Muito antes de técnicas elaboradas e receitas sofisticadas, é dentro de casa que nascem as primeiras referências gastronômicas. Para muitas pessoas, o primeiro contato com a culinária vem de suas mães, ou de figuras maternas, que, entre panelas e cadernos de receitas, transmitem além de apenas modos de preparo. São ensinamentos que atravessam gerações, carregando histórias, sabores e vínculos emocionais.
A chamada “cozinha afetiva”, termo bastante conhecido, está presente no cheiro que remete à infância, no tempero feito “de olho” ou na receita que nunca foi escrita por completo, mas que vive na memória. Nesse sentido, não há como negar: as mães ocupam um papel central como inspirações culinárias, despertando o interesse, a curiosidade e até mesmo a paixão pela gastronomia.
Outro símbolo marcante dessa herança são os cadernos de receitas. Manuscritos, muitas vezes simples e repletos de anotações pessoais, eles funcionam como verdadeiros arquivos de família. Não se trata apenas de reunir ingredientes e instruções – esses cadernos guardam histórias: adaptações feitas ao longo do tempo, pratos preparados em ocasiões especiais e até segredos compartilhados entre gerações, além de serem verdadeiros guardiões de memórias.
Resgatar essas tradições é também uma forma de valorizar toda uma cultura alimentar e fortalecer conexões. Em um mundo cada vez mais acelerado e digital, revisitar receitas antigas ou reproduzir pratos de família se torna um gesto de permanência.
Neste Dia das Mães, celebrar a gastronomia é também reconhecer essas raízes e valorizar aquelas que fazem mais que apenas nutrir. Cada preparo carrega consigo uma narrativa e, em muitos casos, essa história começa com uma mãe, que nos ensina que cozinhar pode ser, acima de tudo, um ato de cuidado e carinho.
Antes de dominarem as técnicas complexas da culinária francesa, muitos dos grandes chefs do mundo tiveram um ponto de partida comum: a cozinha de casa. A gastronomia, embora técnica e precisa, também pode ser fundamentada na memória. A partir do observar o preparo de um almoço de domingo ou até sentir o aconchego do cheiro de um bolo recém-assado que nasce, muitas vezes, o desejo de transformar o ato de cozinhar em profissão. Vítor Oliveira, chef de Cuisine do Le Cordon Bleu Brasil, unidade São Paulo, revela que suas primeiras referências vêm justamente desse ambiente familiar, marcado por afeto, simplicidade e tradição. Criado em uma família de origem italiana, Vítor relembra os encontros de fim de semana na casa da avó, figura que descreve como uma segunda mãe. “Todos reunidos no quintal, fazendo massa juntos. Uma massa simples, que depois seria servida com um molho vermelho e um frango assado. Nada sofisticado, mas, ao mesmo tempo, algo muito simbólico para mim.”
As lembranças vão além do prato e se concentram no ato de cozinhar e nas lembranças de um ambiente acolhedor. “Lembro de varais espalhados pelo quintal, cheios de talharins pendurados, secando, esperando o momento de ir para a panela. Era quase uma cena de filme”, recorda. “Mesmo quando minha avó já não tinha tanta força, ela continuava ali, sentada, paciente, enrolando as massas, como quem não abre mão do amor que coloca naquilo”, conta Vítor.
Ao revisitar essas memórias, o chef destaca a influência decisiva das mulheres de sua família em sua trajetória, tanto pessoal quanto profissional. “Cresci cercado por mulheres muito fortes e especiais, minha avó, minhas tias, minha mãe, cada uma, à sua maneira, me formando, me cuidando e me ensinando. Muito do que eu sou hoje devo a elas”, afirma.
Para o chef, o Dia das Mães carrega um significado profundo, que vai além da celebração e se conecta diretamente à sua trajetória na gastronomia. “Por tudo isso, só existe uma palavra que faz sentido: obrigado.”
Como forma de homenagear essas memórias e compartilhar um pouco dessa herança afetiva, o chef Vítor Oliveira compartilha uma receita clássica de sua infância, marcada pela simplicidade e pelo sabor: o talharim ao molho rústico de tomates.
Confira a receita abaixo:
Talharim ao Molho de Tomates:
Massa:
200 g de farinha de trigo
160 g de gema de ovo
Molho rústico de tomates:
10 unidades de tomates italianos bem maduros
½ unidade de cebola
4 dentes de alho
25 g de extrato de tomate
50 g de azeite de oliva
5 g de açúcar
Manjericão
Salsinha
Sal
Pimenta do reino
Finalização:
100 g de parmesão
Modo de preparo:
Para a massa:
Colocar a farinha de trigo sobre a bancada. Abrir uma fonte ao centro da farinha.
Com um garfo, juntar a gema de ovo com a farinha e sovar bem a massa, até obter uma massa lisa e homogênea.
Deixar descansar a massa por cerca de 30 minutos.
Utilizando um cilindro de massas, abrir a massa até chegar em uma espessura de 2 mm. (Caso não tenha, pode utilizar uma garrafa de vinho vazia, eu vi essa cena muitas vezes em casa, minha avó sempre fazia isso).
Cortar os talharins e deixar secar. (Caso queira cozinhar na hora, pode seguir a receita e pular a etapa de secagem).
Colocar uma água para ferver em uma panela.
Cozinhar a massa por cerca de 2 minutos. Escorrer e passar um pouco de azeite de oliva para não grudar as massas após cozidas.
Para o molho:
Cortar a cebola e o alho finamente. Os tomates, cortar em pedaços pequenos.
Em uma panela, adicionar o azeite de oliva e aquecer. Juntar a cebola e o alho picados e refogar bem.
Juntar o extrato de tomate, e deixar dar uma breve dourada.
Adicionar os tomates cortados, o manjericão e água se necessário, para cozinhar.
Deixar cozinhar por cerca de 1h, adicionando água sempre que necessário.
Ao final, adicionar o açúcar para mascarar um pouco a acidez.
Finalizar o molho com salsinha finamente picada e temperar com sal e pimenta do reino.
Finalizar a massa com o molho por cima e servir com um bom pedaço de parmesão ralado.
Dica do Chef: Servir com um frango assado para acompanhar.
Sobre o Le Cordon Bleu | O Le Cordon Bleu é a principal rede global de institutos de artes culinárias e gestão de hospitalidade, com uma herança de 130 anos. A rede mantém presença global com 35 escolas em mais de 20 países, formando cerca de 20 mil alunos de mais de 100 nacionalidades diferentes todos os anos. As técnicas culinárias tradicionais francesas permanecem no coração do Le Cordon Bleu, mas seus programas acadêmicos são constantemente adaptados para incluir novas tecnologias e as inovações necessárias para atender às necessidades crescentes da indústria. Presente no Brasil desde 2018, possui unidades no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde oferece programas de alta qualidade, como o Grand Diplôme, o Diploma de Cozinha Brasileira, o Diplôme de Wine & Spirits, Diplôme de Plant Based, entre outros.
(Com Julianne Gouvea/Le Cordon Bleu SP)
