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Espetáculo inspirado em Ailton Krenak chega à CAIXA Cultural São Paulo

São Paulo, SP, por Kleber Patricio

Foto: Dalton Valério.

“Somos mesmo uma humanidade?” Essa é a pergunta que ecoa no palco de “Ideias para adiar o fim do mundo”, espetáculo protagonizado por Yumo Apurinã com direção de João Bernardo Caldeira, que chega à CAIXA Cultural São Paulo para temporada gratuita de 9 a 12 de abril, sempre às 19h. A apresentação integra a programação do Abril Indígena, mês dedicado à luta e à visibilidade dos povos originários no Brasil, e contará ainda com bate-papo com o público, oficina de atuação e sessão em Libras.

Inspirado no best-seller de Ailton Krenak, o espetáculo leva ao teatro reflexões sobre as ficções que sustentam as ideias de humanidade e de Brasil. Após temporadas no Rio de Janeiro, a montagem inicia sua circulação nacional por São Paulo.

Em cena, Yumo Apurinã interpreta a si mesmo: um homem do povo Apurinã que, evangelizado na infância, tenta reconstruir sua relação com a ancestralidade, soterrada pelas estruturas contemporâneas de dominação. Morador do Sudeste, Yumo enfrenta em sua vida cotidiana estereótipos persistentes: “Você é índio de verdade? Come carne de macaco? Por que não está na sua aldeia?”. Em cena, esse corpo racializado pela sociedade, que lhe imputa a pecha de “índio”, atravessa estereótipos, enquadramentos e racismos vivenciados inclusive em sua carreira.

“Sou constantemente colocado à prova. Meu corpo não corresponde ao ‘índio’ do imaginário da cidade, mas também não caibo em outras classificações. Ainda assim, sei quem sou: um Pupỹkary Apurinã. O pertencimento é o que me orienta. Sei de onde vim, onde estou e penso meu futuro a partir disso”, afirma Yumo.

A partir das trajetórias de Ailton Krenak e Yumo Apurinã, a peça explicita a violência fundadora do Estado brasileiro: a distinção entre corpos considerados civilizados e aqueles historicamente destinados ao apagamento, à expropriação e à morte.

Até a Constituição de 1988, os povos indígenas eram tutelados pelo Estado e considerados “relativamente incapazes”. A obra recupera esse processo histórico e evoca o gesto de Ailton Krenak na Assembleia Constituinte de 1987, quando pintou o rosto de preto em protesto contra o retrocesso nos direitos indígenas.

Em um planeta marcado por forças como tiro, boi, cimento e cruz, o espetáculo evidencia como processos de extermínio, etnocídio e devastação ambiental seguem em curso, atravessados pelas forças coloniais que moldaram o país.

“A crise ambiental é também uma crise de imaginação. O teatro pode nomear e preencher ideias que vão se esvaziando, como ‘crise climática’ e ‘colonização’, até perdermos a relação com essas catástrofes. Não existe floresta sem os povos que nela habitam. Reflorestar o imaginário é ampliar horizontes, mas também uma forma de reparação”, explica o diretor e dramaturgo João Bernardo Caldeira.

Para Yumo Apurinã, o espetáculo surge a partir de uma escuta coletiva: “Se eu busco adiar o meu próprio fim todos os dias, minha primeira tarefa é estar presente. Quando escuto Krenak, sei que estou ouvindo muitas outras vozes de sábios e parentes. Quando estou em cena, minha mãe, meu pai e meus antepassados estão ali. Nunca estamos sozinhos.”

A peça circulará ainda por outras unidades da CAIXA Cultural em Curitiba, Belém e Brasília. No Rio, se apresentará no Circo Crescer e Viver, nos dias 24, 25 e 26 de abril.

Histórico do Espetáculo

O espetáculo estreou com temporadas de ingressos esgotados no Rio de Janeiro, nos teatros Futuros e Municipal Sérgio Porto. Integrou ainda o 14º Festival Interculturalidades, em Niterói, e o 3º Festival Amir Haddad. A convite das ONGs La Clima e File Foundation, foi selecionado para integrar a programação da COP 30, em Belém do Pará, no âmbito do ‘Dia da Justiça Climática’, ampliando sua circulação para o circuito internacional de debates sobre crise do clima, territórios e direitos dos povos originários.

Sinopse

Num planeta em crise, devastado por tiro, boi, cimento e cruz, um indígena nascido na Aldeia Mawanaty, na Amazônia, investiga as raízes de seu povo sabotadas pela colonização. Pela primeira vez no teatro, “Ideias para adiar o fim do mundo” percorre o pensamento do líder indígena Ailton Krenak para abordar as ficções que sustentam as ideias de humanidade e de Brasil.

Yumo Apurinã

Yumo Apurinã nasceu em Cacoal, interior de Rondônia, onde o povo Apurinã, original do Amazonas, firmou-se na Aldeia Mawanaty, do povo Cinta Larga, no município de Pimenta Bueno. Começou a fazer teatro no ensino médio, em Espigão D’Oeste, quando atuou e escreveu a peça “Myrunguêre e Nara”, premiada no Festival Estudantil Rondoniense de Artes e apresentada em Porto Velho. Aos 19 anos, foi para o Rio de Janeiro sob o sonho de dedicar-se à carreira de ator. Nos últimos anos, formou-se como ator pela Casa das Artes de Laranjeiras e foi indicado duas vezes, em 2022 e 2023, ao Prêmio APTR de Ator Jovem Talento pelas peças “Por Detrás de O Balcão” e “O Balcão” (ambas sob direção de Renato Carrera). Atuou ainda em “Karaiba” (2023), uma adaptação da obra de Daniel Munduruku, que circulou por todo país. Em 2023, atuou em “Vôo Livre”, da Companhia Brasileira de Teatro, direção de Márcio Abreu, e em “Guasu”, dirigida por Vilma Melo. Escreveu e atuou nos solos “Os Meus Olhos” (2021) e “Tibira e a Mãe” (2020), com o qual ganhou o prêmio de melhor ator do FestiCAL Online. Entre seus últimos trabalhos estão ainda “Ricos de Amor 2” (2023), de Bruno Garotti; “O Turista Aprendiz” (2022), de Murilo Salles, além dos espetáculos “Krum” (2021) e “Tybyra, Uma Tragédia Yndygena Brasileira” (2021).

João Bernardo Caldeira 

Doutor em Artes Cênicas pela ECA-USP, desenvolveu a pesquisa “Derrocada do sujeito universal e reflorestamento de existências: teatros de falas”, que investiga a cena contemporânea a partir da emergência de corpos dissidentes. Pós-graduado em Gestão e Políticas Culturais pelo Itaú Cultural e pela Universidade de Girona, é mestre em Artes da Cena e graduado em Comunicação e Direção Teatral pela UFRJ. É autor, diretor, professor, produtor e pesquisador teatral, além de jornalista cultural. Idealizou e produziu a peça “Para Meu Amigo Branco”, em 2023/24, com direção de Rodrigo França e inspirada no livro de Manoel Soares. Dirigiu, produziu e escreveu espetáculos como “Eu Quem Eu Somos”, “Avenida Central” e “Atafona O Fim”. Produziu e escreveu o espetáculo “Funk Brasil – 40 Anos de Baile”, entre outros. Desde 2008, é colaborador de cultura do jornal Valor Econômico.

Ailton Krenak 

Ailton Krenak é um líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro da etnia indígena Krenaque. Nasceu em 1953 no estado de Minas Gerais, na região do Médio Rio Doce. É imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Mineira de Letras. Natural de Itabirinha, em Minas Gerais, escreveu livros como “Ideias para adiar o fim do mundo”, “A vida não é útil” e “Futuro ancestral”. Conquistou grande destaque por sua atuação em prol dos direitos indígenas. Na década de 1980, passou a dedicar-se exclusivamente ao movimento indígena. Em 1985, fundou a organização não governamental Núcleo de Cultura Indígena, visando promover a cultura indígena. Na Assembleia Constituinte, em 1987, que elaborou a Constituição Brasileira de 1988, Ailton protagonizou uma das cenas mais marcantes da mesma: em discurso na tribuna, vestido com um terno branco, pintou o rosto com tinta preta para protestar contra o retrocesso na luta pelos direitos indígenas. Em 1988, participou da fundação da União dos Povos Indígenas, organização de representação dos interesses indígenas no cenário nacional. Em 1989, participou da Aliança dos Povos da Floresta, movimento que busca o estabelecimento de subsistência econômica através de reservas naturais na Amazônia.

Programação formativa

Oficina de atuação “Teatro, identidade e imaginação: outras formas de ser e estar em cena”

Ministrada por Yumo Apurinã e João Bernardo Caldeira, a oficina compartilha práticas de atuação desenvolvidas durante o processo de criação do espetáculo “Ideias para adiar o fim do mundo”. A partir de exercícios de corpo, imaginação e composição cênica, os participantes investigam modos de construir presença em cena, articulando memória, identidade e narrativa pessoal.

A atividade é gratuita e aberta ao público, voltada a artistas, estudantes de teatro e interessados em artes cênicas em geral, a partir de 16 anos.

Datas: 11 e 12 de abril (sábado e domingo)

Horário: das 14h às 17h

Local: Auditório da CAIXA Cultural São Paulo

Vagas: até 25 participantes

Classificação indicativa: 16 anos

Certificação: haverá emissão de certificados

Bate-papo com os criadores do espetáculo

Após a sessão do dia 10 de abril (sexta-feira), o público poderá participar de um bate-papo com o ator Yumo Apurinã e o diretor João Bernardo Caldeira.

Data: 10 de abril (sexta-feira)

Duração: 30 minutos.

SERVIÇO:

TEATRO

Ideias para adiar o fim do mundo

Local: CAIXA Cultural São Paulo – Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo/SP (próxima à estação Sé do Metrô).

Temporada: De 9 a 12 de abril de 2026.

Dias e Horários: Quinta a domingo, às 19h

Sessão com acessibilidade Libras – sexta, dia 10/04

Entrada Franca: Os ingressos serão distribuídos 1h antes da sessão, limitados a um ingresso por pessoa.

Duração: 75 minutos.

Classificação indicativa: 12 anos

Patrocínio: CAIXA e Governo do Brasil.

Oficina de atuação “Teatro, identidade e imaginação: outras formas de ser e estar em cena”

Ministrada por Yumo Apurinã e João Bernardo Caldeira

Datas: Dias 11 e 12 de abril (sábado e domingo) – Início às 14h / Término às 17h

Duração: 3 horas/dia

Vagas: 25 participantes

Classificação indicativa: 16 anos

Público-alvo: atores, atrizes, estudantes de artes cênicas e interessados(as) em geral.

Inscrições gratuitas pelo link https://forms.gle/nFfQWj5SSNzNaPSW7.

Ficha técnica

Atuação, texto e cenário: Yumo Apurinã

Direção, texto, cenário, idealização e direção de produção:

João Bernardo Caldeira

Voz em off: Ailton Krenak

Direção assistente: Carol Ozório

Preparação corporal: Giovanna Aguirre

Figurinos: Wangleys Manaó

Iluminação: Djalma Amaral

Trilha sonora original: Felipe Storino

Bases e paisagens sonoras: Xipu Puri, Felipe Storino, Juão Nÿn, Kae Guajajara e Kandu Puri

Projeções mapeadas: Renato Krueger

Consultoria iconográfica: Juão Nÿn

Colaboração artística: Cesar Augusto

Visagismo: Sandro Akroá

Cenotécnico: Humberto Silva Jr.

Fotografia: Dalton Valério e Clarissa Ribeiro

Identidade visual: Leticia Andrade

Assessoria de imprensa: Marina Franco – Expressiva Comunicação

Residência artística: Aldeia Marakanã

Produção executiva: Ludimila Dangelis

Produção local: Iza Marie Miceli

Assistência de produção local: Natasha Di Santiago e Gabriel Barbosa

Realização: São Bernardo

Patrocínio: Caixa Cultural.

(Com Marina Franco/Expressiva Comunicação)