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Em meio à escassez de bibliotecas, comunidades mantêm leitura viva em territórios da Amazônia

Amazônia, por Kleber Patricio

Mediação de Leitura em Menino Deus, Portel (PA). Foto: Divulgação Vaga Lume.

Abril reúne duas datas que convidam a olhar com mais atenção para o papel da leitura na formação de crianças e adolescentes: o Dia Nacional da Biblioteca, comemorado no dia 9, e o Dia do Livro Infantil, celebrado no dia 18. Em um país marcado por desigualdades de acesso ao livro e à leitura, as duas efemérides reforçam a importância de espaços onde os livros circulam, criam vínculos e ampliam horizontes.

Os dados mostram o tamanho do desafio: a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, indica que o percentual de leitores na região Norte caiu de 63% em 2019 para 48% em 2024, a maior queda entre todas as regiões do país. Também é ali que se registra a menor média anual de livros lidos: 3,38 por pessoa, abaixo da média nacional de 3,96.

O acesso às bibliotecas também é limitado, de acordo com a pesquisa. Apenas 8% dos frequentadores de bibliotecas do país estão no Norte, o menor percentual junto ao Centro-Oeste (7%), enquanto o Sudeste concentra 44%. Entre os estudantes da região, 13% dizem não encontrar os livros indicados pelos professores, sendo este o pior índice nacional.

O cenário de desigualdade no acesso à leitura na região Norte ajuda a explicar a importância de iniciativas comunitárias como a da Vaga Lume, organização que há mais de duas décadas atua nos nove estados da Amazônia Legal constituindo e fortalecendo bibliotecas comunitárias em comunidades ribeirinhas, rurais, indígenas e quilombolas, como centros de leitura, convivência e valorização da cultura local. “A região Norte é historicamente uma das mais desassistidas quando falamos de bibliotecas e equipamentos culturais. Por isso, fortalecer espaços de leitura nas comunidades é fundamental. Ao longo de 25 anos de atuação da Vaga Lume, temos visto uma transformação social acontecer: crianças que cresceram frequentando essas bibliotecas hoje estão chegando à universidade e se tornando novas lideranças em seus territórios”, diz Lia Jamra, diretora executiva da Vaga Lume.

Em contraste com o cenário nacional, os dados da pesquisa anual de avaliação das bibliotecas Vaga Lume trazem resultados animadores. Desde 2001, a organização atua na criação de bibliotecas comunitárias em diferentes territórios da Amazônia, acompanhando seu desenvolvimento ao longo do tempo e trabalhando para que esses espaços se fortaleçam e se tornem cada vez mais independentes, geridos pelas próprias comunidades. Como parte desse processo, os acervos são renovados anualmente, com curadoria especializada e envio anual de novos títulos.

Ao longo de quase 25 anos já foram distribuídos mais de 195 mil livros, além do envio de mais de 550 estantes e 1.300 esteiras que ajudam a estruturar e manter os espaços de leitura. A organização também investe na formação de quem mantém essas bibliotecas ativas no dia a dia: são mais de 6.500 mediadores de leitura formados na metodologia da Vaga Lume, e mais de 3.800 adolescentes participantes do Programa Rede, um intercâmbio cultural entre jovens da Amazônia e de São Paulo. Ao todo, mais de 111 mil crianças e adolescentes já foram impactados pelas atividades da organização, que conta 789 voluntários ativos.

Nesse contexto, surgem histórias que apontam outros caminhos possíveis, muitas vezes construídos dentro das próprias comunidades, a partir da circulação de livros e do engajamento de novos leitores. Um desses exemplos é o de Maria Madalena Silva Monteiro, de 18 anos, moradora do Ramal 3, em Cruzeiro do Sul (AC). Foi ali que a jovem encontrou uma forma simples de ampliar o acesso à leitura: levar os livros da biblioteca comunitária da Vaga Lume para outros espaços da comunidade, aproximando as histórias de quem nem sempre consegue chegar até o acervo.

A iniciativa surgiu da percepção de que nem todas as crianças conseguiam frequentar a biblioteca com frequência. Ao colocar os livros em circulação, Maria Madalena passou a estimular encontros de leitura e a aproximar mais moradores das histórias, um movimento que também reflete algo observado pela organização ao longo dos anos: jovens que cresceram em contato com a leitura assumindo um papel ativo na promoção dela em seus territórios.

Na prática, os exemplares saiam da escola onde ficam os livros e circulavam por encontros, casas e atividades locais, ganhando, aos poucos, ares de biblioteca itinerante. Em regiões onde as distâncias são grandes e o acesso a equipamentos culturais é escasso, o gesto ajuda a manter os livros em movimento e próximos de novos leitores, fazendo com que a mediação de leitura chegue a mais lugares e alcance quem nem sempre consegue ir até a biblioteca. “Cresci frequentando uma biblioteca comunitária e sei o quanto os livros fazem diferença. Mas, como nem todas as crianças conseguiam ir até a biblioteca, comecei a levar os livros para perto delas, para que as histórias chegassem a mais gente na comunidade. Levar esses livros para outros espaços da comunidade foi uma forma de compartilhar isso com outras crianças, e aos poucos, a leitura foi fazendo parte do dia a dia da comunidade”, conta.

Outra história é a de Lanna Caroline, moradora da zona rural de Castanhal, hoje voluntária da Vaga Lume. A relação dela com a biblioteca começou muito cedo, já que a mãe participava das atividades da organização. Com o passar dos anos, o contato precoce com os livros, com a mediação de leitura e com jovens de outras comunidades ganhou novos significados, ampliado por atividades culturais e iniciativas para levar a biblioteca além do espaço da escola.

Hoje estudante de Letras, a jovem diz que a experiência influenciou diretamente sua escolha profissional e a forma como pensa o futuro. “Na infância, eu achava normal ter a biblioteca ali, ver os livros chegando e fazendo parte do nosso dia a dia. Quando entrei no programa de jovens, aos 12 anos, entendi o impacto disso. A Vaga Lume me ensinou a pensar no coletivo e no que a gente pode transformar na comunidade”, diz.

As histórias de Lanna e Maria Madalena ajudam a ilustrar um movimento que muitas vezes passa despercebido fora das grandes cidades: a construção de uma cultura de leitura em territórios onde o acesso ao livro ainda é limitado. Em um país onde 46% dos brasileiros dizem não ter biblioteca pública em seu bairro ou cidade, ainda conforme a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, cada biblioteca ativa, ainda mais quando é comunitária, ganha um peso ainda maior.

Lia Jamra, diretora executiva da Vaga Lume, explica que as bibliotecas comunitárias só se mantêm vivas graças ao engajamento da comunidade e voluntários que se mobilizam para cuidar desses espaços e mantê-los ativos e relevantes. “O resultado de todo esse trabalho são crianças leitoras, que desenvolvem o hábito de ler e encontram prazer nessa atividade. E isso tem relação direta com a existência de um espaço acolhedor, agradável, onde as crianças se sentem seguras, com pessoas que incentivam e tornam a leitura uma brincadeira no dia a dia”, afirma.

Mediação de Leitura em Menino Deus, Portel (PA). Foto: Kleber José Jr./Vaga Lume (divulgação).

A executiva destaca, também, que uma boa curadoria, marcada por bibliodiversidade, é fundamental para que o interesse das crianças pelos livros se desenvolva. “Entre estantes que as crianças alcançam, recheadas de livros diversos de capas, cores e tamanhos que chamam a atenção e passam de mão em mão e encontros de leitura, o impacto pode ir muito além do hábito de ler. Para muitos jovens, é ali que começam novos projetos de vida. E é também ali que as datas celebradas em abril ganham sentido concreto: não apenas como homenagem aos livros e às bibliotecas, mas como lembrança de que o acesso à leitura ainda precisa ser construído todos os dias”, finaliza.

Sobre a Vaga Lume

Criada em 2001, a Vaga Lume está presente em 23 municípios da Amazônia Legal com 102 bibliotecas comunitárias em funcionamento. Desde sua fundação, já doou 195 mil livros e formou mais de 6 mil mediadores de leitura, voluntários que leem para as crianças, trabalho esse que já impactou a vida de 111 mil crianças e jovens. O seu propósito é empoderar crianças e jovens de comunidades rurais da Amazônia por meio da leitura e da gestão de bibliotecas comunitárias, promovendo intercâmbios culturais com a leitura, a escrita e a oralidade para ajudar a formar pessoas mais engajadas na transformação de suas realidades.

Em 2024, a Associação Vaga Lume recebeu, pela terceira vez, o Selo de Direitos Humanos e Diversidade da Prefeitura de São Paulo. Em 2023, foi eleita pela terceira vez, sendo duas consecutivas, como a Melhor ONG de Educação do Brasil pelo Prêmio Melhores ONGs do Instituto Doar. No mesmo ano foi contemplada pelo novo prêmio United Earth Amazônia, na categoria ESG, da sigla em inglês Environmental, Social, and Corporate Governance (Ambiental, Social e Governança) e, também, foi uma das organizações selecionadas em todo o mundo para receber uma doação da filantropa MacKenzie Scott. Em 2022 foi vencedora do Prêmio Jabuti na categoria Fomento à Leitura. Conheça o mini documentário Vaga Lume no YouTube e acesse o site da associação.

(Com Nayanne Moura/2PRÓ Comunicação)