Aprende Comigo, realizada com apoio da The LEGO Foundation, que alcançou 12,5 mil crianças de zero a oito anos e mais de 6.200 mães, pais e cuidadores no Ceará e em Minas Gerais. “Assegurar o direito de brincar vai muito além de oferecer atividades recreativas. Significa garantir que as crianças tenham tempo, espaços seguros e oportunidades para viver plenamente a infância. Experiências como as desenvolvidas nas comunidades mineiras mostram que ações simples, como brincar em grupo, construir brinquedos e resgatar tradições culturais, podem transformar realidades. Nosso compromisso é contribuir para que esse direito seja acessível a todas as crianças, independentemente de onde vivem”, finaliza Maurício Cunha, do ChildFund Brasil.
Sobre o ChildFund Brasil | O ChildFund atua no desenvolvimento integral e na promoção e defesa dos direitos de crianças, adolescentes e jovens. No Brasil desde 1966, com sede em Belo Horizonte (MG), alcançou 6,9 milhões de pessoas no país em 2025, com presença em 23 estados e 200 municípios. Integra a rede internacional associada ao ChildFund International, presente em mais de 60 países, e está entre as 20 melhores organizações do ranking brasileiro da The Dot Good. Mais informações em www.childfundbrasil.org.br.
(Com Carolina Pelegrin de Almeida/Agência Profile)