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Martins&Montero recebe ‘Entrevero’, nova exposição de Michel Zózimo

São Paulo, por Kleber Patricio

Michel Zózimo – Pavão Azul, 2025 – acrílica e nanquim sobre linho unique – 
260 X 150 X 5 cm. Fotos: © Fábio Del Re e Carlos Stein/Viva Foto/Cortesia Martins&Montero.

A partir de 24 de maio de 2025, a galeria Martins&Montero apresenta ‘Entrevero’, exposição individual do artista Michel Zózimo que reúne um conjunto inédito de obras desenvolvidas ao longo dos últimos dois anos. É a primeira vez que o artista expõe uma pintura de grande formato, dando continuidade ao rigor persistente que atravessa sua pesquisa e produção — uma obra porosa ao tempo, à textura e à natureza.

Zózimo apresenta trabalhos em múltiplos suportes — colagens, desenhos, pinturas, cerâmicas, bordados, bronze e madeira —, todos marcados pela mesma lógica formal e rítmica. A diversidade dos meios não compromete a unidade do conjunto, pelo contrário: a reforça. Os bordados, feitos em parceria com a artista Fernanda Gassen, são como pinturas feitas com agulha em que a técnica se reinventa conforme as exigências da imagem. As cerâmicas, iniciadas há mais de uma década, trazem o peso do tempo maturado entre modelagem, padrão e matéria.

Michel Zózimo – Lâmina 11, Gata lambendo romã, série Livro Verde, 2024 – grafite aquarelado e nanquim sobre papel algodão unique – 40 x 30 cm.

O título Entrevero opera como núcleo conceitual e campo semântico expandido. Nomeia o que se mistura, o que se embaralha, o que se vê sem nitidez. Carrega, ainda, a ressonância regionalista do sul do Brasil: a confusão como embate, como tensão indistinta entre forças em movimento. E, por fim, deixa ecoar o verbo ‘entrever’, esse gesto liminar entre o visível e o que escapa. A exposição, como o nome sugere, é um território de emaranhados: entre técnica e intuição, natureza e artefato, figura e fundo, humano e não humano.

Zózimo dá mais desdobramentos à sua pesquisa principal de imagens enciclopédicas antigas, atravessadas por marcas de sua própria temporalidade — ruídos da impressão, texturas involuntárias, falhas que se tornam matéria. A essas imagens ele responde com um gesto paciente e contínuo, que remete à tatuagem tebori: sobre o papel, o nanquim constrói luz e sombra por meio de retículas de pontilhados, como se desenhasse a partir de uma memória táctil do tempo. É uma espécie de transe gráfico, que o artista Cristiano Lenhardt, autor do texto da exposição, descreve como ‘psicogravação’ — um fazer que se aproxima da meditação e que dissolve o autor em sua própria repetição.

A exposição revela um entrevero de flores, frutos e animais, onde o olhar do espectador se vê convocado a reconhecer formas, padrões, olhos — em uma evocação à pareidolia, essa herança ancestral de identificar rostos por instinto à sobrevivência. Não há, porém, uma narrativa linear. O que guia a experiência é o desencadeamento sensorial, um ímpeto orgânico sequencial que conecta as obras como se fossem derivações de um mesmo corpo.

Michel Zózimo – Ave do paraíso com pé direito, da série Tábuas, 2024 – grafite aquarelado, nanquim sobre madeira acácia, fixação verniz fosco unique – 16 x 26 x 3 cm.

Há em Entrevero uma afirmação sutil — mas firme — de uma política do indistinto. Nas obras, como na vida, não há separações rígidas: animais humanos e não humanos compartilham o mesmo plano, assim como figura e fundo se dissolvem um no outro. É nesse terreno ambíguo que a exposição se estabelece: a imersão em um universo onde tempo, matéria e gesto se misturam.

Sobre o artista

Os desenhos, bordados, cerâmicas, colagens, esculturas e instalações de Michel Zózimo (Santa Maria, 1977) partem de distintos assuntos, originários de pesquisas visuais que investigam acontecimentos naturais e oníricos, como que retirados de velhas enciclopédias impressas ou livros mágicos. Dentre os assuntos: a formação de pedras, a origem de vulcões e montanhas, a queda de meteoritos, os planetas que nos cercam, as estranhas formas de corais, conchas e árvores, a possível existência de objetos voadores não identificados, a execução de truques de mágica, as operações transformadoras da alquimia e da magia, as imagens que povoam pesadelos, os desenhos de tatuagem em estilo horimono e os filmes de ficção científica.

Em 2024, apresentou a individual Livro Verde no Instituto Ling (Porto Alegre), que acompanhou o lançamento de seu livro de artista. Em 2023 participou do Artist-in-residence Programm des Salzburger Kunstvereins, produzindo a publicação de artista BERG. Em 2021 realizou a individual O nome vem depois, com curadoria de Lilia Schwarcz, na Sé Galeria, em São Paulo. Entre as principais mostras estão 36º Panorama da Arte Brasileira (2019, MAM/SP), RS XXI (2017, Santander Cultural/RS), Soft Cover Revolution (2015, Fundación Arte Vivo Otero Herrera/Madri), Festival Vídeo Brasil (2014, SESC/SP), 9ª Bienal do Mercosul (2013, Memorial do Rio Grande do Sul/RS), Temporada de Projetos Paço das Artes (2012, Paço das Artes/SP), Rumos Artes Visuais (2011, Itaú Cultural/SP) e Programa de Exposições Centro Cultural de São Paulo (2010, Centro Cultural de São Paulo/SP), recebendo o Prêmio Residência Artística do PECCSP no Hangar em Barcelona, no ano de 2011. Tem dois livros publicados através de Prêmios de Incentivo à Produção Crítica da Funarte: Assim que for editado, lhe envio (2013) e Estratégias Expansivas da Arte: publicações de artistas e seus espaços moventes (2010).

Michel Zózimo: Entrevero

Abertura: 24/5/2025 | 13h – 18h

Visitação: até 28/6/2025 | de terça a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 11h às 17h

Martins&Montero – Rua Jamaica, 50 – São Paulo, SP

(Com Carolina Amoedo/A4&Holofote Comunicação)